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BATIDA E TEXTO
Novo disco do The Roots é o mais provocativo da carreira da banda
Por Paulo Floro

THE ROOTS
Rising Down
[Def Jam, 2008]

Na arquitetura do rap, nada é tão importante quanto o discurso. Em alguns artistas e grupos, isto sobrepõe até mesmo qualquer construção sonora, arranjos, melodia. O The Roots sempre foi conhecido pelo seu claro interesse em experimentar uma outra concepção, mesmo que tortuosa do gênero. Não à toa, chamaram atenção no final dos anos 1980 quando introduziram elementos de jazz no hip-hop. Neste novo disco, Rising Down, a banda continua antenada com novos sons, mas seu discurso está mais afiado, quase paranóico.

O grupo atualizou as rimas para uma análise mais contemporânea da sociedade, dos subúrbios. E, trouxe ainda, para essas rimas um experimentalismo que torna difícil o acesso ao som da banda. Esta acepção que têm, faz do Roots uma banda ao mesmo tempo intimista e sectária. É evidente o intuito em dialogar com outras esferas, mas no – mais uma vez – discurso das rimas, eles parecem não enxergar uma outra proposição. Até a capa do disco carrega uma imagem declarada de ataque, com um demônio negro amedrontando pessoas brancas. A vitória pelo medo.

Esta atitude autoritária, casada com batidas pujantes, lembra o clássico do Public Enemy, It Take A Nation Of Millions To Hold Us Back. O The Roots caminha na mesma linha, dada as devidas proporções, mas sua sonoridade dialoga com muito mais vozes, sobretudo a do R&B, jazz, e também o rock. Neste caso, nos tempos atuais, eles são a banda mais completa do Hip Hop contemporâneo, trazendo suas rimas ao debate e, ao mesmo tempo fabricando mais e mais inovações sonoras. Trata-se de um conjunto muito bem construído de crônica social e música pop de vanguarda.

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Subindo
O álbum abre com um enigmático diálogo. Depois percebemos que são fragmentos de vários pessoas discutindo. Aparenta alguém mudando de canal, é tudo muito caótico. Em seguida, como uma batida, nos deparamos com a cadenciada (e sensual, de certo modo) “Rising Down”, com participação de Mos Def. O álbum segue numa violência ascedente, até culminar em mais um interlúdio, onde um rapper atira rimas como metralhadora.

Mesmo nessa pensada costura de faixas, Rising Down não foi pensado como um álbum conceitual. Escutando como faixas independentes, encontramos verdadeiros hits (alguns funcionando, inclusive para pistas), como “75 Bars”, ou “Criminal”, que conta com a participação de Saigon e Truck North”. Até a panfletária “I Will Not Apologize” faz qualquer um dançar. As outras participações incluem ainda Malik B, Talib Kweli e Common.

O disco termina delicado, com os vocais de Chrisett Michelle, em “Rising Up”, uma antítese ao início, cheio de ira. É uma das faixas mais pop do grupo e a primeira a ser lançada como single neste disco. Este é o nono disco do grupo, formado no início dos anos 1990, na Filadélfia. Para o produtor e baterista da banda, Questlove, este é o “mais incendiário, politicamente falando, disco do The Roots”. Musicalmente, também.

NOTA: 8,0

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