Tempo bom: Autor em seu apartamento em São Paulo (Foto: Bel Pedrosa / Divulgação)

O NOVO TEMPO DE MUTARELLI
Depois de lutar contra os próprios demônios e colecionar amargores no mercado editorial, autor se torna escritor renomado e anuncia retorno aos quadrinhos

Por Paulo Floro

Em meados de 2008, Lourenço Mutarelli, deu uma palestra em Brasília. Da experiência ruim, guardou a lembrança do hotel fuleiro e dos pouco mais de 150 reais de cachê que recebeu para falar sobre a importância de sua obra para as HQ’s nacionais. Meses depois, voltou ao mesmo lugar, agora como escritor e o tratamento foi outro: van para levá-lo, hotel confortável e pelo que consegue se lembrar, quase dois mil reais de cachê. “No Brasil, existe um tratamento muito diferente entre autor de quadrinho e um escritor. E eu nunca fui muito aceito pelo meio dos quadrinhos, já pelos escritores eu fui tido como um igual, não como um ET, ou equívoco”, disse à época. Hoje, Mutarelli é considerado um autor renomado, tem quatro livros publicados pela Companhia das Letras, mais três que devem ser lançados entre este ano e o próximo e seu nome está vinculado a projetos no teatro (como ator e escritor), e cinema.

Não faz muito tempo, era cultuado apenas entre os iniciados fãs de quadrinhos, seres esquisitos que guardavam a feiúra de suas HQs como obras importantes do underground. Trabalhos cheios de angústia, traços sujos, meio expressionistas que fizeram a fama do autor, mas que coincidência ou não, estão ligados a um período muito hostil ao escritor. Contribuíram para sua fama de autor maldito, dificuldades pessoais, como a síndrome do pânico, depressão e sua relação íntima com remédios controlados que fizeram parte de sua vida por mais de vinte anos. Tudo era expelido lá, nos quadrinhos.

E é para lá que Mutarelli decidiu voltar em 2010, quatro anos depois de anunciar que A Caixa de Areia, seria sua última obra em quadrinhos . “Decidi abandonar os quadrinhos por que queria fazer algo diferente, já que não conseguia experimentar mais. Atingi um limite. Além disso, não dava dinheiro. O que ganhava da Devir era suficiente para pagar o aluguel e só”, relembra. A nova HQ deve sair no final do ano e vai se chamar Quando Meu Pai se Encontrou com o ET, Fazia Um Dia Quente e será lançada pela Companhia das Letras em parceria com a produtora RT Features, responsável por projetos envolvendo autores de quadrinhos, como o filho de Laerte, Rafael Coutinho. Inspirado em livros infantis antigos, será pintada com tinta acrílica, desenhada na horizontal, com capa dura, uma ilustração por página. De fato, é algo bem diferente dos literalmente obscuros quadrinhos de Muteralli. “Não tem nada a ver com o que já fiz antes e isso me motivou a aceitar o pedido da editora em voltar a fazer HQ’s”. O livro conta a história de um homem que, após perder a mulher decide morar num barco e parte em uma viagem em busca de epifanias.

Acaba encontrando dois companheiros, conhecidos do escritor, Mario Bortolotto e Paulo de Tarso, o Picanha, nomes ligados ao teatro paulistano. Tudo para mostrar que Mutarelli está bem à vontade com sua faceta teatral. Um testamento faz um dos filhos do protagonista ir à busca do pai para tentar levá-lo a uma clínica psiquiátrica com intuito de resgatar o dinheiro do seguro. “É mais complexo do que consigo explicar aqui, mas trata de temas como decadência e loucura”, avisa.

As experimentações no formato surgiram de um caderninho em que Mutarelli desenhava coisas aleatórias com caneta esferográfica bic. Eram desenhos, histórias inacabadas, rabiscos, rascunhos de personagens ou mesmo traços incompreensíveis. “Mesmo quando desisti das HQ’s, nunca parei de desenhar. Muitas vezes iniciava algo nesse caderno e deixava inacabado só para retomar depois, com novas idéias”, explica.

A decisão da Companhia das Letras de lançar uma nova HQ de Mutarelli traduz o prestígio que o gênero recebeu nos últimos dois anos, com editoras de tamanhos diversos brigando pelo ainda diminuto mercado de graphic novels, como são chamados os quadrinhos vendidos em livrarias. E se o relacionamento com sua atual editora ajudou Mutarelli a renovar sua força criativa aos quadrinhos, foram desavenças com a Devir, sua antiga casa, que catalisaram seu divórcio com a arte seqüencial.

