A paulistana entrega um dream-pop de guitarras sujas e sintetizadores cósmicos, tudo numa atmosfera hipnótica

propõe uma viagem oitentista e sentimental em “Par de Olhos”
NOTA8

A paulistana Yasmin Mamedio, conhecida artisticamente por YMA, vem entregando ao público desde 2017 pequenas doses do que estaria presente no seu mais recente álbum, Par de Olhos (2019). Assim como nas já conhecidas “Vampiro” e a faixa-título do disco, a paulistana entrega um dream pop de guitarras sujas e sintetizadores cósmicos, abrandados por uma atmosfera hipnótica. Um registro de estreia que revisita a sonoridade e a estética dos anos 1980.

Nos 26 minutos de duração, YMA expõe suas confissões e medos sobre amor. São canções em que a cantora se vê domada pelo conflito da incerteza romântica e do medo do abandono. Sentimentos que desencadeiam versos que transbordam insegurança, como na faixa de abertura “Evaporar”. Guiada pelas guitarras ruidosas, das inserções dos sintetizadores e de suspiros angustiantes, Yasmin entoa “Eu queria ter coragem pra dizer/Tenho medo de você evaporar”, expondo logo no início do registro as paletas soturnas que colorem as canções seguintes.

Ainda que com a notável referência ao psicodélico e pelo pop dançante oitentista, exemplos das faixas “Shake It” e a ensolarada “Sun and Soul”, parceria com a banda sergipana Lau e Eu, YMA e seu produtor Fernando Rischbieter optam por canções de arranjos mais amenos e de experimentos minimamente dosados, a fim de que o ouvinte possa apreciar cada elemento testado. É nessa proposta que Par de Olhos soa fantasmagórico, como em “Vampiro”, e as camadas sintéticas que sustem as oito faixas do disco transportam o ouvinte para um universo paralelo. A mesma sensação pode ser encontrada em Strange Pleasures (2013), segundo álbum de inéditas da banda de dream pop Still Corners.

Para completar o quadro de referências, o primeiro registro da paulistana se aproxima de trabalhos de bandas como Mr. Twin Sister. A mistura de ritmos da década de 80, mesclado pelas guitarras e sintetizadores, somado pelo flerte com o dream pop, facilmente permitem o público associar faixas como a já mencionada “Sun and Soul” ao que a banda norte-americana vem produzindo desde sua estreia.

O disco encerra com a delicada “Nowhere Here” e a pulsante e dolorosa “Pequenos Rios”. Enquanto na primeira Yasmin mergulha numa balinha rock melancólica, é em “Pequenos Rios” que ela se solta para as pistas de dança para escancarar a inquietação e o receio de um possível rompimento amoroso. “Em meu rosto/ Pequenos rios/ Me ferem e me sobram/ O nosso fim”, versos desalentados que marcam o refrão e são sustentados por batidas que convidam o ouvinte a dançar em torno de suas próprias tristezas.

Após quase três anos de lançamentos de singles, YMA estreia com um disco que se mantém seguro em sua proposta, não há excessos ou tentativas de surpreender o público com inovações. Par de Olhos foi cuidadosamente pensado em apresentar canções que passeiam por caminhos já conhecidos, mas, ao se cruzarem, dão forma a um universo novo e criativo, e com arranjos que possibilitam criar uma experiência visual do começo ao fim do álbum.

YMA
Par de Olhos
[Matraca / YB Music / 2019]
Produtor: Fernando Rischbieter

Sem mais artigos