Foto: Reprodução.

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O caso serve para ampliar o debate sobre representação feminina nas HQs

A organização do troféu HQ Mix, a mais antiga e conhecida premiação de quadrinhos no Brasil, protagonizou um dos mais vergonhosos e detratores atos de machismo com a campanha para divulgar a festa do prêmio. A imagem, de péssimo gosto e pouco apuro estético, mostrava a modelo Renata Molinaro de costas, dando destaque à bunda, em uma pose objetificada.

As peças relacionavam o logo do troféu, uma bomba acesa, com a palavra “bombar”. Foram retiradas do ar depois de diversas reclamações e críticas de leitores e pessoas ligadas ao mercado de quadrinhos. A imagem aparece em um momento de uma discussão cada vez maior sobre o machismo em diversos meios culturais.

Uma das primeiras vozes a se manifestar contra a imagem foi Aninha Costa, uma das sócias da loja paulistana Gibiteria. Ela postou em seu Facebook um texto em que explica que a campanha denigre a imagem do prêmio, criado há 27 anos para premiar e fomentar a HQ nacional. Mas fala ainda como a imagem serve para mostrar que a luta por reconhecimento das mulheres nos quadrinhos ainda está longe de terminar.

“Agora, vocês realmente acham de bom tom, em um ano em que há tanta movimentação feminista dentro do universo dos quadrinhos brasileiros e com tantas reivindicações sendo feitas pelas mulheres do nosso meio, fazer uma “peça” objetificando o corpo feminino desta forma?”

O quadrinista Pedro Cobiaco, premiado no HQ Mix ano passado como melhor novo talento – roteirista, disse que a imagem também é um desrespeito com a modelo Renata Molinaro. “Um desserviço total, um ato nocivo, no meio de uma campanha ridícula que não fez nada se não desmerecer um movimento importante que é o feminismo e também a própria cena de quadrinhos brasileira”. Em 2013, Renata saiu do programa Pânico, onde trabalhava como dançarina. “Para eles, [trabalhar] é ficar nua e ser humilhada“.

Uma das editoras da Mino, Janaina de Luna Larsen, lembra da dificuldade de inserção das mulheres nos quadrinhos, um meio predominantemente masculino. “Como um prêmio tão importante pode estar tão apartado do meio em que deveria estar inserido? Será que passaram despercebidas todas as manifestações, debates e avanços que tivemos na questão feminina? Em que planeta vive e de que maneira pretende continuar representativo se não dialoga com as pessoas que deveria contemplar?”.

Dandara Palankof, tradutora e editora de HQs, residente no Recife, disse que o prêmio tornou ainda mais explícito o machismo nos quadrinhos. “Como jogar toda a sua credibilidade pelo ralo ou O dia em que o HQMix mostrou o quanto o cenário da HQ brasileira ainda é um clube do Bolinha cafuçu e adolescente”, disse Dandara, que assina a coluna Garota Sequencial na Revista O Grito!, voltado para quadrinhos e feminismo.

Ao longo da tarde dessa quinta e sexta diversas vozes do meio se posicionaram contra a campanha. O Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ) e a ComicCon RS publicaram notas públicas de crítica ao HQ Mix. “O FIQ repudia este tipo de campanha, que não condiz com a tradição e importância que o HQMIX tem para com o mercado e com o atual momento dos quadrinhos no Brasil. Estamos trabalhando pelo respeito à diversidade e à maior representatividade. Somos contra todo e qualquer tipo de sexismo, racismo, homofobia, transfobia e qualquer outra forma de preconceito. Esperamos que a organização [do HQ Mix] atente para os fatos e a repercussão gerada, e mude seu posicionamento”, disse o FIQ. Emérson Vasconcelos, diretor da ComicCon RS, disse: “Acreditamos que isso [a repercussão] pode ser um fator importante para que a representatividade feminina nas categorias do prêmio aumente nas próximas edições”.

O grupo Mulheres em Quadrinhos divulgou uma carta aberta onde critica não só a campanha, mas também a dificuldade da premiação em dar mais visibilidade à produção feita por mulheres. Nesta edição, apenas 13% das indicadas eram do sexo feminino. “Há alguns anos, mulheres e pessoas diversas envolvidas na produção e consumo de histórias em quadrinhos lutam por mais espaço e representatividade. É inadmissível que um prêmio, que se propõe tão importante para o reconhecimento e valorização das HQs brasileiras, produza uma campanha desrespeitosa como essa, invisibilizando e ridicularizando a articulação das mulheres quadrinistas e outras agentes”, diz o texto. Leia a carta na íntegra ao final do post.