Sentado no chão da Livraria Cultura, de Recife, Mutarelli cochicha uma história nunca contada sobre os bastidores de sua saída da Devir, editora conhecida entre leitores de quadrinhos e jogadores de RPG. Um conflito iniciado com um dos editores deu início a uma série de desavenças que motivaram sua saída. “Em A Soma de Tudo Parte 1, eu desenho um dos editores. Era uma homenagem que fiz pra ele, mas ele não gostou. Então eles exigiram que eu retirasse ou iriam recolher, o que acabaram fazendo em Portugal. Nunca tinha sofrido censura, achei um absurdo eles exigirem que eu mudasse a história”, lembrou. Em dezembro de 2008, Mutarelli estava no Recife para participar de um evento literário e autografar seu então novo livro, A Arte de Produzir Efeito Sem Causa. Pequeno e vestido de cinza e bege, que parecia escondê-lo da multidão, ele se convida para sentar ao lado de uma das pilastras próximas ao auditório, agora vazio.

De semblante calmo, Mutarelli se mostrou bem articulado, falante, mas sempre com a fleuma ligada. E continuou a falar de seu casamento com a Devir. “Eles acreditaram bastante no meu trabalho no início, mas começou um desgaste quando eles não quiseram publicar romances meus, só quadrinhos. O Cheiro do Ralo foi editado depois de muitas conversas. Até o Arnaldo Antunes, que conheceu a obra, intercedeu para que o material saísse”, relembra, intercalando suas lembranças com goles de alguma bebida em seu cantil de metal. “Também pedia uma distribuição melhor, novas edições de livros esgotados, revisão. A Devir foi bom, pois pude experimentar, mas a nossa relação não foi tão boa pra eles quanto foi pra mim. Dizem que foram traídos, ficaram irritados com minha saída”, diz, encerrando o papo e a bebida.

Sem contrato assinado nem acordos editoriais, a relação de Mutarelli com sua antiga editora ainda segue com machucados reclamados por ambas as partes. O autor rezinga que não recebe por seus direitos autorais nem tem como levar seus trabalhos para seus novos editores. Já a Devir, diz que o seu antigo autor deu prejuízo. “Eles me pagavam um salário que dava pra pagar o aluguel e agora reclamam que aquilo eram adiantamentos referentes aos direitos da obra”. Atualizados para este ano, a Devir calcula cerca de R$ 70 mil o débito de Lourenço. Resultado: a obra em quadrinhos segue estacionada. Algumas livrarias ainda guardam os últimos exemplares, mas alguns títulos estão esgotados sem previsão de uma nova edição.

Mesmo já tendo uma fase independente e de ter passado por editoras pequenas e já falidas, foi na Devir que Mutarelli produziu sua melhor fase. E foi lá que deu início, mesmo com todos os contratempos ao seu futuro na literatura. A saga do detetive Diomedes, contada na trilogia O Dobro de Cinco, é uma das mais conhecidas e fala de um detetive falido que é contratado para procurar um famoso mágico. Terá adaptação para os cinemas este ano, ainda sem previsão de estréia, com Cacá Carvalho como o protagonista. A Cia das Letras já anunciou interesse em lançar a trilogia (publicada em quatro partes) em um único volume. Outra obra conhecida é Transubstanciação, tida como a HQ que melhor espelha a crise pessoal que Mutarelli viveu em tempos passados. O personagem principal Thiago serviu de catarse para o autor escrever sobre suas crises psicológicas. A Caixa de Areia, também da mesma editora, aprofunda essas interações com a vida real e traz lembranças da infância do escritor.

O Cheiro do Ralo teve adaptação para o cinema, com Selton Mello como protagonista. Outro livro que ganhou versão nas telas foi O Natimorto, relançado pela Companhia das Letras. Dirigido por Paulo Machline, tem Simone Spoladore e o próprio Mutarelli no papel do casal que luta contra um casamento infeliz.

No intervalo de seus desenhos para a nova HQ, Mutarelli demonstra a mesma calma ao falar em uma longa entrevista por telefone. Mas denuncia se entediar ao falar de problemas que teve com quadrinistas contemporâneos, como Laerte, com quem diz “ter ficado triste e decepcionado”. A hostilidade seria fruto de uma incompreensão com aquele trabalho esquisito para os anos 1980, quando Mutarelli começou. “Minha geração era muito fechada. Tiraram muito sarro do que eu fazia e o Laerte foi um cara que me sacaneou muito, mas foi algo que ele até já pediu desculpas publicamente”.

