ALTA ROTAÇÃO PARA OS CURTAS
Globo abre janela para produção audiovisual local, mesmo que escondido na grade de programação
Por Lidianne Andrade

Muito festejados durantes os festivais de cinema, os curtas-metragens não possuem espaço na mídia normal convencional. Em diversos eventos são eles os ovacionados e, muitas vezes, motivo de auditórios lotados. O problema é que, para ver esses filminhos (são pequeninos mesmo, em geral 30 minutos), era necessário ficar ligado na agenda de eventos da cinefilia ou procurar os cineclubes da vida. A ansiedade dos fãs do audivisual do gênero foi curada neste domingo, 19 de julho, com a estréia na Rede Globo Nordeste do programa Agora Curta, a partir as 0h20, com apresentação de Hermilla Guedes, produzido pela Luni Produções.

Com direção de Lula Queiroga, Marcelo Pinheiro, e Amin Stepple, o programa semanal é modesto, mas com aspectos de grande produção. A começar pela parceira de exibição: Rede Globo Nordeste. “Este é o primeiro projeto em série terceirizado da emissora. Achei muito legal o investimento, é uma mão dupla: a emissora cumpre seu papel social divulgando a cultura pernambucana, e a cultura ganha o padrão de qualidade de estar na Globo”, comenta Marcelo Pinheiro, em entrevista por telefone.

O Agora Curta surgiu há um ano, em conversas entre o trio diretor e amigos. Papos indo e vindo, a idéia de fazer um programa para exibir curtas locais foi amadurecendo e ganhou mais força com a encomenda da emissora da criação de um programa à Luni Produções. Quando questionado do porquê de colocar a mão na massa apenas agora, Lula diz que não haveria época mais propícia: “Estão surgindo novas escolas de audiovisual, curso superior e os festivais estão fazendo sucesso. A estréia não poderia ter vindo em melhor hora”, responde. O formato é básico: exibição de um curta por programa, com debate com o cineasta ou alguém da produção antes de mostrar o filme.

A princípio, seria voltado para produções pernambucanas, já que o programa é produzido aqui, mas é aberto para material de todo o Brasil. Nada de novo, vale lembrar o Curta Pernambuco, exibido pela TV Universitária da Universidade Federal de Pernambuco desde 1994. Lula reconhece: “O formato é antigo, apenas com um cuidado a mais com o produto. O diferencial está na qualidade do que será exibido, tivemos muita cautela na produção para deixar o visual legal e agradável, mas com o tempo os ajustes virão”.

Deixar a apresentação a cargo da pernambucana Hermilla Guedes (Cinema, Aspirinas e Urubus, Céu de Suely) foi uma idéia conjunta da equipe, e muito bem aceita pela mesma. “É de certa maneira uma estréia para mim, mas o fato de estar entrevistando pessoas que eu já conheço e com quem eu trabalhei me deixa mais tranqüila: eu sei que, se não der certo, a gente repete”, brincou a atriz durante a gravação dos programas-pilotos, em novembro. O material a ser exibido também merece uma pincelada, já que foi cedido mais na ideologia do trabalho que pelo seu valor real de divulgação. “Os preços cobrados pelos diretores foi simbólico, eles compraram a idéia de programa e acreditam no sucesso dele”, afirmou Queiroga.

Ir ao ar após o programa Lance Final, próximo da 0h20 da manhã, não preocupa os idealizadores do projeto. Lula acredita que, dos 60 mil televisores ligados para ver o bate boca esportivo ao vivo, uma grande porcentagem continuará com a televisão ligada. Já Marcelo Pinheiro mostra mais entusiasmado: “Sou esperançoso, acredito em 80 mil telespectadores. É um programa novo, com uma proposta legal. Mesmo sendo tão tarde, o cineasta e estudante de áudiovisual vai esperar para ver. E a galera que curte os curtas também vai acabar ficando um pouquinho mais tarde na frente da TV”, comenta Marcelo, aos risos.

Diante de uma televisão que pouco explora o gênero cinematográfico, é preocupante a linguagem a ser utilizada para conversar com o telespectador. Afinal, crítica sobre e para cinema ainda não é algo alcançado por todos, muitas vezes dita de e para os cineastas. Sobre o assunto, os diretores entrevistados são unânimes em afirmar, que, a princípio, o foco é exibir produções locais e matar a necessidade dos cineastas pernambucanos e fãs da área de encontrar seu espaço. A linguagem vai ser um pouco direcionada para quem é do meio sim, mas esta será uma das mudanças do programa. Tudo dependerá com o tempo e a resposta do público. O formato não é definitivo, apenas as entrevistas devem permanecer. “Vamos interagir com o público, com promoções, enquetes, concursos culturais e agenda de eventos. A linguagem vai mudar, apenas temos que conhecer melhor quem está nos assistindo”, explica Lula.

Para a estréia, foi exibido O Mundo É Uma Cabeça, de Bidu Queiroz e Cláudio Barroso, com Cláudio no estúdio. O documentário fala sobre o maguebeat e a tragetória de seu maior difusor, Chico Science. O começo não poderia ter sido melhor escolhido, O Mundo… tem fotografia assinada por Paulo Jacinto Reis e traz no currículo os prêmios de escolha do público no Festival Internacional de Curtas de São Paulo (2005) e o Unibanco de Cinema no Festival Internacional de Curtas de São Paulo 2005. Para o futuro, já estão gravadas entrevistas com o pernambucano Léo Falcão (com Lastnote.com, que conta no elenco Lázaro Ramos) e o cearense Eric Laurence.

Serviço:
Agora Curta
TV Globo
Aos domingos, após o Lance Final (0h20)

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