O lado do HQ MIX

Até a publicação deste post, o HQ Mix ainda não tinha apresentado nenhum pedido oficial de desculpas. Em um longo texto na fanpage do Facebook, o cartunista Jal, um dos criadores do prêmio, disse que “foi mal interpretado” e que as discussões não refletem o histórico do prêmio na promoção das mulheres quadrinistas. “Como se bastasse qualquer fato para que tudo o que foi feito por uma vida fosse esquecido. Alguém que ao menos tivesse o bom senso de lembrar que a gente não tem essa característica machista e que pode ter sido um engano. Sempre estimulamos em nossas exposições e eventos a mulher.”

* Veja a íntegra da carta aberta das Mulheres nos Quadrinhos.

Carta aberta para a organização do Troféu HQMIX
Nessa quinta-feira, 3 de setembro de 2015, o Troféu HQMIX, considerado o “Oscar dos Quadrinhos e Humor Gráfico no Brasil”, publicou por meio de sua página oficial no Facebook (www.facebook.com/hqmix) uma série de imagens como convites para entrega do prêmio HQMIX 2015, que acontecerá no dia 12 de setembro. As imagens faziam referência à bomba que simboliza o logotipo do prêmio, todas acompanhadas do texto “Venha bombar!”. Entre as peças, foi publicada a foto da modelo Renata Molinaro de biquíni, que de costas exibe sua bunda para o espectador. A campanha ficou no ar das 10h00 às 14h30 do mesmo dia e as imagens foram deletadas após diversas manifestações contrárias à mesma, na página do evento, em perfis pessoais e em grupos de discussão.
Vivemos um momento em que o debate sobre a representação feminina no mundo do entretenimento alcança proporções globais e é um dos principais temas em evidência no cenário de quadrinhos independentes também no Brasil. Sejam motivados pela crítica de leitoras, jornalistas e quadrinistas, ou pelo bom senso, muitos sites, podcasts, editoras e eventos estão revendo e adaptando sua relação com o público, contemplando cada vez mais produções diversas. Por outro lado, o avanço do debate de gênero provoca respostas cada vez mais hostis e absurdas de uma parte conservadora e machista da cena e do mercado.

Nós quadrinistas, leitoras, jornalistas, grupos e entidades diversas que assinamos esta carta de repúdio, desejamos expressar nosso desconforto e indignação com a atitude do Troféu HQMIX. Utilizando-se da imagem não autorizada de uma modelo, em pose emblemática para a discussão da representação feminina nos quadrinhos, expressa que tanto não se sensibiliza às muitas articulações e críticas das mulheres quadrinistas e feministas, como reafirma seu poder e desejo em continuar naturalizando a representação compulsória de mulheres como objetos sexuais. Este episódio é ainda mais infeliz ao considerarmos que a modelo em questão demitiu-se de um programa de TV por sentir-se objetificada e humilhada, fato noticiado pela imprensa no início de 2015.
Os quadrinhos são um produto da cultura de massa e reproduzem discursos, sentidos, representações e valores da nossa sociedade. Há alguns anos, mulheres e pessoas diversas envolvidas na produção e consumo de histórias em quadrinhos lutam por mais espaço e representatividade. É inadmissível que um prêmio, que se propõe tão importante para o reconhecimento e valorização das HQs brasileiras, produza uma campanha desrespeitosa como essa, invisibilizando e ridicularizando a articulação das mulheres quadrinistas e outras agentes.

Aproveitamos para relembrar que o Trófeu HQMIX já havia sido recentemente criticado por reconhecer entre seus indicados do ano de 2015, apenas 13% de autoras, além de ignorarem iniciativas importantes para os quadrinhos brasileiros, como os eventos 1º Encontro Lady´s Comics e DesEnquadradas, a Zine XXX e o projeto Mulheres nos Quadrinhos. Seria esse o reflexo de ter apenas uma mulher no “Júri de Indicações” (segundo o site oficial www.hqmix.com.br)? O que nos parece, pela maneira como o evento vem lidando com as diversas manifestações, é que consideram os esforços, produções e falas das mulheres participantes da cena de quadrinhos, no mínimo irrelevantes, quando não dignas de retaliação.