Numa década considerada pródiga para os quadrinhos, as bancas traziam bastante material nacional. Duas revistas faziam sucesso, a Chiclete com Banana, com Angeli, Glauco e outros autores e a Circo, que tinha uma linha mais experimental e era editada por Laerte. Até mesmo o gênero super-heróis teve seus clássicos nesse período, como O Cavaleiro das Trevas e Batman – A Piada Mortal. Mutarelli era leitor desse momento fértil. No começo dos anos 1980, gastava quase tudo que ganhava nas bancas de revistas. Foi por essa época que conseguiu um emprego na produtora de Maurício de Souza, onde começou fazendo intercalações na produção industrial que são os gibizinhos da Turma da Mônica, para depois desenhar cenários para as animações.

Se o contraste óbvio com seus trabalhos autorais já não chamassem atenção suficiente, a passagem pelos estúdios de Maurício de Souza impulsionaram Mutarelli a criar tiras de humor. Ele criou as histórias do Cãoziño sem pernas, que, consideradas “estranhas”, não fizeram muito sucesso. Dessa sua fase independente, dois títulos foram importantes para a carreira do autor, Over-12 (1988) e Solúvel (1989). Elas tiveram 500 exemplares impressos pela Pró-C, antiga editora do desenhista Marcatti, nome importante dos quadrinhos underground dos anos 1980. Logo depois, publicou algumas histórias na revista Animal, também ligada a nomes das HQ’s alternativas e editada por Fábio Zimbres. “Foi um período muito empolgante de se trabalhar, de consumir quadrinhos”, relembra Lourenço. “Meu pai tinha medo que eu me ferrase ao me ver mexendo com aqueles desenhos. Queria um emprego fixo, normal”.

E os anos seguintes não seriam mesmo fáceis. Crises psicológicas muitas vezes o impediam de trabalhar. Personagem dessa fase, sua mulher Lucimar, foi apoio importante, sobretudo financeiro. “Ela trabalhava como professora em escolas particulares e ajudou bastante na casa, enquanto eu me dedicava a construir alguma coisa com meus quadrinhos”. Mutarelli chegou a escrever uma obra dedicada à esposa, Eu Te Amo, Lucimar, em 1994. Os dois estão juntos há 20 anos. “Ainda amo muito a Lucimar, mas não gosto tanto do desenho da HQ”, brinca Mutarelli. Aos 46 anos, tem um filho de 14, Francisco, que “não sabe nem abrir um livro e que não lê muitas HQ’s”. Essa nova geração de leitores de quadrinhos descobre um novo Lourenço Mutarelli e, por enquanto, idealiza sua obra anterior, embargada pela Devir. Os novos autores também mantêm boas relações com o autor. “Esses jovens estão menos carregados de preconceitos, têm menos reservas. Sempre me trataram muito bem”, diz.

Mutarelli passou 15 anos sem beber. Em 2008, voltou à bebida como um passo na libertação que teve de seus remédios de uso controlado. Fruto de traumas de sua juventude, por vezes o escritor passava por crises longas, que o impediam de sair da cama, ou mesmo de falar com as pessoas. Nesses períodos insólitos, Lucimar cuidava da casa e fazia o gerenciamento da vida do marido. “Atualmente só não deixei o [antidepressivo] Lorax, que ainda tomo por recomendação médica”. Fumando um cigarro atrás do outro, Mutarelli começa seu dia bem cedo, levando o filho à escola. Deixa Lucimar na Livraria da Vila, onde trabalha atualmente, para então começar seus trabalhos. Sua nova HQ é sua maior preocupação agora, mas avisa que o trabalho ainda está no começo, com mais de um dia por página.

Sua editora ainda prepara para este ano, um livro dentro da coleção Amores Expressos, onde escritores são mandados para cidades em diversos lugares do mundo, onde ficam por um mês. Mutarelli foi à Nova York, que deu origem ao Ninguém Gritava na Ponte, mas a experiência não foi muito boa, e o resultado ainda não o agrada. “Eles me mandaram para lá de novo, e eu cheguei a re-escrever o livro, mas ainda é um trabalho que não me deixa feliz”, revela. A Nova York que Mutarelli conheceu não o causou espanto, estranheza e ainda deu origem ao seu primeiro bloqueio criativo. “Parecia um grande centro de compras e tudo era bastante familiar”. Em julho, sai o novo livro, Nada Me Faltará, escrito apenas com diálogos. Conta a história de um homem que após desaparecer com a mulher e filha, reaparece misteriosamente sem elas e não se lembra do que aconteceu.

O celular interrompe a conversa. Precisa buscar a esposa na livraria. Acenderá ali um novo cigarro antes de terminar mais um dia de trabalho. Talvez assista um pouco de TV quando voltar. “Preciso ser disciplinado”, diz um Mutarelli, cada vez mais criativo com seus horários rígidos. Para quem, meio sem querer, construiu uma carreira de autor maldito, Mutarelli vive sua melhor fase como um cara comum.

Esse texto foi publicado na Revista Suplemento Pernambuco

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