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Após conquistas, Toronto volta os olhos aos outros países
Por Tiago Negreiros

Marcada para começar às 14h deste último domingo, 28, a chuva parecia querer estragar a festa. A 29⁰ edição da Parada Gay de Toronto teve seu brilho ameaçado não só pelos mandos e desmandos de São Pedro, mas por aquele problema que os recifenses também andam vivenciando ultimamente: o lixo. É que os responsáveis pela limpeza da Toronto entraram em greve, causando um grande transtorno na coleta dos resíduos. Outros eventos da Cidade que iriam acontecer na semana passada foram cancelados, no entanto, graças a um jeitinho da Prefeitura, o desafio à frente era apenas São Pedro. Porém, é de conhecimento de todos que o santo não costuma fazer milagres no Canadá. Afinal, apesar do verão, são comuns as chuvas duradouras e as oscilações bruscas de temperatura na região.  No dia anterior à festa, os termômetros marcavam 29. Minutos antes da Parada, o vento já garantia uma sensação térmica na casa dos 16, sem contar com a chuva propriamente dita.

Nada muito grave para as milhares de pessoas, com seus respectivos guarda-chuvas, que se aglomeravam nos espaços por onde o desfile seguiria. A concentração acontecia na avenida Bloor com a rua Church, Centro de Toronto. De lá, o desfile seguiria até a avenida Yonge, por onde cruzaria com várias outras ruas até chegar na Gerrard. Desta, os grupos partiram até chegar novamente a Church, completando aproximadamente 1.200 metros de percurso (ver quadro ao lado). Como São Pedro decidiu entrar na festa, milagrosamente às 14h o primeiro carro alegórico iniciava o desfile sob céu nublado, mas sem chuva. Vá lá, os carros não são sofisticados como àqueles vistos nos desfiles das Escolas de Samba do Rio e nem barulhentos como os trios elétricos da Parada Gay de São Paulo, mas possibilita uma celebração animada.

Por todo o desfile, que dura em média 2h30, cerca de 140 grupos de diversos segmentos da sociedade dão o ar esfuziante que toda Parada Gay tem. Porém, em Toronto a celebração é especial. Na cidade eles possuem a nítida certeza que fazem uma festa, já que praticamente todos os direitos exigidos foram garantidos pelas autoridades do país. Ou seja, o casamento gay e a adoção de criança pelos casais homossexuais são permitidos em algumas províncias, além do fato da homofobia ser criminalizada. Porém, mesmo com as conquistas, os organizadores da Parada Gay de Toronto decidiram permanecer com o evento não só como lazer, mas como um espaço para debates sobre DST, melhoria na qualidade de vida dos casais gays da Cidade e a exigência dos direitos homossexuais em todo o mundo. O desfile apenas finaliza a semana de eventos, que este ano trouxe o tema “Can’t Stop, Won’t Stop” (Não pode parar, não vai parar). Em homenagem a celebração, a torre CN Tower, cartão postal de Toronto, apresenta à noite uma iluminação característica as sete cores do arco-íris.

Na avenida, não são as cordas de isolamento que dividem o público dos carros alegóricos como no Brasil, mas alambrados móveis. A medida serve não só para garantir a organização, como a segurança das próprias pessoas. “Evita que as alegorias possam machucar alguém”, disse David Graziosi, um dos fiscais do evento. Ao todo, de acordo com os organizadores, a Parada Gay de Toronto conseguiu reunir cerca de 1 milhão de pessoas. O público é bem diversificado, mostrando que a população da cidade aderiu de vez a manifestação do GLBTS da Cidade. “As crianças acham engraçada as Drag Queens e se divertem com os brindes que são entregues durante a Parada”, disse Anthony Wright, 42 anos, se referindo a umas correntes coloridas distribuídas pelos participantes.

Entre os grupos convidados, há desde os mais excêntricos aos mais recatados. Transmitiam boas gargalhadas e ares de constrangimento um grupo de idosos que desfilavam pelados. No corpo apenas algumas tatuagens e piecings distribuídos no mamilo, pênis, orelhas e etc. “O homem nasceu pelado e é assim que deveria ficar sempre”, afirmou Steele Peterson, de 67 anos. Mas e no inverno, onde as temperaturas marcam até -30°C? “Usa-se agasalhos onde estiver frio. Nos lugares com aquecedor, tira tudo”, sugeriu. A brasileira Priscilla Borsalli, 27, no Canadá há 2 anos, não concorda: “Eu acho que tira um pouco do objetivo da Parada Gay”. Já o brasileiro Felipe Vancin, de 21 anos, com 1 ano e seis meses de vida em Toronto, não só aprova o evento, como provoca as Paradas Gays do Brasil. “Aqui as pessoas são mais civilizadas. O evento é mais organizado e divertido”, aponta.

Mas em muitas coisas a Parada Gay de Toronto se assemelha ao do Brasil. Na de São Paulo, duas semanas atrás, a ex-prefeita Marta Suplicy dava o ar de sua graça mesmo depois de ter insinuado de modo pejorativo a homossexualidade de Gilberto Kassab nas eleições do ano passado. Aqui, o Partido Liberal – nos moldes do PT – trouxe um carro alegórico para a avenida e, desfilando no chão, o líder do partido e deputado federal Michael Ignatieff distribuía beijinhos e abraços para o público. A prata da casa Cique Du Soleil aproveitou também os festejos para promover o seu novo espetáculo “Ovo”, que estreará na Cidade em Setembro.

Mas a grande surpresa da tarde foi o desfile dos recatados representantes das Forças Armadas do Canadá, nada menos que o exército, a marinha e a aeronáutica em plena Parada Gay. Cumprimentando timidamente o público, o grupo esteve presente pela primeira vez no evento. Tal postura ainda está bem distante de acontecer no Brasil. Ano passado os sargentos Laci Marinho de Araújo e Fernando de Alcântara foram detidos pelo exército após assumirem a homossexualidade em cadeia nacional. Por aqui, a iniciativa foi vista de bom grado. “Não significa que por serem gays, eles são mais fracos ou não podem cumprir ordens dos seus superiores”, disse Deb Gollnick, de 45 anos.

Com diferenças ou não, o Brasil foi lembrado no evento de Toronto. Em um dos carros alegóricos, os manifestantes trouxeram para a avenida uma réplica do Cristo Redentor. No carro, algumas moças fantasiadas de passistas dançando música eletrônica. Um pouco à frente, demais grupos caminhavam com cartazes e placas exigindo tratamentos iguais nos trabalhos na Cidade e modificação nas leis de países de todo o mundo. A mensagem foi dada, caberá ser entendida pelos segmentos mais conservadores de qualquer sociedade.

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