UMA RASTEIRA NO MAINSTREAM
Otto alcança um maior público ao mesmo tempo em que recebe elogios pelo melhor disco de sua carreira

Por Paulo Floro
Enviado especial a Salvador

Fotos por Caroline Bittencourt

O cantor Otto chegou a Salvador como a principal atração do festival Conexão Vivo, que aconteceu durante quatro dias à beira-mar da praia de Pituba. No palco, lançou o seu novo disco em solo baiano, o elogiado Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos. Nos bastidores, parecia que lançava um outro Otto, um Otto mais maduro. Era sua estreia como um artista de maior relevância na música pop. Ainda assim, tentava aparentar um desencanto com toda a repercussão que vem recebendo desde o ano passado, quando ganhou um perfil entusiasmado do The New York Times. “Esse não é meu melhor disco, parem de dizer isso”, reclama. “Uma carreira não se constrói de um disco, minha música não se faz em um disco”. Mas reconhece: “Eu canto melhor, eu toco melhor e o público é maior, por isso repercute mais”.

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Para quem acompanha o cantor desde o início, é difícil não refletir as transformações que sofreu desde que lançou Samba Pra Burro em 1998, uma espécie de trilha sonora para noites emaconhadas cheia de barulhinhos eletrônicos. Com este disco atual, ele realiza que o caminho de seu sucesso é apostar em sua veia ultraromântica, com referências de brega rasgado. “Crua”, uma declaração de amor nada sutil, foi parar na novela das oito da Globo, Passione. Mais amansado, trocou o palavrão “fodia”, por “podia”. Outra canção está na trama da TV Record, Ribeirão do Tempo, “Naquela Mesa”.

Otto fala dessas conquistas com orgulho. “Hoje posso dizer que dei uma rasteira nessa coisa de mainstream”. E deu mesmo. Ao passo em que alcança cada vez mais plateias maiores, cresce em prestígios com admiradores especializados, gente do mercado e críticos. E no meio dessa maior visibilidade, manteve uma autenticidade, um jeito esquisito de ser, que ao contrário de mantê-lo à margem, o levou para o horário nobre e para as páginas do Ego. “Foi uma dura batalha se manter como artista independente, ser independente é assim”.

Em mesinhas reservadas para os músicos no backstage, interrompe uma conversa quando descobre que a reportagem é do Recife. “Adoro falar com gente da minha terra, sempre ligo, gosto quando encontro alguém”, diz embolado. Entrevistar o cantor é uma experiência de desafio. Ele tergiversa, aponta o olhar para um lugar que não existe, se afasta da resposta e por vezes, simplesmente soa inintendível. Conta o carisma, a recepção, senhas que são para guardar em um novo encontro.

No show, ele falou sobre sua relação com a Bahia e falou algo relacionado às origens nordestinas das duas cidades. No backstage, pedi para explicar o discurso no palco. “Sou forte. São grandes coisas que a gente tem que ter nesse mundo, nesse mercado, como nordeste, como pernambucano, são coisas que você tem que carregar, você faz sua noticia, bate escanteio e cabeceia, Gol (sic)”.

Otto “Dias de Janeiro” @ Conexão Vivo em Salvador from RevistaOGrito! on Vimeo.

Sua filhinha Betina o acompanhou na viagem. Foi bastante assediada por assessores e músicos nos bastidores e ficou sentadinha na saída de um dos palcos, indiferente à uma multidão que pedia músicas ao cantor, berrando. A garotinha é fruto do relacionamento do cantor com a atriz Alessandra Negrini. Eles terminaram durante o processo de concepção de Certa Noite Acordei de Sonhos Intranquilos, e o disco é tido como um desabafo do cantor sobre o período.

Otto abriu duas músicas desse disco no show em Salvador. Sua apresentação respondeu com a mesma proporção a histeria do público. Dançou, requebrou, desmunhecou, deu pirueta, se sentou no palco, jogou água em si mesmo, tirou a camisa, além, de claro, brincar com a plateia na sua desengonçada sensualidade. Uma mulher esmagada à grade de proteção, dizia com cara de choro, emocionada, “ele é muito lindo”.

O jornalista viajou a convite da organização do Conexão Vivo

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