Rec-Beat 2025 começa com diversidade sonora e homenagens ao manguebeat

Primeira noite reuniu Mago de Tarso, Crizin da Z.O., Yago Oproprio e mais

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(Foto: Luana Tayze/ Divulgação)

Ao longo de quase três décadas de existência, o Rec-Beat se tornou um espaço de expansão de horizontes musicais, com um olhar especial para atrações que estão fora do lugar-comum quando pensamos no carnaval do Recife. Com uma programação gratuita e aberta para a rua, o festival faz do Cais da Alfândega um dos lugares mais interessantes da cidade desde o sábado de Zé Pereira até à terça-feira gorda. 

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DJ Boneka ficou entre os intervalos do primeiro dia do festival (Foto: Luana Tayze/ Divulgação)

“A curadoria do Rec-Beat já tá meio que consolidada, então o que a gente faz é esse cruzamento de um pouquinho da tradição com novas tendências. Há muitos anos que a gente começou a olhar também pra América Latina, África, assim, artistas afrodespóricos, assim, que é a forma que eu gosto de ouvir música, e eu acho também que é uma produção musical que as pessoas não têm acesso. O Rec-Beat meio que funciona como um filtro para apontar uma música que está sendo feita, de certa forma, em um ambiente mais periférico, menos visto. Então a gente vai buscar isso porque a gente entende que muita coisa que hoje está à margem pode estar no centro, pode estar em evidência”, aponta Antonio Gutierrez, o Gutie, diretor e curador do festival.

Em 2025, o festival segue com uma curadoria de apostas musicais vindas do bairro de Cajueiro Seco, em Jaboatão dos Guararapes, Cuba, Bélgica ou Angola, com um line-up formado majoritariamente de artistas pouco conhecidos localmente. “É um palco na rua, aberto, em meio ao carnaval. São muitas [variantes], então a gente tem que administrar tudo isso e torcer pra que dê certo”, pontua Gutie.

Carla Alves trouxe o Brega para abrir os shows da 29ª edição do Rec-Beat. Conhecida por ter sido voz dos maiores sucessos da banda Kitara, Carla rapidamente fisgou o público que transitava pelo Cais da Alfândega. 

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O caranguejo do Trap

Após a cantora, um dos maiores sucessos recentes do rap pernambucano, Mago de Tarso subiu ao palco e eletrizou o público. O rapper reveste gêneros como o trap, drill – ambos em evidência no brasil inteiro e no mundo – de símbolos da “identidade nordestina”. Do manguebeat ao forró e baião, o artista de Cajueiro Seco faz uma crítica perpétua ao preconceito contra nordestinos, sobretudo no cenário do rap nacional. 

Além de performar faixas do seu primeiro álbum, O Som do Litoral (2024), e seus maiores hits como “Carolina” e “Feito Pra Voar”, o Caranguejo do Trap também cantou “A Praieira”, em uma homenagem a Chico Science, figura que, para ele, mudou sua percepção de música. 

Com um público jovem e não tão familiarizado com o legado de Chico Science do Mangue Beat, Mago de Tarso acabou reintroduzindo símbolos e ideias do movimento contracultural a um novo público. 

“A ideia é conversar com a galera mais jovem que não fazia a mínima ideia do que foi o Mangue Beat, é um movimento que tem mais de 30 anos, é mais velho do que eu, então eu tenho sido meio que um eco da parada, e aí quando o pessoal me escuta, tem contato com a arte que eu faço, começa a conhecer Chico, Devotos, começa a conhecer o movimento Mangue. É uma responsabilidade muito grande, querendo ou não, você acaba mexendo no vespeiro, mas eu sou de Recife, eu cresci ouvindo essa parada, então eu me sinto representante disso. É uma parada muito genuína da minha parte.”, declarou o Mago de Tarso.

As artistas caribenhas Yudith Rojas (Cuba) e Nicole Mezza (Venezuela) acalmaram os ânimos depois da agitação com um repertório que mistura ritmos latinos com a salsa e danzón com elementos do jazz e do samba. Com vocais suaves e um talento afiado nos instrumentos de sopro, as artistas finalizaram a apresentação com uma homenagem ao Recife tocando um frevo.

Crizin da Z.O.: experimentalismo e crítica

Como de costume, entre uma atração e outra o público do Rec-Beat se renovou e outros rostos apareceram para acompanhar a apresentação do trio carioca Crizin da Z.O. O grupo carioca mistura influências do funk, punk, rap e música eletrônica, com letras que exploram o caos urbano e questões de classe com um tom irônico e crítico. 

Formado por Cris Onofre, Danilo Machado e Marcelo Fiedler, o grupo cativou uma porção do público que já esperava a atração seguinte, o rapper Yago Oproprio. Com um show frenético, as passagens entre o funk, o drum’n’bass, techno e até o hard metal, o experimentalismo do Crizin da Z.O. foi o momento mais interessante da noite, o tipo de arte que só se encontra no Rec-Beat. 

Sobre esse caráter inovador do seu som, Cris Onofre cometeu: “falam que o que a gente faz é muito novo, mas se não fosse Chico Science a gente não faria isso hoje […] vocês são brabo“. 

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Crizin da Z.O. (Foto: Hannah Carvalho/ Divulgação)

Recebido pelos gritos do público, Yago Oproprio foi a última atração da primeira noite do Rec-Beat 2025. O artista paulistano trouxe o show de seu primeiro álbum, Oproprio (2024). Com faixas melódicas, com samples e inspirações da MPB, do jazz e outros gêneros, o show tem um tom descontraído e intimista. O show ainda teve participação surpresa do rapper Rô Rosa, que performou o hit “Helipa”, lançado em 2021.

O show ainda contou com um momento especial: um “Parabéns Para Você” para o próprio Yago, que faz aniversário neste domingo (02). Emocionado, o rapper deixou uma declaração para os fãs, que formaram o maior público da noite. 

“Eu pude olhar por uma outra ótica a vida, eu consegui chegar a novas formas de viver sempre quando surgiu o novo sol, sempre uma nova manhã, quando tava perto de desistir eu sempre entendi que nasceria um novo dia, sempre, isso não é só pra mim não, isso é pra todo mundo que faz arte”. O primeiro dia do Rec-Beat 2025 destacou a diversidade e o caráter inovador do festival, com apresentações que transitam entre diferentes gêneros e influências musicais. Com ainda mais por vir nos próximos dias.

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Gabriel Sielawa, Rô Rosa e Yago Oproprio (Foto: Luana Tayze/ Divulgação)