Estrelas do Orinoco (Foto: Felipe Botelho/ Divulgação)

UM BARCO À DERIVA DA SOLIDÃO
Dualidade das atrizes Iami Rebouças e Fernanda Paquelet é o grande destaque da peça
Por Rafael Dias

Estrelas do Orinoco, montagem de Felipe de Assis para o texto do mexicano Emílio Carballido, é uma daquelas peças que nos pega pelo calcanhar. Surpreende nossas indiferentes expectativas com um golpe incisivo na parte mais fraca de nosso corpo. Uma armadilha perspicaz. De uma comédia musical aparentemente tola e sem grandes pretensões, em tom quase brega com canções de bolero, vira uma tragicomédia de tom denso, que vai a fundo nos meandros da solidão humana e do amor. A tônica oscila entre essas duas vertentes, mas se finca mais com a segunda. Uma ótima surpresa, sem dúvida uma das melhores, senão a melhor, apresentação do Festival do Teatro Brasileiro – Cena Baiana.

Sagaz e bem-humorado, o espetáculo consegue dosar muito bem o risível e o drama, sem que isso soe chacota ou provoque algum tipo de constrangimento. Aliás, a dualidade está muito bem delineada na dramaturgia cênica do texto. Toda a narrativa é guiada por apenas duas personagens, Mina e Fifi, duas dançarinas de clubes e bares, que atravessam o leito do rio Orinoco rumo à esperança de um trabalho bem remunerado.

A primeira, mais velha, representa a fatalidade, o tédio e o pragmatismo perante os infortúnios, amargurada pelos vários embates, promessas não-cumpridas e quedas que sofreu pela sua peregrinação por cabaréis da costa andina. A outra, nova e idealista, ainda conserva os sonhos e a pureza longe da crueza e da injustiça do mundo. Embora com índoles distintas, elas são amigas confidentes e muito próximas, o que ajuda a enfrentarem os obstáculos que irão enfrentar na jornada. Após a tripulação inteira sumir misteriosamente, as companheiras irão conduzir juntas um barco à deriva, perdidas no meio da Amazônia, entre a Venezuela e a Colômbia, de rios caudalosos e mata fechada. Viagem que, num curso inaudito, as levará ao interior de si mesmas. E reconhecer o quanto uma precisa da outra, de um afeto realmente sincero.

A dupla de personagens forma peso e contra-peso interessantes, como uma metáfora para o pêndulo de nossas motivações. Ora tomamos parte de uma, ora da outra. Se em dado momento acreditamos que elas vão sair daquele ambiente inóspito e de um destino trágico, partindo para uma nova cidade e reconstruir a vida, como diz Fifi, logo depois nos filiamos à lógica realista de Mina: “tudo se acaba e morre”. As duas não deixam de ter uma certa precisão, cada uma carrega as forças motrizes da pulsão da vida. E isso é que encanta e dá beleza ao espetáculo.

Mas o valor universal do texto não teria o mesmo impacto não fosse a atuação esplêndida das atrizes Iami Rebouças e Fernanda Paquelet. Com um humor ágil, sincronia e graciosidade em cena, elas desmontam a expectativa do público, que, preparado para rir, também se compadece. O cenário, formado por dois blocos de uma proa de barco, com entradas e saídas, portas e janelas que se abrem, multiplica os sentidos e dão uma noção mais ampla ao espaço cênico. Elementos que fazem um todo coeso e muito bem montado. Um peça tão bela quanto sua singeleza.

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