Drama Policial
Produção modesta, mas extremamente bem sacada, Cela 211 (Celda 211, Espanha/França) de Daniel Monzón é um daqueles filmes que já estão na prateleira, e merecem recomendação. Toda a ação do drama policial se passa num presídio, durante uma rebelião comandada pelo perigoso Malamadre (Luis Tosar), onde um recém contratado agente carcerário (Alberto Ammann) se passa por detento da tal cela 211 para não ser assassinado. Uma ótima e bem sucedida produção franco-espanhola, vencedora de 8 prêmios Goya (o Oscar da Espanha), incluindo filme, diretor, roteiro adaptado e ator, já desperta interesse em Hollywood, que deve ser refilmado em breve pelo oscarizado Paul Haggis. [Daniel Herculano]
NOTA: 8,0

Quase A Letra Escarlate
Emma Stone é uma garota com que ninguém se importa no colegial, até contar para sua improvável melhor amiga a Mentira (Easy A, 2010) de que perdeu a virgindade no final de semana. A bola de neve já foi. Com uma mentira maior do que a outra, e de resultados ainda mais preocupantes. Agora ela é a piranha da escola. Como lidar? Com um sorriso no rosto, claro. Uma divertida e irônica comédia, que mesmo num universo e protagonista adolescente, tem a capacidade de trabalhar sua história com inteligência. No fundo, é uma grande brincadeira com a história do livro/filme A Letra Escarlate. E a homenagem que faz às comédias e comédias românticas dos anos 80, e à filmes de John Hughes é um espetáculo.

Emma Stone, que não é exatamente um modelo de beleza, mas tem uma sólida presença na tela, e cativa com seu jeitinho instigante de ser. E com tiradas sensacionais. Seu numeroso elenco de apoio funciona as maravilhas como escada para a jovem estrela. Stanley Tucci e Patricia Clarkson estão estonteantes como os pais, rápidos no gatilho oral e com uma química positivamente absurda. Thomas Haden Church faz bem o professor durão, mas de boas intenções, e Lisa Kudrow cumpre o papel de sua esposa e conselheira escolar que detém mais do que os segredos dos alunos. O ponto baixo do elenco é Amanda Byrnes como uma pudica religiosa.[Daniel Herculano]
NOTA: 8,0

Mais que um filme sobre o Facebook
No outono de 2003, Harvard foi palco da criação de algo que mexe hoje com mais de 500 milhões de pessoas. E o filme A Rede Social (The Social Network, 2010) de David Fincher, nos mostra os meandros, as motivações e como surgiram as ideias da sua criação. Não importa se você não sabe, não usa, ou mesmo não gosta do Facebook. Estamos falando de um filme imperdível. A tal rede social abordada é capaz de conectar todo o mundo, enquanto seu criador, Mark Zuckerberg (Jesse Eisenberg, frio, calculista, põe uma conversa por cima da outra, tem um olhar perdido, mas pensa como ninguém) é incapaz de se conectar com outro ser humano.

Sua narrativa fluente nos propicia estar conectados à criação do Facebook, em sua escalada ao sucesso, e no meio de dois julgamentos. Uma edição inteligente, que percebemos continuidade, mesmo sem a cronologia dos fatos. A fotografia é fria, predominantemente cinza. O uso da trilha que geralmente desnorteia, é outro acerto. E tudo acontece com uma condução tecnicamente perfeita de David Fincher, guiado por um texto brilhantemente adaptado por Aaron Sorkin (do livro Bilionários por Acidente), de ritmo ditado pelos diálogos. Ao invés de um triângulo amoroso, um triângulo de amizade, com bilhões de dólares envolvidos. Além de Zuckerberg e Eduardo Saverin (Andrew Garfield, ótimo como o brasileiro, e então melhor amigo), entra em cena Sean Parker (Justin Timberlake, à vontade como um falastrão e persuasivo ser), a cobra criada que inventou o Napster.

