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O GARI MAIS FOFO DO PLANETA
Nova animação da Pixel, Wall-E, prova que o tempo dos amores expressos nada mais é que o ledo engano daqueles que são ocos por dentro
Por Fernando de Albuquerque

WALL-E
Andrew Adamson
[Disney/Pixar, 2008]

Em tempos em que olhar para cima é a mesma coisa que observar o céu de Bagdá, achar alguma coisa fofa no meio de uma existência difícil é um achado pra lá de ser comemorado. E de longe, Wall-E é um dos filmes mais fofos dos últimos tempos. Impossível sair da sessão incólume. A não ser que você seja a mais insensível das pessoas. É de se felicitar que a Pixar, depois de Ratatouille, conseguiu de fato se reerguer ao topo dos estúdios de animação digital. Dirigido por Andrew Adamson (mesmo diretor de Procurando Nemo), Wall-E conta a história de um pequeno robô que sobreviveu à destruição do planeta Terra e se arrasta em busca de uma explicação para a própria existência. O próprio diretor chegou a comentar: “Ele é o personagem mais triste do mundo”. E sem margem para dúvidas, a concorrente Dreamworks vai ter de trabalhar MUITO para abater a melancolia existêncial e tocante com as risadas escrachadas de Kung-fu Panda, animação que estreará semana que vem no Brasil.

No cenário do filme, a Terra virou um grande lixão e as pessoas já não podem mais viver por aqui. Os humanos juntaram tanto lixo que a vida no planeta se tornou impossível e eles se mudaram para, acredite se quiser, o espaço! Todas as pessoas foram morar em uma grande espaçonave bem longe da Terra. Só dois seres sobreviveram em meio a tanto lixo: o simpático robozinho Wall-E e sua lúdica e obediente barata de estimação. Wall-E, cuja sigla significa Waste Allocation Load Lifter Earth-Class, que em português significa Localizador, Classificador e Coletor de Lixo Terrestre, foi criado para limpar o lixo produzido pelo homem e há centenas de anos ele vive sozinho no planeta, já que os outros robôs como ele quebraram por completo, ou simplesmente foram desligados. Mesmo sozinho, no meio do nada, ele permanece obstinado e continua fazendo sua tarefa de juntar o lixo. Nessa tarefa diária nosso patinho feio guarda tudo o que acha interessante. E tem uma coleção gigantesca de cacarecos que os seres de seu planeta animado descartaram. E prepare-se para uma miríade de brinquedos que, hoje, você tem na sua coleção de sucatas. Rende bons momentos nostálgicos ao lado de uma companhia agradável.

A solidão comovente de Wall-E começa a mudar quando o amor surge. Do nada, meio que sem querer querendo, ele conhece Eva, uma robozinha moderníssima que chega à Terra. E ele fica bobo de tão romântico. Faz tudo por ela: divide sua coleção de brinquedos, ensina alguns passos de dança. E Eva? Não dá a mínima para tudo. Enquanto isso nosso cafuçu-romântico-wall-e continua lá. Perseverante. Da mesma forma que veio, Eva vai-se. E nisso Wall-E nem pensa duas vezes e vai atrás dela em outra galáxia. Lá, ele descobre a nova situação em que os humanos estão no espaço — todos vivendo preguiçosamente e comendo muito. Daí o fofíssimo Wall-E e sua amada partem para salvar a Terra e os próprios humanos. Por um instante tudo parece perdido, mas o filme acaba bem. Dá pra suspirar, dar uma beijoca em quem te acompanha e sair da sessão com fôlego renovadíssimo.

Desde sua cena inicial, a abertura com a logomarca do filme, dá para perceber que Wall-E foi concebido para emocionar. Além das belíssimas cenas criadas pela animação, também há uma espécie de jornada pela história do cinema, com referências às grandes obras cinematográficas exibidas até hoje… e se você é um amante do cinema, certamente reconhecerá todas!

E enquanto perdem tempo reparando na animação perfeita criada pelo estúdio, esquecemos que nos longas da Pixar, o elemento principal é a personalidade de seus personagens. E que personalidade! Wall-E consegue conquistar até os machões com coração de pedra, mesmo soltando poucos e mínimos sons, seus atos e características emocionam demais. É interessante entender que, mesmo feito para crianças, todos os longas da Pixar consegue conquistar qualquer adulto que o assista.

COMOÇÃO
Um comentário anônimo em um blog amigo conseguiu resumir bem o que a mais nova obra-prima da Pixar causa: “é um filme de Amor. (…) Como todo apaixonado, não vi defeitos. Nem quero.” E nesse sentido poderiamos falar, por dias, sobre a belíssima direção de arte, da trilha sonora espetacular, do roteiro pra lá de bem amarrado do nome dos desenhistas envolvidos, mas a verdade é que falar disso é chover no molhado. A única coisa que vem à mente é Wall-E repetindo seu nome como se fosse um pokémon mais fofo da existência humana. A outra coisa que vem à mente é ele perdidamente apaixonado por Eva e tudo o que ele faz para ficar ao lado dela. Perto disso, todo o resto, eu disse todo o resto, perde qualquer sentido.

O filme prova que animação não é mais gênero. Pelo contrário é apenas uma ferramenta para contar histórias. E, sem margem para qualquer lampejo de dúvida, Wall-E é um dos melhores filmes do ano. E o mundo seria muito melhor se muita gente agisse como ele. Que ama, se desprende de qualquer orgulho ou valor e corre atrás sem medo de qualquer interpérie. Vamos esperar, ansiosamente, uma continuação.

NOTA: 10

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