Foto de por Tiago Calazans.

O No Ar , em sua 13ª edição, conquistou a maturidade, ainda que permeado por descobertas nem sempre bem-vindas. Assim é a adolescência, afinal. A noite desse sábado (22), na Coudelaria Souza Leão, na Várzea, Zona Oeste do Recife, mostrou que o No Ar é hoje o mais importante festival de música da cidade e um dos mais relevantes do País. Em um momento em que muitos eventos do tipo obrigaram-se a encolher e outros tantos entraram em hiato ou sumiram de vez, o Coquetel não só cresceu em tamanho como firmou uma personalidade que foi construída ao longo de uma década. Dito assim, parece simples, mas é um trabalho que envolve esforço e drible frente às intempéries de um segmento sempre instável, o da produção cultural.

Outro ponto a favor do Coquetel e que foi visto nessa edição: sua capacidade de se comunicar através de seu lineup. A escalação da como atração principal e de e Céu, bem como Barro + Juçara Marçal e dizem o seguinte: estamos firmes com nosso estilo, mas queremos participar do debate maior travado hoje na música pop brasileira. Em um momento de instabilidade democrática vivido pelo Brasil hoje colocar artistas que se posicionam é saber responder a uma demanda do público, que afinal, também está nas ruas, nos shows, em uma interação que ainda não sabemos o que irá produzir mais pra frente. Os gritos de #ForaTemer nos shows de Céu e Baiana e os gritos de “100% Feminista” de Conká (em faixa escrita ao lado de MC Carol) são reflexos de hoje e que servirão para encorpar a história do Coquetel enquanto festival de música.

Nesse tamanho que atingiu, alguns percalços foram sentidos na nova edição. O principal deles: a estrutura da Coudelaria, do modo como está, não suporta a quantidade de pessoas que foram ao festival. Com ingressos esgotados, o No Ar teve filas grandes para comprar fichas de bebida, comprar bebidas, comer nos food trucks estacionados próximos ao palco Sonic e entrar e sair nos shows do palco Velvet, na área interna. Como fica em uma área elevada na Várzea é preciso usar vans para chegar e ir embora do festival. Mais filas. A organização do evento respondeu a esses problemas ainda no domingo com uma publicação no Facebook. “Estamos conscientes das falhas e de eventuais transtornos que não foram de nossa responsabilidade, mas que impactaram na apreciação do festival. Sabemos que ainda é longe para isso, mas já nos comprometemos a melhorar esta infra estrutura e o atendimento para a edição do ano que vem assim como viemos melhorando em outros aspectos ano após ano”, escreveram. Veja a íntegra:

Este ano o festival dividiu suas atrações em três palcos. O primeiro deles, o Aeso, iniciou as atividades ainda à tarde, com shows de nomes como Projeto Sal, AMP e Tagore, que lançou no evento seu novo disco, Pineal. O palco Sonic recebeu as atrações principais e ficava na parte interna da Coudelaria. A Baleia, do Rio de Janeiro, abriu os trabalhos por volta das 18h. Com uma grande base de fãs, a banda vem ganhando, em pouco tempo, destaque no cenário pop brasileiro. Apresentaram faixas de Altas, o segundo disco. Os franceses do Moodoïd trouxe um eletrônico psicodélico para o No Ar. O projeto, que veio pela primeira vez ao Brasil, é encabeçado pelo produtor e músico Pablo Padovani. No momento em que o Boogarins subiu ao palco, a Coudelaria já estava bastante cheia. A banda de Goiania apresentou músicas do disco Manual, lançado ano passado. Chegaram instigados no palco após uma série de shows nos EUA e Europa desde que lançaram o disco.

Barro tocou músicas da fase solo. (Foto: Beto Figueirôa).

Barro tocou músicas da fase solo. (Foto: Beto Figueirôa).

Enquanto isso no palco Sonic, Barro fez um show que celebrou a atual fase de sua carreira. Em sua nova fase como músico, o vocalista da Bande Dessinée apresentou faixas de Miocárdio, lançado este ano. Trouxe ao palco Juçara Marçal, que fez participação no disco, além de Russo Passapusso, da BaianaSystem. Juçara cantou “Nouvelles Vagues”, presente em Miocárdio, além de “Velho Amarelo”, presente em seu disco solo, Encarnado. Já Russo soltou rimas improvisadas no palco. Foi um dos shows. Barro fez um dos shows mais intensos do palco externo e saiu de lá ainda mais fortalecido como um dos principais nomes do pop nacional.

