Da Revista O Grito!, em Belo Jardim (PE)

As questões LGBT dominaram a mostra competitiva de curtas na noite da quinta-feira (24) do IV Cine Jardim. Foi também a sessão, desde o início do festival, que levou mais público ao Cine Teatro Cultural do Instituto Conceição Moura. Público esse que aplaudiu com entusiasmo, sobretudo, os filmes Vaca Profana, de René Guerra, e Edney, de João Roberto Cintra.

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Gênero e performatividade travesti tem sido a temática central dos filmes de Guerra e nesse seu último trabalho o foco é uma travesti cujo principal desejo é ser mãe. Vaca Profana tem como atriz principal a travesti Roberta Gretchen. Ela contracena com a atriz pernambucana Maeve Jenkings e apesar de ser praticamente uma estreante consegue uma performance bem convincente no papel de Nádia, uma personagem que, graças a concepção da trama, escapa dos clichês usuais com o qual as travestis são em geral representadas.

Outra boa surpresa foi o curta do cineasta pernambucano João Roberto Cintra, Edney. Apesar de ser seu primeiro filme de ficção, Cintra conseguiu com Edney, construir uma história tocante a partir de um argumento simples sobre um homem que durante o dia trabalha em um restaurante e, à noite, canta em um bar, usando adereços que lembram o cantor Ney Matogrosso de quem é fã.

Para compor o personagem vivido pelo ator Heraldo Carvalho, Cintra pensou na sensibilidade dos gays de gerações de anos atrás que nem sempre sabiam ou podiam lidar livremente com sua expressão sexual e acabavam levando uma vida dupla. A escolha por uma narrativa com uma forte carga melodramática, onde a música é um elemento essencial na condução da trama, foi uma aposta que funcionou e sensibiliza o espectador.

Cena de Tanto Olhar o Céu Gastei Meus Olhos. (Divulgação).

A noite de quinta teve ainda o filme de estreia de Julia Leite, Ainda Não, delicada história sobre a relação de uma mãe com sua filha. A garota recebe a visita da mãe por uns dias e esconde a sua opção sexual por achar que não é o momento certo de revelar para ela que é lésbica.

O único documentário exibido foi O Quebra-cabeça de Sara, do cineasta Allan Ribeiro. O filme foi lançado no ano passado e já tem uma longa carreira em festivais. Rodado em preto e branco, nele vemos a diarista do próprio diretor, contar como descobriu que sua filha estava tendo um caso amoroso com outra mulher. A câmera não mostra o rosto de Sara e apenas a acompanha enquanto ela faz as tarefas domésticas, mas a sinceridade do depoimento da diarista e a forma como ela lida com seu preconceito são muito bem aproveitadas por Ribeiro para mostrar como as questões de gênero ainda causam impacto nas pessoas e o que elas fazem para superar isso quando estão envolvidas diretamente com o fato.

Na noite de sexta foram exibidos mais quatro curtas na mostra competitiva do Cine Jardim e entre eles destacamos o carioca Casca de Baobá, dirigido por Mariana Luiza, e o argentino El Nino y la Noche, de Claudia Ruiz. Casca de Baobá é quase um falso documentário e tem como mote mensagens trocadas entre uma jovem negra nascida em um quilombo no interior do estado e sua mãe que vive cortando cana nas proximidades do quilombo. Dessa conversa apreendemos as mudanças sociais que elas vivem e o desejo de ambas em preservar a memória da cultura negra.

Argumento simples e eficiente: o curta Edney. (Divulgação).

Já o curta de Claudia Ruiz é uma animação em stop motion que aposta num universo lúdico e de fantasia envolvendo um menino e sua avó com marionetes. Completaram a programação De Tanto Olhar o Céu Gastei meus Olhos, de Nathalia Tereza, e Farol Invisível, de Bruna Callegari.

Na competitiva de longas foram exibidos Açúcar, de Renata Pinheiro e Sergio Oliveira, e A Noite Escura da Alma, de Henrique Dantas. Açúcar, estrelado por Maeve Jenkings, fala da decadência dos engenhos de cana na zona da mata pernambucana a partir do olhar de uma herdeira que retorna a casa grande onde passou parte de sua vida e se confronta com fantasmas do passado e do presente. Já o documentário aborda o período da ditadura no estado da Bahia, usando a linguagem do documentário e da performance na construção da história.

O Cine Jardim tem sua cerimônia de encerramento nesse sábado com o anúncio e premiação dos vencedores das mostras competitivas e do Concurso Cleto Mergulhão. Haverá também homenagem a Bete Jaguaribe, professora e atualmente diretora do Porto Iracema das Artes – Escola de Formação e Criação do Ceará e exibição do curta baiano Mamata, de Marcus Curvelo.

O filme A Noite Escura, exibido na competição de longas. (Divulgação).

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