KAFKA EM PERNAMBUCO: A HORA DO PESADELO
Curta O Médico Rural reafirma virtude do Cine PE de, por vezes, ser vitrine de aberrações audiovisuais

Por Alexandre Figueirôa
Articulista da Revista O Grito!, em Recife

Em Pernambuco vez por outra ocorre um fenômeno curioso. Certas produções, sabe-se lá como e por quais razões, ganham uma boa quantidade de dinheiro, mas os resultados apresentados são inversamente proporcionais aos recursos investidos. E o CinePE tem sido, de tempos em tempos, a vitrine de exposição destas aberrações audiovisuais. Desta vez o protagonista da façanha foi o curta Um Médico Rural, ficção de Cláudio Fernandes com roteiro baseado em conto de Franz Kafka, exibido no último dia da mostra competitiva de curtas. Para começo de conversa, adaptar Kafka para o cinema não é tarefa para qualquer um. A complexidade narrativa do escritor implica em uma maturidade intelectual capaz de ir além da superfície do texto e captar os signos turvos de suas frases e pensamentos. Não duvidamos que o diretor e roteirista seja uma pessoa culta, todavia o clima estranho provocado pelo autor de O Processo e Metamorfose não pode ser reduzido ao festival de sandices que a produção pernambucana nos apresenta. A idéia de pesadelo que se intentou atingir é canhestra e denuncia abertamente que quem estava por trás das câmeras trocou alhos por bugalhos. Pesadelo mesmo foi ter que agüentar 21 minutos daquilo. Um constrangimento para um Estado que se gaba de ter hoje o cinema mais criativo e ousado do país.

Outra chatice sem fim exibida na noite do sábado foi o curta Nego Fugido, ficção baiana de Cláudio Marques e Marília Guerreiro. O filme mostra um casal que vai para o interior conhecer um antigo ritual que revive a fuga dos escravos. A proposta é interessante, mas não funcionou. O casal se envolvendo com a celebração foi um tiro no pé e no final não ficamos sabendo muita coisa sobre o ritual. O rapaz e a moça parecem dois abilolados atrapalhando a fruição da cerimônia, cuja força imagética é inquestionável e poderia ter rendido um trabalho marcante. Menos grave foi o que nos trouxe o documentário paraibano Família Vidal. O filme em formato digital na verdade é uma grande reportagem e fruto de um tra balho de conclusão de curso de Diego Benevides. Embora tenha um bom gancho ao flagrar o cotidiano de uma família circense, ele peca pelo excesso de depoimentos e por mostrar pouco a tal família no picadeiro. Para atingir um resultado mais lúdico e realmente digno para ser classificado como documentário era preciso ter acompanhado os integrantes da família por um longo tempo, de modo a captar todas as nuances de suas vidas marcadas pelo amor à arte do circo.

Os melhores filmes da noite vieram todos do Rio de Janeiro. Áurea, de Zeca Ferreira sobressai-se pela homenagem que presta às cantoras de bares e clubes noturnos que apesar de talentosas nunca alcançaram sucesso. O curta, também digital, é nomeado como ficção, mas fica claro a sua pegada documental e que acaba resultando nos momentos mais bonitos do filme pela delicadeza ao mostrar Áurea não apenas cantando, mas antes e depois de descer do palco. Outro trabalho interessante foi Geral, documentário filmado em 2005, por Anna Azevedo durante os últimos jogos em que o estádio do Maracanã ainda tinha geral, espaço em que os torcedores ficavam em pé na mesma altura do gramado separado deste apenas por um fosso. O ritmo é bom e Anna realiza uma espécie de ensaio visual sobre este estado de espírito chamado torcedor de futebol. Por fim, encerrando, a maratona de curtas deste ano, foi exibido Homem-Bomba, de Tarcisio Lara, no qual dois garotos conversam no alto da favela enquanto, a mando de traficantes e empunhando armas, vigiam o acesso ao morro. Sensível, bem filmado, ele só tem problema no áudio e por vezes o diálogo entre os meninos fica truncado – aí não sabemos se é do próprio filme ou do equipamento de projeção. Mas Tarcisio dá o seu recado e extrai poesia de uma situação dramática.

Agora vamos esperar a premiação, embora no caso dos curtas ela, a meu ver, acaba sendo algo secundário. O mais importante mesmo é a oportunidade de durante uma semana podermos ter uma idéia de como anda a produção audiovisual brasileira em toda sua diversidade de temas e estilos. Neste sentido, independentemente dos formatos, foi bom ver Recife Frio, de Kleber Mendonça; Bailão, de Marcelo Caetano; Sweet Karolynne, de Ana Bárbara; Azul, de Eric Laurence; Quando a Chuva Chegar, de Jorane Castro; Áurea, de Zeca Ferreira e, sobretudo, Ensaio de Cinema, de Allan Ribeiro.

Alexandre Figueirôa é doutor em Cinema pela Universidade de Sorbonne, na França e autor dos livros Cinema Novo: A Nova Onda do Jovem Cinema e Sua Recepção na França e Cinema Pernambucano: Uma História em Ciclos, entre outros. É professor da pós-graduação em Cinema da Universidade Católica de Pernambuco.

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