O SONHO EM WALL STREET
Com um país cada vez mais desigual, ativistas ocupam as ruas de Nova York idealizando um EUA mais justo

Por Tiago Negreiros
De Toronto, Canadá

Dificil não concordar que os EUA são hoje um império em franca decadência. Nas mãos, um governo fraco, uma sociedade cada vez mais conservadora e uma economia que agoniza desde o auge da crime mundial, em 2008. Dados divulgados pelo censo norte-americano apontam que o número de pessoas vivendo abaixo da linha da probreza no país aumentou para 15,1%. São 46,2 milhões de pobres, ou seja, 1 em cada 6 vivendo abaixo da linha da pobreza, um dado que os EUA não viam há mais de 52 anos. O desemprego permanece alto: 9% da população ativa.
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Com menos empregos e dinheiro no bolso, a população americana sentiu a pressão e foi às ruas protestar. Não se trata apenas de atrapalhar o trânsito por algumas horas. Hoje em dia “ocupar” virou moda desde que no Egito milhares de pessoas acamparam durante 17 dias na traça Tahir, Cairo, afim de derrubar os 30 anos de ditadura de Hosni Mubarak. Desde então, ocupar é a ordem. Na Espanha, os “indignados”, como ficou conhecido o movimento que levou milhares de espanhóis à Porta del Sol, Madrid, ferveu a Espanha e teve seu auge nos meses de maio e junho contra as medidas de austeridade do governo espanhol. Nem o Brasil ficou de fora da influência da ‘primavera árabe’. Jovens e adultos ficaram cerca de duas semanas acampados na Câmara Municipal de Natal para, além de protestares contra a prefeita da cidade, Micarla de Sousa, pressionarem os vereadores a abrirem um processo de investigação contra as supostas irregularidades da Prefeitura.

Foto: Counter Point Magazine

Exceto no Brasil, cuja ocupação esteve resguardada de sucessivas liminares, os demais protestos sofreram violentas respostas da policia. No Egito, dezenas de manifestantes foram mortos. Na Espanha, os “indignados” denunciaram a violência contra os manifestantes. Os ativistas falam em 20 feridos somente na repressão feita em Puerta del Sol. No Chile, onde estudantes saem às ruas diariamente para defenderem o ensino universitário gratuito, sofrem graves represarias da polícia. E nos EUA, país cuja democracia é considerada como uma das mais avançadas do mundo, a cena se repete. Jovens do chamado “Occupy Wall Street” são agredidos de forma gratuita mesmo protestando de forma pacífica.

Em seu programa de TV, o apresentador Lawrence O’Donnel chamou a atenção da sua audiência para as cenas de violência nas ruas de Nova York. “Por que os policiais estão batendo neste rapaz?”, pergunta, para, em seguida, responder: “Os policiais estão batendo no jovem porque ele está armado com uma câmera de vídeo”. No último sábado, a polícia prendeu cerca de 700 ativistas justificando que os mesmos não possuíam autorização para protestar. Quando as cenas de violência no Egito eram transmitidas para todo o mundo, o presidente dos EUA Barack Obama pedia paz: “Nós rezamos para o fim da violência no Egito, para que os direitos e as aspirações dos egípcios se realizem”. Seu porta-voz, Robert Gibbs, ia mais além: “O presidente e esta administração condenam com veemência a violência ultrajante e deplorável que estar a ter lugar nas ruas de Cairo. Nós o dissemos ao longo deste processo. Obviamente, se a violência é instigada pelo governo, ela deve ser posta o fim, imediatamente.” Obama, até o momento em que esse texto é publicado, não deu nenhum pronunciamento sobre os protestos em Wall Street.

Embora o silêncio de Obama e da má vontade da “grande mídia” norte-americana, as manifestações em Nova York crescem a cada dia e ganham ramificações em outras cidades do país, como Boston, Chicago e Los Angeles. Apoios importantes também tem sido dado por parte da classe artística e intelectual dos EUA. O cineasta Michael Moore visitou os acampados e, apenas com a garganta – o uso do megafone foi proibido pela polícia – conclamou: “chegou a hora de os ricos pagarem. Que paguem impostos! Sejam ladrões, gângsteres e cleptomaníacos. Tentaram tirar nossa democracia e transformá-la em hipocrisia”. Em seu blog, Moore pedia para todos participarem das manifestações. “É a primeira vez que uma multidão de milhares toma as ruas de Wall Street”, lembrou.

