São Paulo Sociedade Anônima
Luiz Sérgio Person
Brasil, 1965, 1h47, Drama. Distribuição: Vitrine Filmes
Oportunidade única aos amantes e curiosos do cinema no Brasil: mais de 60 anos depois, um dos mais importantes filmes da nossa cinematografia ganha nova vida no circuito exibidor do país. Trata-se de São Paulo Sociedade Anônima (1965), deslumbrante longa-metragem dirigido por Luiz Sérgio Person que, após seis décadas, perdura como retrato inigualável do espectro conservador da sociedade brasileira. Na capital pernambucana, o público acompanhou uma sessão especial na última quinta-feira (26), seguido de debate com a cineasta e atriz Marina Person, filha e uma das responsáveis pela preservação do legado do pai. A mediação foi do diretor pernambucano Fábio Leal (O Faz-Tudo).
Falecido precocemente aos 39 anos, Luiz Sérgio Person teve uma breve e profícua vida artística. Além da direção, foi ator e fundou o Auditório Augusta, importante sala de espetáculos teatrais na capital paulista. De acordo com Marina, o pai escreveu o roteiro de São Paulo SA com apenas 26 anos. “Ele escreveu o filme quando estava estudando cinema na Itália. Inicialmente, o título do filme era Agonia. Só nas vésperas da filmagem que ele mudou para São Paulo Sociedade Anônima. E eu acho que é um título que fala tanta coisa, uma sociedade de anônimos, uma sociedade em que as pessoas não podem ter uma individualidade, não podem ter um desejo que não seja contribuir para que aquela grande máquina funcionasse daquela forma”.
Com impressionante rigor formal, o filme se aproxima da estética de realizadores italianos contemporâneos a Person, como Roberto Rossellini e, principalmente, Michelangelo Antonioni. Inventivo ao brincar com a não-linearidade temporal da narrativa, o enredo acompanha Carlos (Walmor Chagas), indivíduo mergulhado no boom econômico proveniente da implantação da indústria automobilística na cidade de São Paulo.

Em contraponto à ascensão financeira, Carlos se sente cada vez mais angustiado, em crise com a própria vida conjugal e perdido em meio aos arranha-céus paulistanos. O requinte dos enquadramentos organizados pela câmera de Person é potencializado pelas sequências externas nas ruas de São Paulo, dando ao filme acentuado caráter urbano, realístico, como uma reportagem audiovisual daquela época histórica.
É um título que fala tanta coisa, uma sociedade em que as pessoas não podem ter uma individualidade, não podem ter um desejo que não seja contribuir para que aquela grande máquina funcionasse daquela forma
Marina Person
“É um filme que foi feito com muitas cenas documentais. Os personagens são fictícios, os diálogos são quase todos muito idênticos ao que está no roteiro, porém o que está no entorno… tem muita coisa documental. É uma ficção contaminada pela realidade o tempo inteiro”, testifica Marina Person sobre a composição do filme. Para a cineasta, é importante notar como a obra, mesmo com o olhar característico do período retratado, concebe personagens femininas complexas, com “contornos dramáticos” que as aprofundam enquanto sujeitos, em uma representação à frente do seu tempo.
Processo de restauração
A restauração do longa em 4K foi realizada em parceria entre a Lauper Films (criada por Person e Glauco Laurelli em 1966), a Cinemateca Brasileira e a Cineteca di Bologna, na Itália, com o apoio da Film Foundation (organização fundada por diretores como Martin Scorsese e Steven Spielberg, e dedicada à preservação de filmes) e da Hobson Lucas Family Foundation (do cineasta George Lucas e sua esposa, a empresária Mellody Hobson).
O relançamento no Brasil é capitaneado pela Sessão Vitrine Petrobrás, com ingressos a preços reduzidos em cidades de todas as regiões brasileiras. Em Pernambuco, além do Recife, a obra tem sessões no Cine Teatro Guarany, em Triunfo, no sertão do estado.


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