A VITÓRIA DA PURPURINA CONTRA AS BAIONETAS
Documentário Dzi Croquettes resgata história de um dos grupos mais irreverentes da cena brasileira

Por Alexandre Figueirôa
Editor da Revista O Grito!

Os anos 70, apesar da ditadura militar, não foram totalmente em vão. Foi naquele período sombrio e de repressão violenta contra quem discordasse do regime que surgiu o Dzi Croquettes, um grupo teatral que durante nove anos escandalizou o público e os censores com performances cuja irreverência totalmente fora dos padrões de conduta moral estabelecidos entraria para a história do teatro brasileiro. Há muito esquecido, a memória desta aventura ímpar da contracultura tupiniquim agora pode ser revisitada graças ao documentário de Tathiana Issa e Raphael Alvarez, em cartaz no Cinema da Fundação, no Recife.

Os espetáculos do grupo eram inspirados nos musicais da Broadway e tinham influência do jazz e da bossa-nova, mas os artistas surpreendiam pelo deboche e uma estética transgressora, abusando da purpurina, dos cílios postiços e trajes femininos sobre belos corpos musculosos e peludos. Os quadros apresentados eram uma mescla de show de variedades típico de cabarés em que não faltavam imitações de Carmen Miranda, tangos dançados entre homens e um humor sarcástico e agressivo. As figuras eram caricatas, andróginas e todos os textos e números eram criações dos próprios integrantes do grupo. Eles contestavam a realidade machista, mas não eram travestis. Os figurinos também eram criados por eles a partir de restos de fantasias de escolas de samba e artigos achados no lixo.

O Dzi Croquettes foi uma experiência coletiva fruto de uma época conturbada, mas que curiosamente parece ter encontrado um ambiente favorável para florescer a partir da contestação de valores e da opressão reinante, numa época em que ser gay e assumir isto publicamente era um risco. Além do Brasil, o grupo se aventurou no exterior e foi aclamado pelo público e crítica na Europa, sobretudo em Paris, cidade que o abrigou por um longo período.

Apesar da porralouquice aparente, os bailarinos e atores do grupo tinham um grande senso de profissionalismo quando estavam no palco. Parte disto se deve ao talento de Lennie Dale, um dançarino norte-americano ligado aos movimentos de vanguarda novaiorquinos que veio para o Rio de Janeiro e passou a ser o mentor do grupo após encontrar Wagner Ribeiro, o idealizador da trupe. Dale exigiu dos integrantes o domínio de técnicas de sapateado, balé clássico e canto. O rigor cênico mesclado com a irreverência espontânea do grupo causou frisson e o sucesso chamou a atenção dos militares.

Grupo floresceu numa época em que ser gay e assumir isto publicamente era um risco (Fotos: Divulgação)

Para recontar a história do Dzi Croquettes, Tathiana – que é filha do cenógrafo do grupo – e Raphael se valeram de muitos depoimentos de artistas a exemplo de Marília Pêra, Betty Faria, Elke Maravilha, Ney Matogrosso, Pedro Cardoso, Nelson Motta e Cláudia Raia, entre outros, que acompanharam a trajetória do grupo, além dos poucos remanescentes, entre eles: Benedito Lacerda e Cláudio Tovar. As palavras mais comoventes, no entanto, são, sem dúvida, da atriz Liza Minelli, espécie de madrinha internacional e que os promoveu na Europa. Os dois realizadores também contaram com o precioso registro de uma apresentação do grupo feito pela TV alemã.

O excesso de sonoras talvez seja um pouco cansativo do ponto de vista narrativo, mas tem o mérito de resgatar histórias memoráveis e situar o espectador sobre o período de atuação do Dzi Croquettes, um conjunto de artistas cujo talento deixou marcas irreversíveis no cenário nacional e que, sem a pretensão de serem engajados políticamente, questionou a seu modo o status quo da ditadura militar mundo afora.

Também não será demais vê-los como inspiradores de outras iniciativas do gênero no panorama teatral do país. O teatro besteirol dos anos seguintes e até mesmo experiências como a do Grupo Vivencial, aqui em Pernambuco, são exemplos desta influência. Assistir ao documentário é, portanto, uma excelente oportunidade para reviver as alegrias e tristezas de uma época e também de redescob rir o gosto pelo desbunde que nos permitiu seguir em frente, apesar da tortura e da repressão sexual.

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