Foto: David Shankbone / Flickr

Outros artistas também visitaram o local, como a atriz Susan Sarandon e os atores Alec Baldwin e Mark Ruffalo, que publicou um texto no Guardian elogiando a atuação dos ativistas: “Quando as pessoas criticam esse movimento, elas estão mostrando o quanto nos tornamos superficiais como nação. Esquecem que esses ativistas têm tido tempo de suas vidas para defender valores que são puramente americanos e do interesse da nossa democracia. Esquecem que essas pessoas estão acampadas em um parque urbano, onde não é permitido ter tendas ou outros equipamentos de camping. Eles estão vivendo fora de sua zona de conforto para proteger e celebrar a liberdade, igualdade e Estado de Direito.”

Celebrar ou exigir, o fato é que as demandas dos ativistas, até então, eram confusas e repletas de utopias. Afinal, o que querem os jovens de Wall Street? Um mundo melhor? Emprego? Justiça social? São questionamentos tão subjetivos, de resoluções tão complexas e de longo prazo que fica difícil imaginar até quando durará a empolgação dos ativistas em se manterem acampados nas ruas de Nova York. Cientes desse hiato, os manifestantes procuraram melhorar a comunicação. No último sábado (01), sob ajuda de doações online, os ativistas distribuíram gratuitamente 50 mil unidades do jornal Occupied Wall Street Journal, cujo objetivo, segundo eles, é informar o dia a dia das atividades dos manifestantes, como para esclarecer suas respectivas demandas. Na primeira manchete, um título que remete à influência das mídias sociais no protesto: “A revolução começa em casa”. Ao New York Times, a ativista Veronica Cook, de 19 anos, explicava: “Fazer um jornal é uma boa maneira de tentar obter uma mensagem. Pelo menos não estamos apenas gritando”.

Foto: Carwill Bjork Jones / Flickr

“Occupy Wall Street” também publicou seu primeiro manifesto no último fim de semana. Em tom contrário ao neoliberalismo e acentuada crítica ao capitalismo e ao Governo, os ativistas bateram de frente com os responsáveis pela crise de 2008. Aqui, alguns trechos do documento: “O futuro da raça humana exige a cooperação de seus membros; que nosso sistema deve proteger nossos direitos e que, ante a corrupção desse sistema, resta aos indivíduos a proteção de seus próprios direitos e daquElas de seus vizinhos; que um governo democrático deriva seu justo poder do povo, mas as corporações não pedem permissão para extrair riqueza do povo e da Terra; e que nenhuma democracia real é atingível quando o processo é determinado pelo poder econômico. Nós nos aproximamos de vocês num momento em que as corporações, que colocam o lucro antes das pessoas, o interesse próprio antes da justiça, e a opressão antes da igualdade, controlam nosso governo. Nós nos reunimos aqui, pacificamente, em asssembleia, como é de direito nosso, para tornar esses fatos públicos. Eles (ao que o manifesto chama de ‘sistema’) doaram enormes quantidades de dinheiro a políticos cuja obrigação era regulá-las; continuam a bloquear formas genéricas de remédios que poderiam salvar vidas das pessoas para proteger investimentos que já deram lucros substanciais; continuamente arrancaram dos empregados o direito de negociar melhores salários e condições de trabalho mais seguras; receberam impunemente socorro financeiro tirado dos contribuintes, e continuam dando bônus exorbitantes a seus executivos; tomaram nossas casas através de um processo de liquidação ilegal, apesar de que não eram donos da hipoteca original; participaram da tortura e do assassinato de civis inocentes em outros países.”


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Tiago Negreiros é jor­na­lista polí­tico. Reside em Toronto, no Canadá e escreve arti­gos para a Revista O Grito! sobre polí­tica internacional

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