Um drama elegante, com atuações na medida certa, de narrativa bem construída e executada com primor por seus realizadores, A Rede Social um dos melhores filmes de 2010. Mesmo que não queira ser usuário do Facebook, ainda assim se conectar é preciso, nem que seja apenas ao filme. [Daniel Herculano]
NOTA: 9,0

Plano Engenhoso
Quando um filme é lançado no Brasil com seu título original repetido, sem tradução, seguido de um subtítulo, em tese, seu subtítulo seria a explicação do título, uma tradução meio torta, e quase nunca bacana.E mais uma vez isso ocorre, agora com Micmacs – Um Plano Complicado (Micmacs à Tire-Larigot, 2009) do diretor e roteirista Jean-Pierre Jeunet. Como de costume em suas obras, o autor imprime sua marca visual tão peculiar, com um jogo de cena sempre memorável. Em cada detalhe, em cada momento.E suas histórias bem peculiares e personagens idem, só contribuem para uma conjunção artística tão interessante.

Bazil (Dany Boom, divertidíssimo) perdeu o pai numaexplosão de mina terrestre aos servir o exército francês.Passados 30 anos, se torna um atendente de locadoras, sem nenhum tipo de perspectiva. Para piorar, é atingido por umabala na cabeça, sobrevive, mas, conforme os médicos corre risco de morte com a bala alojada. A sequência da bala perdida é sensacional, entre outras, sempre com um senso de estética vintage perfeita, e saídas mirabolantes. Palmas, palmas… Clap, clap, clap.

Sem casa, nem trabalho, passa a viver na rua, e se sustenta de espetáculos meios circenses. Ao acaso chega numa comunidade que vive num lixão, que recicla todo tipo de bregueço, com utilizações tão excêntricasquanto suas personalidades. Um velho ladrão, uma calculadora humana, um inventor de força desproporcional, uma (doce) contorcionista, um ex-homem bala (o ótimo Dominique Pinon, usual colaborador do diretor), um homem de frases feitas e a uma cozinheira (e mãe frustrada). Juntos, vão levar à frente uma dupla vingança, tanto da morte do pai de Bazil, quanto contra o responsável (indiretamente) pela bala perdida em sua cabeça. O plano engenhoso vai colocar frente à frente, os dois maiores vendedores de armamentos do mundo. Mas tudo com o estilo inconfundivelmente inventivo de Jeunet. Esqueça o título esquisito, Micmacs é imperdível.[Daniel Herculano]
NOTA: 9,0

Trash Brega Cult
Quentin Tarantino e Robert Rodriguez uniram forças para fazer a homenagem aos filmes Z dos anos 70 e 80, o projeto Grindhouse (À Prova de Morte e Planeta Terror, respectivamente), mas também embutiram trailers de filmes falsos no meio da projeção. E um desses trailers, era o de Machete (Idem, 2010). Era um filme de ação trash, em que um policial mexicano (Danny Trejo) vingativo matava as pessoas com um facão (o Machete do título). Com muito sangue e pedaço de gente voando, o trailer foi o preferido do público, com um buzz positivo na internet.

E aqui temos o filme! Ele realmente foi feito. E seguindo à risca a estética Grindhouse. Parece um LP antigo tocando, com falhas e imperfeições no negativo. Exagerado e improvável. E muito, mas muito divertido. Sabe aqueles botecos de esquina, com maior cara de pé sujo? Mas com uma cozinha deliciosa? Pronto, esse é Machete. E nem falei ainda do elenco. Qual filme tem o luxo de ter o pior ator de todos os tempos, Steven Seagal, como o vilão? Robert DeNiro é um Senador do mal, Michelle Rodriguez faz uma justiceira gostosa, Jessica Alba uma agente de imigração insinuante, Lindsay Lohan a filinha de papai drogada, Don Johnson e Jeff Fahey adicionam mais vilania ao longa, e Cheech Marin é o padre do bem. Tudo, uma grade piada. Mas muito bem feita.[Daniel Herculano]
NOTA: 8,0

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