Nós repudiamos absolutamente a atitude do Trófeu HQMIX, não aceitaremos que o universo dos quadrinhos permaneça restrito e hostil às mulheres, exigimos sermos tratadas com respeito e retratadas de forma mais inteligente e digna, lembradas e consideradas como agentes, produtoras e representantes importantes dessa linguagem. Exigimos que os produtores de eventos e prêmios, jornalistas, pesquisadores e autores de quadrinhos repensem suas atitudes discriminatórias e reconheçam as responsabilidades inerentes de se contar histórias.

Exigimos, por fim, uma retratação pública do Troféu HQMIX e a garantia de um comprometimento real com a promoção da igualdade e do respeito às mulheres.
Ana Luiza Koehler
Ana Recalde
Anna Mancini
Beatriz Blanco
Beatriz Lopes
Beatriz Perini
Cris Camargo
Cris Peter
Daniela Karasawa
Didi Helene
Emilio Baraçal
Fefê Torquato
Gabriela Borges
Jessica Daminelli
Jordana Andrade
Karina Goto
Lauro de Luna Larsen
Lovelove6
Lucas Ed
Luiza Meira
Montserrat Montse
Natalia Matos
Natalia Schiavon
Petra Leão
Rafael Rodrigues
Renata Gil
Renata Nolasco
Roberto Quirino
Sirlanney
Tais Koshino
Thaïs Gualberto
Aninha Costa – Gibiteria (www.gibiteria.com)
Carolina Ito – Salsicha em Conserva (https://www.facebook.com/salsichaemconservahq)
Collant sem Decote (http://www.collantsemdecote.com/)
Cuzcuz Literário (http://www.cuzcuzliterario.com.br/)
Editora Mino (https://www.facebook.com/editoramino)
Estídio Black Ink (https://www.facebook.com/BlackInk.Cursos)
Estúdio Complementares (https://www.facebook.com/estudiocomplementares)
Feira Dente (https://www.facebook.com/feira.dente)
FIQ – Festival Internacional de Quadrinhos (http://www.fiqbh.com.br/)
Girl Gang – Coletivo (https://www.facebook.com/girlgangcoletivo)
Lady´s Comics (http://ladyscomics.com.br/)
Manifesto Irradiativo (https://manifestoirradiativo.wordpress.com/)
Mina de HQ (www.facebook.com/minadehq)
Minas Nerds (https://www.facebook.com/minasnerds)
Monotipia (http://www.editoramonotipia.com/)
Mulheres nos Quadrinhos (https://www.facebook.com/MulheresNosQuadrinhos)
Nada Errado (https://www.facebook.com/NadaErrado)
Renegados Cast (http://renegadoscast.com/)
Revista Farpa (https://www.facebook.com/revistafarpa)
Rio.on.comics (https://www.facebook.com/rio.on.comics)
Roberta AR (http://facadax.com/)
Studio Seasons (https://www.facebook.com/studioseasons)
Supernova Produções (https://www.facebook.com/supernovahq)
Tayla Nicoletti – Debaixo do Farol Quadrinhos (https://www.facebook.com/debaixodofarol)
Zine XXX (https://www.facebook.com/pages/Zine-XXX/497725700334932)

* Carta do HQ Mix publicada na página oficial do prêmio.

AMIGAS E AMIGOS,
Vocês conhecem Nair de Teffé?
Muitos e muitas não conhecem. Ela foi a primeira mulher caricaturista do Brasil e talvez a primeira no mundo. Tanto que na época dela, ao final do século 19, no Brasil e no mundo, as mulheres não eram aceitas como desenhistas. E muito menos como caricaturistas. Por isso, para poder publicar seus desenhos ela teve que adotar o nome RIAN como assinatura ( Nair ao contrário, ou a palavra “nada” em francês). Atriz, pianista e cantora Nair de Teffé chamou a atenção do presidente da recente república brasileira, Hermes da Fonseca, que pediu sua mão em casamento. Ela aceitou com uma condição: não deixaria de continuar a fazer suas caricaturas da sociedade, mesmo como primeira dama. Hermes da Fonseca se rendeu à essa mulher. Imagine só isso acontecendo nos dias de hoje! Estava ali, então, alguém que batalhou para que a mulher usasse calça, para que o violão, então considerado instrumento menos nobre, pudesse ser aceito no palácio do governo do Catete em recitais e que a mulher tivesse seu valor reconhecido como deveria ser.

