Debilitado: transtornos pessoais perpassam a obra literária de Soseki

ORIENTE INTENSO
Denúncia ao imperialismo japonês, críticas políticas ou intriga de paixões, todas as leituras são possíveis neste essencial romance oriental
Por Alexandre Figueirôa, colunista d’O Grito!

CORAÇÃO
Natsume Soseki
[Globo, 208 págs, 2008]

Nos últimos anos o mercado editorial brasileiro tem aberto, cada vez mais, as suas portas para autores orientais. Excelente oportunidade de entrar em contato com escritores essenciais e que permaneciam meio obscuros por aqui. É nesta leva que chegou recentemente às livrarias, pela Editora Globo, Coração (Kokoro), de Natsume Soseki, considerado um dos mais importantes escritores japoneses e um dos pioneiros do modernismo no país do sol nascente (pardon, pelo clichê geográfico inevitável, mas sempre eficaz). A obra de Soseki influenciou autores contemporâneos, mas o reconhecimento de seu valor só aconteceu após sua morte em 1916. Ele viveu no período do imperador Meiji, e alcançou, ainda, o início da era Taisho, testemunhando, portanto, os efeitos da modernização do Japão com o fim do regime de xogunato e o começo da fase de industrialização e ocidentalização da cultura japonesa.

Embora o espaço seja curto para esmiuçar a biografia do escritor, talvez sejam relevantes as informações a seguir: seu nome de nascimento era Natsume Kinnosuke e ele era filho de uma família de samurais. Além disso, sabemos que se graduou na Universidade de Tóquio e foi professor de inglês, tendo passado três anos em Londres como bolsista. A sua obra de estreia foi Eu Sou um Gato (Wagahai wa neko de aru), de 1905.

Em 1907, Soseki deixou de ensinar e resolveu dedicar-se apenas à literatura e ao trabalho de crítico, fase em que se acentuou o seu inconformismo, motivado, em parte, pela transformação histórica promovida pela burguesia de seu país e, ainda, pelas atribulações de sua vida pessoal. Segundo Roberto Kazuo, mestre em filosofia pela USP e prefaciador do livro, estes transtornos acabaram perpassando a obra literária de Soseki e lhe debilitou o estado físico e mental. Resultado: crises nervosas e uma doença crônica que pôs fim à sua vida. Bom, esse tipo de escritor, mesmo sem querermos forçosamente estabelecer uma lógica psicanalizante de análise, contudo, convenhamos, esse detalhe obscuro de estertores existenciais acabam por provocar curiosidade e ler Coração parece repentinamente uma imposição a qual é melhor não resistir.

Como todo autor ao qual somos apresentados, um bom prefácio à obra torna-se imprescindível. Felizmente, tal premissa foi perfeitamente observada e um texto introdutório para esclarecer a persona literária de Soseki e mesmo apresentar possíveis chaves de leitura, nos é ofertada de forma convincente. Depois, podemos até discordar das escolhas de Kazuo para estabelecer tal percurso, contudo, sejamos francos, este tipo de oferta para uma literatura com características singulares como a japonesa é uma exigência. Ao mergulharmos diretamente no texto vamos sentir necessidade de conhecer mais profundamente um autor que se consagra a relatar um triângulo amoroso (como tantos outros da literatura mundial), mas o faz de uma forma peculiar ao um estilo, sem dúvida, muito particular, e ainda, por cima, com marcas de uma tradição narrativa ao qual não estamos habituados. Podemos ler Coração como uma intriga de paixões ou fazer como sugere Shoji Shibata, professor da Universidade de Tóquio de Estudos Estrangeiros, encará-lo como denúncia ao imperialismo japonês e um simulacro das intenções egoísticas da política japonesa. Apeteceu-me, porém a primeira opção. Intensa e capaz de provocar uma certa angústia por conta da construção econômica na explicitação dos sentimentos e do minimalismo na estrutura das frases

A primeira parte do livro quando os personagens chave na exposição, ao leitor, do conflito ao qual Soseki quer nos conduzir, me encanta particularmente. Ela é composta por uma iniciativa de sedução entre os dois narradores com tanta carga emocional quanto aquela cuja finalidade é devassar a instabilidade do coração humano e é o motivo da narrativa dramática central na qual dois homens entram em rota de colisão silenciosa pela conquista de uma mesma mulher.  A diferença é que no encontro entre os narradores paira uma relativa austeridade. Em vez de paixão, Soseki nos mostra a conquista de uma amizade, em que não há espaço para gestos extremos, porém nem por isso ela é desprovida de uma atmosfera de arrebatamento amoroso, tênue, é verdade, mas muito sincera e comovente. Esse jogo de possibilidades está tanto na forma de contar as coisas quanto nas interpretações sugeridas. Esta particularidade da escrita de um autor em sua maturidade faz de Coração uma leitura para a qual devemos estar aptos a não estabelecer premissas e abrir-se sem reservas ao universo por ele desenhado, mesmo sabendo o quanto perdemos numa tradução de uma língua que se expressa de uma forma tão diferente da nossa.

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