Narciso
Jeferson De
Brasil, 2026. 1h30, Drama. Distribuição: Elo Studios
Com Arthur Ferreira, Bukassa Kabengele, Ju Colombo, Seu Jorge
No primeiro plano de Narciso (2026), a luz vermelha de um semáforo. A imagem carrega interessante simbolismo – desdobrado ao longo do filme – sobre os sinais fechados com os quais vidas pretas se defrontam todos os dias num país extremamente racista como o Brasil. A perspicácia estética desta e outras cenas do longa corroboram o talento de Jeferson De, diretor que tem construído uma carreira relevante a partir do posicionamento da negritude no audiovisual brasileiro. Depois dos últimos anos focado na produção televisiva, com destaque para a direção da bem-sucedida novela A Garota do Momento, Jeferson retorna ao cinema com uma releitura bem específica da mitologia grega.
Narciso (Arthur Ferreira) é um garoto órfão que, na véspera do seu aniversário, é “devolvido” pelos pais adotivos. No lar temporário gerido por Carmem (Ju Colombo), ao lado de outros jovens na mesma situação, o menino vive voltado para si, em silêncio constante. No intuito de alegrá-lo, o colega Alexandre (Faiska Alves) o presenteia com uma surrada bola de basquete que, segundo ele, tem poderes mágicos. E assevera: se Narciso acertar três cestas consecutivas, um gênio aparecerá para conceder um desejo ao garoto. A partir daí, o filme abraça certo realismo fantástico para projetar os desejos e anseios do protagonista. Os elementos evocados pelo cineasta buscam maximizar a concepção de autoimagem e identidade, características evocadas pelo personagem da Grécia Antiga que é obcecado pelo próprio reflexo. O filme descarta a temática da vaidade; o que interessa à obra de Jeferson De é esmiuçar os conflitos sociais e de raça na vida de um jovem periférico brasileiro.

Assim como no longa anterior do diretor, Doutor Gama (2021), é nítido o esforço criativo de conceber boas cenas a partir de um roteiro improducente. Tome-se como exemplo a sequência – sem cortes – da dura conversa de Carmem com o irmão Joaquim (Bukassa Kabengele); há inconteste qualidade dramática na cena, beneficiada pelas atuações dos dois intérpretes. Ainda assim, a força narrativa para a trama como um todo é diminuta. Se o trabalho dos experientes atores é elogiável, o mesmo não se pode dizer, infelizmente, de boa parte do elenco. Atuações engessadas saltam aos olhos do espectador, fragilizando a experiência do filme que, sem dúvidas, levanta reflexões extremamente válidas.
A transição da fotografia para o preto e branco, em determinado momento, é inteligente, pertinente à questão racial e ao princípio estruturante – o onírico – da narrativa. Uma pena notar, mais uma vez, como o ritmo do filme não se sustenta. Truncada, a montagem entrelaça cenas de maneira inorgânica e em momento algum é exitosa em criar o senso de urgência que algumas passagens pedem. Mesmo visualmente, a obra recai no didatismo repetitivo acerca da dualidade preto-branco. Com o perdão da comparação que quase nunca é justa, Narciso não contém a sensibilidade tocante de Marte Um (2022)ou Kasa Branca (2024),tampouco a afiada provocação política de Branco Sai, Preto Fica (2014).
Com resoluções presumíveis dos dramas pouco polidos de seus personagens, o novo longa de Jeferson De é mais eficaz quando se dedica aos símbolos do imaginário da cultura preta, como na representação da figura de Oxóssi e sua flecha atirada ao alto. Para uma obra tão calcada no sonho e na fantasia, o filme se limita a escassos momentos de inventividade e encantamento. Narciso estreou na última quinta-feira (19) nos cinemas de todo o Brasil. No Recife, está em cartaz no Cinema da Fundação (nas salas do Derby e Casa Forte) e também no Cinemark do Shopping RioMar.
Leia mais críticas
- “Narciso” repensa mito grego em leitura sobre identidade racial
- Cinderela, sua meia-irmã feia e o terror feminista
- “A Noiva!” triunfa em narrativa febril e explicitamente cinéfila
- “São Paulo Sociedade Anônima”: a colossal obra de Luiz Sérgio Person retorna aos cinemas brasileiros
- Crítica – “O Morro dos Ventos Uivantes”: nova versão se refugia na trilha pop e nos cenários extravagantes