Em 1978, Rian estava doente e dificilmente saia de casa em Petrópolis/RJ. Ex-primeira dama do país estava sendo despejada de sua residência. Normal em nosso país, infelizmente. Gualberto Costa organizava o 2º Salão de Humor e Quadrinhos do Mackenzie e conseguiu trazê-la para São Paulo para homenageá-la. Mas, mais que isso, era para mostrar o que estavam fazendo com a história do Brasil com aquela pessoa tão importante e tão esquecida. Foi no Salão Mackenzie que eu conheci o Gualberto e formamos um par em vários projetos, inclusive o Troféu HQMIX. Rian morreu cinco anos depois com 95 anos e para lembra-la, mais uma vez nos unimos com mais um amigo, Dirceu Amadio, e criamos o Centro Artístico Rian. Uma escola de arte que tinha professores do maior quilate ensinando desenhos, pintura, teatro e quadrinhos. Na inauguração conseguimos trazer o filho de Nair de Teffé e realizamos a última exposição de seus trabalhos. Ela já não tinha originais, nem conseguia mais levantar da cama, mas em seu fim de vida pegava papel que embrulhava pão e continuava a fazer suas caricaturas de atores de novelas. Essa foi a exposição de inauguração do Centro Artístico Rian. E com isso, mais uma vez, conseguimos repercussão na imprensa para que as pessoas soubessem o que nós, brasileiros, fazemos com nossa história.

Desculpem o romance, mas sabem porque estou contando essa história? Porque hoje aconteceu algo que me fez refletir muito. Fomos chamados de “machistas” por uma postagem de campanha humorística sobre o próximo troféu HQMIX. Essa postagem foi mal interpretada por várias pessoas. Aconteceram críticas. Sou o primeiro a aceitar críticas, pois se não aceito também não sou digno de poder exercer essa função de crítico. A democracia vive da crítica. Mas do modo que vieram e sem saber o nosso lado, que é a primeira regra da informação correta, me fez ficar muito triste. Será que somos tão ruins assim? Logo retiramos do blog essa campanha. Creio já ser uma ação de quem não quer causar por causar ou de nariz empinado. Mesmo assim, estamos sendo bombardeados como se não houvesse um passado. Como se bastasse qualquer fato para que tudo o que foi feito por uma vida fosse esquecido. Alguém que ao menos tivesse o bom senso de lembrar que a gente não tem essa característica machista e que pode ter sido um engano. Sempre estimulamos em nossas exposições e eventos a mulher. Conceição Cahú, nossa maior desenhista de bico de pena, fez poucas exposições e a melhor dela, como chargista, foi em nossa escola já que mulheres chargistas são pouquíssimas. Assim como a grande Hilde Weber que nos visitava e dava palestras de sua vitoriosa história (procurem no google).
As redes sociais criaram um espaço democrático e necessário para que todos possam dar suas opiniões. Ao mesmo tempo nos dão a possibilidade de pesquisar sobre o que queremos escrever. Mas a pressa e nosso pouco tempo talvez estejam fazendo caminharmos ao contrário e não pensarmos com tranquilidade sobre o que estamos falando. Por isso, ao mesmo tempo, as redes sociais estão desfazendo amizades antigas. Ou por briga por políticos (imaginem só), ou por qualquer mazela feita no impulso.
A prova disso é que várias pessoas que esperam essa posição de um de nós ( pois essa posição aqui é pessoal e de desabafo) provavelmente vão preferir não falar de Nair de Teffé, mas de um problema que eu imaginava resolvido. Uma postagem que já foi retirada. Não sei se me entendem. Trabalhamos 27 anos no HQMIX para não valer nada do que foi feito com muito trabalho, sacrifício e dinheiro colocado do bolso?

Gostaria que toda essa energia que mobiliza tantas críticas também pudessem ser em prol de um Troféu que chegou até aqui por conta de pessoas que se doam voluntariamente. Só isso eu peço. Claro, se realmente o Troféu é algo importante para todos assim como para nós.

Se houve quem se sentiu desrespeitado(a), posso garantir que não foi nossa intenção.

*
Acompanhe também a discussão nos sites dos colegas Vitralizado (de Ramon Vitral) e Terra Zero.

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