BRIGADAS DA ARTE SEQUENCIAL
Antologias como a Ragu, que tem lançamento esta semana, reforçam no Brasil a circulação dos novos talentos dos quadrinhos, além de promover intercâmbio com artistas estrangeiros
Por Paulo Floro

Quando surgiu, há quase dez anos, a revista em quadrinhos independente Ragú representava um espírito do tempo muito particular de sua cidade natal, Recife. Trazia nomes que mais tarde iriam despontar como os principais fomentadores das histórias gráficas na cidade. Fez sucesso e foi aos poucos se firmando como importante expoente dos – com a perdão do termo caduco – quadrinhos alternativos.

A Ragu que chega às livrarias este mês é parte de uma outra conjuntura, de um outro tempo. Uma edição volumosa, bem cuidada, luxuosa e com um leque de referências maior. Este número 7 traz autores de outros países da América Latina, revelando nomes desconhecidos entre os leitores daqui, como o argentino Ariel Lopez e o cubano Frank Arbelo.

Nesta edição, os editores-idealizadores Mascaro e João Lin conseguiram colocar a Ragu num patamar que sempre almejaram desde quando começaram despretensiosamente em 1999 como um fanzine: “Uma antologia de quadrinhos que mescla artistas brasileiros com o que há de mais bacana no circuito alternativo latino-americano, com pitadas europeias”, afirmam na apresentação enviada à Imprensa.

Esta nova Ragu cria um importante intercâmbio com artistas da América Latina, cujas possibilidades de serem publicados no Brasil ainda é muito pequena.

A articulação entre os colegas latinos não ficou apenas na curadoria. A antologia vai, de fato, circular por outros países do continente. No sábado (15) teve lançamento na Espanha, durante o festival coordenado pelo quadrinhista Miguelanxo Prado, o Viñetas Desde O Atlântico. No dia 24 de agosto, o lançamento será em São Paulo, na HQ Mix e o último acontece dia 03 de setembro, em La Paz, na Bolívia.

Quadrinhistas, Uni-vos
A Ragu, hoje em dia é a experiência mais bem-sucedida em traçar um panorama do melhor que os quadrinhos tem a oferecer em matéria de vanguarda e qualidade no conteúdo, mas outras antologias publicadas atualmente no País também tem relevância.


cena interna da Graffiti 76% Quadrinhos

A principal delas é a mineira Graffiti 76% Quadrinhos, a mais longeva revista independente ainda em circulação, com 19 edições (contando com a número zero). A última foi lançada este mês e teve apoio da Lei de Incentivo à Cultura da Prefeitura de Belo Horizonte. Entre os destaques está a presença de dois premiados autores sérvios, Maja Veselinovic e Aleksandar Zograf. Veselinovic é responsável pela história que abre a edição sobre a história pessoal de uma ponte que unia a fragmentada sociedade de Belgrado antes dos bombardeios no início dos anos 1990. Ela também assina a capa e a contracapa.

Em edições passadas, a Graffiti foi pioneira ao publicar a primeira tira do argentino Liniers, atualmente publicado pela Zarabatana Books. Esta preocupação em trazer novas perspectivas, de uma outra realidade para uma antologia nacional aproxima tanto a Graffiti quanto a Ragu de uma das mais importantes antologias em quadrinhos, a MOME, publicada pela editora norte-americana Fantagraphics. Referência para ilustradores e cartunistas do mundo todo, pelas suas páginas já passaram nomes como Robert Crumb, Anders Nielsen, David B. e Émile Bravo. A última edição tem capa de Dash Shaw, que fará sua estreia no mercado brasileiro com o livro Umbigo Sem Fundo, pela Quadrinhos na Cia.

Completando a biblioteca de antologias do Brasil, temos a Front, sempre temática e a independente (e novata) Café Especial. A Front é publicada pela Via Lettera e já apresentou importantes cartunistas brasileiros D’Salete, Samuel Casal e Guazzelli. A Café Especial só agora chega à sua quinta edição, com participação de quadrinhistas como Jozz.

De todas as antologias, a principal falha diz respeito à periodicidade. É difícil ficar ansioso pela próxima edição de qualquer uma das obras citadas acima. O leitor é sempre pego de surpresa a cada lançamento. O problema, é claro, a falta de recursos para manter o ritmo firme. Mas, talvez o interesse das editoras por este tipo de produto ainda seja pequeno. Ragu e Graffiti por exemplo, só se sustentam por conta de editais e leis de incentivo. No caso da Ragu, esta edição saiu por conta do Funcultura, linha de crédito para projetos culturais do Funcultura.

[+] CRÍTICA: RAGU ACERTA A MÃO

Sem mais artigos