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Por anos o samba acabou embalando um estereótipo de Brasil ameno, caloroso e alegre. Essa idealização, não raro com arquétipos ufanistas, colocava o gênero como algo puramente hedonista, celebratório. Nelson Cavaquinho foi um dos nomes que ajudou a desconstruir esse clichê. Figura única na música brasileira, ele passou anos no ostracismo, assim como seu amigo Cartola. Sua música era pesada, sombria e falava de dor, perda, desilusões e morte. Sua voz rouca de anos de bebida e tabaco dava um tom trágico às interpretações. Em um de seus versos mais conhecidos dizia: “tire seu sorriso do caminho que eu quero passar com a minha dor”.

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Morto há 30 anos, Cavaquinho hoje é estudado e celebrado por sua contribuição ao gênero, mas em vida não chegou a ter o reconhecido merecido. Nascido em 1911, ele fez relativo sucesso até meados dos anos 1950, quando saiu de cena. Sempre recluso, ele trabalhou como pedreiro, policial militar e, tímido, evitava ir a rádios ou fazer apresentações em público.

Mangueirense ilustre (foi homenageado pela escola no Carnaval de 2011), ele preferia participar de rodas de seresta e foi seresteiro inveterado até a morte. Faleceu em 18 de fevereiro de 1986, aos 75 anos.

Inspirados em Cavaquinho criamos esta playlist de um samba longe dos estereótipos. O samba de partir o coração e cantar as dores de um Brasil marginalizado, quase nunca alegre, mas obstinado.

É um samba que canta o cotidiano das favelas, oferecendo ao ouvinte o incômodo de traduzir, sem filtros, problemas sociais. É o caso de “Acender as Velas”, de Zé Keti. A faixa, famosa na voz de Nara Leão, chegou a ser censurada um ano após ser lançada, em 1965. Relato poderoso, diz em certo momento “Porque no morro não tem automóvel pra subir / não tem telefone pra chamar / não tem beleza pra se ver / e a gente morre sem querer morrer”. Também de Zé Kéti, a música “Opinião” tornou-se uma das faixas mais emblemáticas de protesto contra a ditadura militar e também trata da vida no morro.

A playlist traz ainda outras faixas que ajudaram a desconstruir o samba como um gênero alegre, pra gringo se divertir, celebratório, feita apenas para agradar. É o caso de Paulinho da Viola, Bezerra da Silva, Elza Soares, Luiz Melodia, Marcos Valle, Chico Buarque, alguns poucos momentos de João Gilberto e Nara Leão. Ouça abaixo via Deezer:

[Fonte de pesquisas: EBC, Nuno Ramos via Rádio Cultura]

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