O CONVITE DA ROSA DOS VENTOS
Num cinema escondido da Boa Vista, até mesmo os mais descolados voyeurs ficam literalmente estupefatos
Por Biu, especial para O Grito!

ATENÇÃO: A leitura do texto abaixo é desaconselhável para pessoas sensíveis e pudicas.

Recife. Na rua da Soledade, bem próximo à avenida Conde da Boa Vista e quase ao lado de um edifício de arquitetura estranha com forma de cilindro, famoso por abrigar alguns moradores cujas atitudes não são lá muito bem vistas pelos defensores da moral e dos bons costumes, está instalado um cinema. Não é um cinema comum. Nele não existem anúncios luminosos, pipoca, posters com Angelina Jolie ou Brad Pitt e muito menos filmes como os que ficam em cartaz nas salas multiplex dos shoppings centers. As obras exibidas são iguais àquelas que, nas prateleiras das locadoras de dvd’s, ficam sempre meio escondidas para não chocar os fregueses bem comportados, sobretudo mocinhas e crianças.

Além disso, o cinema tem sessões contínuas desde o final da manhã até à madrugada e os principais freqüentadores do estabelecimento são homens desacompanhados. Vez por outra travestis e raríssimas mulheres dão o ar de sua graça. Todos, em geral, demonstram uma agilidade espantosa no ato de sumir da calçada para reaparecerem dentro da sala.

O Cinemix, à primeira vista, não é diferente de tantos outros cinemas especializados em exibir filmes pornográficos. Dentro dele, nada que não se veja nas melhores salas do gênero. A projeção é meio apagada e das caixas de som ecoam sussurros e gemidos abafados em meio a diálogos monossilábicos quase ininteligíveis. O ambiente apresenta um cheiro de coisa azeda no ar misturado com desinfetante barato de eucalipto. Espectadores em movimentos furtivos nas poltronas, e um monte de gente inquieta andando para lá e para cá, se esgueirando pelas laterais da platéia, sem dar muita atenção para o que se passa na tela, completam o cenário. Até aí tudo bem.

Mais adiante, no fundo, avista-se uma sala totalmente escura em que muitos não resistem e nela mergulham para em seguida saírem apressados, ajeitando as calças. À direita, um pequeno corredor desemboca num salão onde as pessoas conversam, bebem cerveja e uísque barato. Outro corredor pintado de vermelho também apresenta uma intensa movimentação. De um lado mais homens perfilados, medindo quem passa dos pés a cabeça e, do outro, uma curiosa sucessão de portas que fecham e abrem em intervalos não muito grandes para abrigar duplas que depois de uma rápida troca de olhares resolvem experimentar ao vivo e em cores as emoções reais da sétima arte. Mais ao fundo, os banheiros. Também movimentadíssimos. E, mais ao fundo ainda, um pequeno espaço com mesas e outro bar, além de um mezanino, onde grupos animados conversam e bebem de forma descontraída sempre de olho em quem chega no recinto.

Esta descrição, como se pode ver, apesar de sugerir uma certa permissividade e afrouxamento da conduta de seus freqüentadores composta por comerciários, ambulantes, policiais (fardados), estudantes secundaristas, desocupados, biscateiros de toda ordem, evangélicos (com bíblia sob o braço), jovens, velhos, brancos, negros, mulatos, bichas, bofes, embora possa causar um certo susto a quem não conhecer os meandros do comportamento sexual masculino é até bem corriqueira em qualquer grande cidade do Brasil e de outros tantos lugares mundo afora. Todavia, no Cinemix, às segundas-feiras, por volta das 21 horas, acontece algo que mesmo os mais descolados voyeurs irão ficar literalmente estupefatos.

É quando, com grande alarido, a tela deixa de reproduzir imagens projetadas e no palco, onde, até há poucos instantes, figuras desfocadas faziam suas estrepolias sexuais, dá-se início a mais uma festejada “noite do prazer”, um show de sexo ao vivo que só é possível de acreditar que aconteça se o assistirmos. As poltronas, até então quase desocupadas, são disputadas pelos presentes com avidez e uma curiosa fila de marmanjos se posta numa das extremidades do palco.

Surge então ela, a estrela da noite, denominada pelo apresentador do espetáculo com o sugestivo nome de Rosa dos Ventos. Uma morena brejeira, de coxas avantajadas e cabelo longo no melhor estilo dançarina de banda de brega, ao lado de um sofá, dá início, então, a uma espécie de dança sensual, seguida de um rápido strip-tease. A platéia urra e o apresentador pede silêncio e exige que todos permaneçam comportados se não a Rosa dos Ventos irá embora. Despida e fazendo uma pose sugestiva no sofá, Rosa dá o comando e pasmem, a tal fila do lado direito do palco começa a se deslocar. E a partir dali a moça, na maior naturalidade e faceirice da face da terra, vai traçando, um a um, os candidatos a coadjuvantes da cena.

O show é meio monótono e na quinta performance já começa a provocar desistência entre os assistentes que, aos poucos, levantam das poltronas e voltam para as atividades paralelas que vinham desenvolvendo até então. Mas a turma da fila, essa, não arreda o pé. O roteiro é sempre o mesmo. O cara some pela lateral do palco e reaparece junto à Rosa como veio ao mundo, sob a luz dos refletores. Esta, então, inicia o processo de “descontração” do pretendente ao coito. Pega ali, pega acolá, faz um boquete, sobe no sofá, e quando o parceiro exibe capacidade de completar o ato, pimba, Rosa bota a camisinha nele e gira que nem biruta de aeroporto até o partner momentâneo atingir o ápice do seu desejo, ejacular e mostrar com um riso de garanhão vitorioso, acenando para o público, que é pau para toda obra. O surupembê só desanda se um dos candidatos nega fogo. Aí, então, tudo pode acontecer.

Numa espécie de frenesi em que se misturam as mais complexas emoções por ver a derrota fragorosa de um semelhante, a platéia não perdoa e sob apupos e vaias estrondosas humilha o coitado que foi incapaz de fazer jus ao desejo reprimido pelos que não tiveram coragem de provar das delícias prometidas por Rosa dos Ventos. O apresentador tenta acalmar os ânimos e se não consegue, Rosa some e o show acaba. Se a patuléia se aquieta, Rosa prossegue fazendo sexo com até o último dos pretendentes, por fim dá uma cancha aos que estão na beira do palco, deixando que eles alisem suas carnes cansadas. Solta beijos e despede-se certa do dever cumprido. As luzes se apagam, as imagens borradas da projeção retornam, os espectadores vão tentar uma última chance de descarregarem suas energias, mesmo que para isto se valham de outros homens, de algum travesti ou alguma prostituta que ficou por ali meio perdida.

Os agraciados com os carinhos de Rosa, saciados ganham a porta da rua. Lá fora as pessoas passam indiferentes e apressadas para pegar os ônibus que as levarão ao subúrbio. O apresentador do show, anuncia aos remanescentes que no dia seguinte o prazer voltará ao palco do Cinemix e sem pudor diz que será “a noite dos iguais”. O que acontece nesta dita cuja, só indo lá para conferir.

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