Jaloo fez show para público lotado. (Foto: Beto Figueirôa/Divulgação).

fez show para público lotado. (Foto: Beto Figueirôa/Divulgação).

Em seguida Jaloo trouxe seu som experimental eletrônico para o palco Sonic, apresentando faixas de #1, lançado no ano passado. Natural de Belém o músico trabalha questões de gênero em suas músicas e faz um som que oscila entre o pop tradicional das pistas com ritmos tradicionais paraenses. É sua estética, no entanto, que maios emerge de suas apresentações, sempre marcada por um tom teatral.

Em seguida foi a vez de Deerhoof injetar peso no palco Sonic. Por conta do show lotado de Karol Conká no palco interno, a apresentação da banda norte-americana não teve uma lotação como os anteriores. O punk noise do grupo era contrastado pelo carisma da vocalista Satomi Matsuzaki, que até comandou coreografias com a plateia. A mistura do twee-pop com guitarras pesadas, adicionadas por toques de humor, faz o show improvável do Deerhoof ser tão legal.

Esse incrível perfume do invisível de Céu aqui no @noarcm.

Um vídeo publicado por Revista O Grito! (@revistaogrito) em

No palco principal Céu levou um público imenso para conferir seu novo show baseado em músicas de Tropix, disco lançado este ano. Faixas como “Perfume do Invisível”, “Arrastar-Te-Ei” e “Amor Pixelado” foram cantadas em coro. Ela também mostrou novas versões de músicas de trabalhos anteriores, como do Caravana Sereia Bloom (2012), mas aqui com arranjos dançantes e eletrônicos, bem ao sabor do seu atual álbum. Foi assim que vimos “Cangote” com uma batida rocker que deu uma cara bem diferente à faixa. Céu ainda embalou os gritos de #foratemer do público antes de encerrar seu show.

A noite no palco principal trouxe Karol Conká, hoje uma das principais cantoras de rap brasileiro (na real, uma das nossas principais popstars de qualquer gênero). Os requisitos para ocupar o espaço necessário de estrela feminina do País ela tem – atitude, carisma, hits – mas ela ainda tempera esse conjunto padrão com um olhar sobre temas importantes, como feminismo e raça. Seu show oscila entre músicas feitas para bombar qualquer festa, como “Gandaia” e “Tombei” com discursos fortes de empoderamento como “100% Feminista”, feita ao lado de MC Carol e “É o Poder”. Na jogação que foi a apresentação, dois fãs subiram ao palco para servir como dançarinos improvisados da rapper. Ela divulgou o seu aguardado segundo disco, que será lançado em novembro.

Karol Conká, poderosa. (Tiago Calazans).

Karol Conká, poderosa. (Tiago Calazans).

A BaianaSystem subiu ao palco já depois das 2h quando muita gente já decidira ir embora para evitar filas das fãs. Eles basearam o show em faixas do novo – e ótimo disco – DuasCidades, lançadas este ano. A banda faz uma mistura de rock, rap e música eletrônica tendo como base elementos tradicionais da música urbana feita na Bahia. O novo álbum debate questões problemáticas de Salvador, mas que podem ser aplicadas às grandes metrópoles brasileiras. O público cantou e dançou faixas como “Lucro (Descomprimindo)”, “Playsom” e “Duas Cidades”. A noite ainda teve a apresentação do duo pernambucano Phalanx Formation, no palco Sonic, já próximo ao raiar do dia.

O BaianaSystem fechando o palco Velvet. (Tiago Calazans).

O BaianaSystem fechando o palco Velvet. (Tiago Calazans).

O público na Coudelaria, por Beto Figueirôa.

O público na Coudelaria, por Beto Figueirôa.

Mais Coquetel Molotov
2015: Emicida, Ava Rocha e Cidadão Instigado
2014: Karina Buhr, Russian Red, Flora Matos
2013: Metá Metá, Bixiga 70, Perfume Genius
2012: Thiago Pethit, Blonde Redhead, Acabou Chorare

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