SEM PALAVRAS, COM EFEITO
Revelado na internet, cartunista Rafael Sica lança coletânea Ordinário

Por Ju Simon
Colaboração para a Revista O Grito!

Aquele sonho que não tem como explicar. Elementos absurdos se misturam com cenários, caras e situações familiares. Se depois de acordar todo mundo tivesse a habilidade de desenhar, teríamos um tanto de livros como Ordinário, de Rafael Sica. Sem cor, palavras ou padrões de traços e temas, o pequeno livro dá um passo à frente na publicação de quadrinhos no Brasil.

Ao todo são 115 tirinhas já publicadas pelo autor gaúcho em seu blog. Cada uma das páginas – a serem lidas (surpresa!) na horizontal – traz uma história. Quatro ou cinco quadros são suficientes para destilar revolta e humor sobre cenas cotidianas, como um dia de fúria, traições, angústias urbanas, dinheiro.

+ Leia entrevista que fizemos com Rafael Sica quando ele foi revelado em seu blog

Lançado pelo braço de HQs da Cia. Das Letras, o Quadrinhos da Cia., Ordinário é apresentado pela editora como uma combinação da “poesia” de Macanudo (quadrinho do argentino Liniers) e do mundo sombrio e absurdo do cineasta Tim Burton. Nem a crítica inocente do primeiro, nem os elementos fantásticos do segundo parecem referência direta da obra de Sica.

Não há texto, balões ou personagens fantásticos. Há cenários e pessoas aparentemente comuns, silêncio e desfechos quase sempre surpreendentes. Muitas tiras (as que parecem as mais sem pé nem cabeça) são baseadas em sofisticados jogos gráficos.

Nunca foi tão complicado e saboroso ler um livro de quadrinhos. Umas poucas horas são suficientes para “matar” a obra, mas difícil imaginar entendê-la de uma só vez. Ora vertiginosos, ora sutis, os desenhos de Sica se destacam no gênero. Desta vez, o desenho se basta.

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