COMO ERA JOVENZINHO MEU PAPARAZZO
Documentário toca a tendência da infantodolatria autorizada ao acompanhar menino que vende fotos de celebridades

Por Alexandre Figueirôa
Da Revista O Grito!

Cada época tem a sua Shirley Temple ou o seu McCaulay Kulkin. Eles encarnam o eterno fascínio do cinema por crianças ou pré-adolescentes geniais capazes de serem transformadas em celebridades mirins. Desinibidas, ousadas, com gestos adultos emanando de seus corpos em formação, estas criaturas emergem nas telas como extraterrestres amigáveis e arrancam suspiros de admiração dos espectadores. O fenômeno também atinge a música pop quando, por exemplo, nos deparamos com os clones de Justin Bieber desfilando nas ruas de cidades do mundo inteiro e o próprio sendo fotografado, filmado, videoclipado a cada segundo para preencher o vazio mental dos meios impressos e audiovisuais.

O século 21, com sua febre de imagem documental marcando espaço no écran, também foi tocado por esta tendência de “infantodolatria” autorizada e nos oferece coisas curiosas como o documentário Teenage Paparazzo, atualmente em exibição nos canais de tevês por assinatura, chancelado pelo verniz cult por sua passagem no Festival de Sundance do ano passado. Nele, vemos nada menos que um boyzinho californiano, loirinho, de 14 anos, com câmeras fotográficas sofisticadíssimas nas mãos, correndo feito um louco, pelas ruas de Hollywood para clicar as celebridades.

E o mais incrível (sim, esses geniozinhos sempre fazem coisas incríveis) é que ele disputa quase pau a pau com os paparazzi adultos e veteranos a primazia de chegar pertinho dos famosos. E, da mesma forma que eles, o menino vende suas fotos para revistas e tablóides, cuja sobrevivência editorial depende de publicar imagens escandalosas ou inusitadas deste povo pela qual o valor da existência é medido pela capacidade de serem muito vistas (mesmo que por vezes eles dêem pitis para não serem flagrados pelas lentes sedentas destes vampiros de almas da era pós-moderna).

Quem teve a idéia de rodar o filme foi Adrian Grenier, ator da série da HBO Entourage e que também pode ser visto no filme O Diabo Veste Prada. Grenier foi fotografado e seguido, de perto, pelo garoto, inúmeras vezes e, por ter ficado impressionado com a tenra idade do seu algoz midiático, resolveu aproximar-se do menino e contar a sua história. Austin (é o nome do jovem fotógrafo) aceita participar da experiência e entra no jogo de Grenier. O ator passa a acompanhá-lo, conversa com os demais paparazzi, finge ser um deles para entender melhor como funciona a vida dos profissionais, e pega depoimentos de outros famosos por eles seguidos, com destaque para Paris Hilton, que obviamente adora aparecer, acha Austin fofinho e até simula um affaire com Grenier, o qual, convenhamos, é bonitinho com seus olhos verdes e tez moreno clara.

O filme poderia ser uma perda de tempo, mas curiosamente nos cativa. Ele não tem nada de extraordinário e segue a linha dos documentários contemporâneos em primeira pessoa. Mescla impressões pessoais do autor com depoimentos dos envolvidos no tema os quais costuram a pequena biografia de Austin. Tem também sua parcela de investigação pseudoanalítica que resvala para divagações meio abiloladas de Grenier ao querer entender o seu objeto e até dar lições de conduta moral para Austin e a quem está vendo o filme.

Contudo, o ator consegue revelar, com nitidez, uma parcela do universo dos caçadores de imagens alheias e também controlar o rebatimento dele próprio se colocando na posição de voyeurizado e de voyeur. Esta espontaneidade ensaiada não perturba o ritmo narrativo e fornece um componente metalingüístico e reflexivo sem afetação com o qual podemos estabelecer um diálogo divertido. Ou seja, é um documentário sobre o mundo do entretenimento que não camufla sua condição e esta sinceridade despretensiosa funciona bem.

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