(2016), de , é, antes de tudo, um filme complexo. Complexo no sentido de que confronta ideias de alto caráter reflexivo sem apresentar respostas definitivas, mas traçando uma linha mestra coerente. Complexo, no sentido de que as poucas certezas que eu tinha sobre espiritualidade foram abaladas. E, finalmente, complexo, no sentido de que, ao final, eu me senti profundamente atormentado pela infinitude das forças que oprimem o humano em sua insignificância. Há algo aqui como uma verdadeira experiência de transcendência.

Leia Mais: resenhas
Logan alcança nível dramático inédito para filme de supers
O baile de máscaras em Jackie, de Pablo Larraín
As palavras cortantes em Animais Noturnos
Redemoinho atesta o talento de Villamarim para a tela grande

Baseado no livro homônimo do japonês Shusaku Endo, Silêncio se passa no século 17 e acompanha a trajetória dos padres jesuítas Sebastião Rodrigues (), e Francisco Garupe (), que partem de Portugal para o Japão em busca daquele que havia sido o mentor deles, o padre Cristóvão Ferreira (). À época o catolicismo havia sido banido do Japão, a religião oficial era o budismo, e todos os cristãos eram obrigados a se converter ou enfrentar torturas incessantes até a morte. Assim, os dois jovens padres se embrenham num país completamente hostil a eles.

O caminho trilhado por Scorsese aqui é bastante espinhoso, mas não deixa de ser interessante observar como o diretor consegue compartilhar mais dúvidas do que certezas, sem deixar de ser político. O filme não se furta ao maniqueísmo, opondo os cristãos (inclusive os cristãos japoneses), aos senhores feudais budistas. A identificação mais plena que o espectador é levado a ter é com o padre Rodrigues, e o vilão, o Inquisidor Inoue (Isey Ogata, em performance impactante), chega a ser bastante odioso, mas suas motivações para tanto são claras, históricas e políticas, de modo que se não é possível justificar suas ações, é possível compreendê-las plenamente. O filme, aliás, tem essa qualidade de humanizar cada um de seus personagens, de deixar claras as forças que os movem.

Kishijiro (Yôzuke Kubozuka), por exemplo, é uma espécie de Judas trapalhão, cindido entre o medo e a fé, mas acaba por ser tão humano, que talvez seja o personagem que gera mais empatia. Além disso, se levarmos em consideração outro filme de Scorsese, Kundun (1997), que acompanha a trajetória do décimo quarto Dalai Lama, parece-nos difícil que Scorsese tenha algo especialmente contra asiáticos ou budistas. O que parece interessar o diretor nos dois filmes é antes a categoria de oposição entre aqueles que sofrem algum tipo de opressão, e aqueles que oprimem. Uma espécie de condição arquetípica, com a qual a humanidade se defronta desde seus primórdios. Mas nenhuma dessas questões é a central do filme.

Leia Mais: Scorsese
A depravação do poder em O Lobo de Wall Street
A idealização do cinema em A Invenção de Hugo Cabret

Scorsese traz uma reflexão difícil sobre o que é a fé (até onde ela pode ir, ainda mais quando infringe dor ao outro?), e quais são as reais condições para que a espiritualidade aflore. Desse ponto de vista, o filme vai contra qualquer dogmatismo: o caminho para o exercício pleno da fé parece ser silencioso, sibilante, discreto. O dilema do padre Rodrigues, diante das muitas torturas que vê diante de si, é reiterado constantemente, mas não de maneira didática, e sim de maneira sufocante, de modo que sentimos com ele o peso das decisões que é levado a tomar.

A questão é que não existe decisão fácil aqui. A grande questão posta é: o que realmente significa ser um apóstata, o que realmente significa negar Deus em termos simbólicos? A manutenção da fé não se daria na quebra do dogma e da convenção? Não foi esse o caminho muitas vezes percorrido por Jesus e seus discípulos, afinal? A flor da espiritualidade não estaria mais propícia a nascer em pântanos aparentes? O filme nos bombardeia com essas perguntas para as quais há uma resposta tão vasta, que, por si só, não pode ser definitiva.

O filme é longo, seu tempo se dilata e pode ser cansativo para muitos. Mas Scorsese não incorre em um erro de ritmo, ele está declaradamente empreendendo um projeto estético que se contrapõe a sua linguagem mais usual, dinâmica e rápida, além de dialogar com uma ampla tradição do cinema japonês, cujo expoente mais conhecido é Ozu. Não é como se o diretor estivesse tentando fazer alguma coisa diferente do que fez, ou como se por um acaso tivesse chegado num resultado canhestro, que não condiz com sua temática. Portanto, ainda que não se aprecie o ritmo do filme, faz-se necessário reconhecer que há uma linguagem consistente nele. A intenção de Scorsese parece ser nos colocar no interior do silêncio, no interior da ausência, no interior da orfandade que os padres enfrentam num país longínquo. Mas que orfandade é essa? A orfandade da própria pátria, talvez, mas, sobretudo, a orfandade de Deus, um Deus que não se faz ouvir nos momentos de maior sofrimento. Sim, conhecemos essa história, ela está em um livro bem antigo.

Scorsese e o fotógrafo Rodrigo Pietro traduzem a deriva de seus personagens através de planos abertos, austeros e imponentes, em que os protagonistas são envolvidos, em sua pequenez, pela natureza. Os padres estão diante de forças inelutáveis: o Inquisidor e seus homens, a geografia desconhecida, as brumas densas que embaçam a visão. Tudo isso os restringe do começo ao fim.

Mas o auge do filme é quando o reencontro que necessariamente irá ocorrer, embora sempre adiado, entre Rodrigues e Ferreira, finalmente chega. Aqui a personagem de Neeson coloca as questões mais fortes diante de seu ex-discípulo. Ferreira, agora vivendo como um japonês, questiona a real necessidade dos missionários no Japão, a real possibilidade de levar uma religião como o catolicismo para um povo de raízes tão distintas como os japoneses. Mas o mais importante, questiona o ego dos missionários ao verem-se como mártires redentores dos cristão japoneses, espécie de Jesus reencarnado, ainda que o próprio filme reforce esse tipo de paralelo em diversos momentos.

Tudo isso é feito de forma tão contundente que o discurso até ali construído é abalado de modo que nunca poderá ser reerguido plenamente. A única certeza que fica é que só haverá completude se chegarmos ao mais profundo vazio, e só haverá uma Voz, onde se fizer o mais profundo Silêncio.

SILÊNCIO
De Martin Scorsese
[Silence, EUA/Japão, 2016 / Imagem Filmes]
Com Andrew Garfield, Adam Driver, Liam Neeson

Sem mais artigos