FIRME NA TRADIÇÃO
Americanos não esquecem as origens, mas se fartam de buscar uma sonoridade sofisticada
Por Lidiana de Moraes

OKKERVIL RIVER
The Stands Ins
[Jagjaguwar, 2008]

Se você ainda não conhece o trabalho do Okkervil River, não sabe o que está perdendo. A banda formada em 2008, em Austin no Texas vive em estado de mutação. Entram novos membros, com novos instrumentos, saem outros e as idéias vão sendo renovadas. A única coisa que parece ser constante no trabalho dos texanos é a qualidade de suas músicas.

The Stands Ins é o segundo disco do grupo por uma grande gravadora. Este trabalho funciona como uma seqüência de The Stage Names, lançado em 2007. O que impressiona nas criações deste conjunto é a riqueza sonora que eles conseguem criar, sem soar como uma superprodução.

Um dos principais problemas que afeta a nova geração do rock mundial é que em alguns momentos todos tentam soar como a mesma coisa. Este mal não aflige o Okkervil. Eles são tipicamente americanos e em alguns momentos até soam como legítimos rednecks. Mas este é um ponto a favor da sonoridade de The Stands Ins.

Cada harmonia pertence ao seu habitat natural, como se você tivesse viajado até Austin e estivesse participando de uma daquelas feiras tipicamente americana, regada a música, cachorro quente e suco de groselha. “Lost Coastlines” e “Singer Songwriter” mostram claramente a influência caipira que o Okkervil conserva. Eles são felizes nesta mistura de uma maneira que o Kings of Leon sempre quis ser, mas acabou exagerando na fórmula.

Seria possível continuar escrevendo sobre este lançamento através de um viés técnico, apenas para comprovar como ele é bom. No entanto, este tipo de análise é injusto porque não consegue capturar a maior qualidade do Okkervil River. Eles fazem canções para serem sentidas. As letras apresentam uma profundidade sentimental que apenas a voz de Will Sheff seria capaz de capturar, dando a entonação certa para cada uma daquelas palavras expresse o mundo para aqueles que conseguem sentí-las.

“Starry stairs”, assim como “On tour with Zykos” e “Bruce Wayne Campbell Interview” demonstram esta faceta sentimental. Quando aparecem, as linhas compostas pelos instrumentos de sopro parecem conspirar contra um cantor apaixonado que tenta esconder sua paixão, fingindo que cada um de seus pensamentos não são direcionados para a pessoa amada. “Here is goodbye, from the part that stays behind” canta Sheff, na tentativa de separar a si mesmo da imagem de sua alma gêmea. O sentimento imposto em cada canção inunda o coração do ouvinte que sente como se cada palavra, cada dedilhar de corda, cada batida de bateria fosse dedicada especialmente para ele.

Uma das canções mais divertidas do disco, “Pop lie” brinca com a possibilidade de cada canção conter uma verdade. Os amantes da música tendem a eleger as faixas com as quais mais se identificam e as cantam com uma devoção que transforma cada linha em uma realidade. Mas afinal o quão real é cada uma dessas canções? O que o Okkervil ensina é que no fundo nada disso importa, desde que cada um de nós possa usar o poder da música para seguir em frente.

The Stands Ins promete aproximar ainda mais aqueles que já admiravam o Okkervil River e também deve conseguir angariar uma nova safra de fãs preparados para se apaixonar pelas músicas, e fazer de cada uma delas uma parte de si mesmo. Enquanto muitas bandas continuam com a sua missão de fazer sucesso, tudo o que os rapazes do Texas parecem ter em mente é conseguir fazer com que as pessoas parem por alguns minutos apenas para colocar o foco em seus sentimentos.

NOTA: 9.5

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