Foto: Divulgação.

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Um conto doloroso embalado pelo mito dos
HQ O Quinto Beatle conta a história de , visionário empresário da banda que sofreu por ser gay na Inglaterra dos anos 60

Por Paulo Floro

[Recomendado]

A HQ O Quinto Beatle entrega bem mais do que bastidores de uma das maiores bandas da história e fenômeno pop mais conhecido em nossa era. É, antes de tudo, uma investigação sobre a solidão, o amor e as batalhas que precisamos travar quando somos considerados uma anomalia no padrão social aceito. A história de Brian Epstein ainda é pouco conhecida dentro da narrativa dos Beatles. E é isto que os autores , e tentam remediar nesse livro.

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A história mais rudimentar, o mais razoável fã dos Beatles deve conhecer. O empresário, e um dos donos da loja de discos Nems, foi até um porão em Liverpool e conheceu uma banda de quatro garotos no início dos anos 1960. Mais do que todos ali naquele ambiente, ele enxergou o potencial do grupo e decidiu empresariá-los. Foi esta sua visão que nos proporcionou um dos maiores fenômenos da cultura pop de todos os tempos. Brian teve uma ambição tida como inalcançável para a época: aquela jovem banda seria maior do que Elvis Presley.

O tempo mostrou que o resultado foi bem além dos sonhos mais febris do empresário. Mas ele nunca se mostrou plenamente satisfeito. Seu olhar sempre à frente da maior das expectativas proporcionou aos Beatles atingir fronteiras até então inéditas para bandas pop inglesas. E Epstein sabia que a banda estaria destinada a ser apenas uma moda passageira se continuassem apenas no Reino Unido. Por isso, o plano arquitetado para a estreia no programa norte-americano de Ed Sullivan ilustra bem o poder de barganha que o empresário possuía e como ele acreditava no poder daqueles garotos dentro da ebulição tanto ideológica quanto mercadológica dos anos 1960. Ele também mudou as regras da indústria ao levar o grupo ao estrelato internacional.

Epstein viveu em um dos piores períodos para gays no Reino Unido. (Divulgação).

Epstein viveu em um dos piores períodos para gays no Reino Unido. (Divulgação).

Mais do que empresário, Brian Epstein era também uma espécie de mentor da banda. Ele soube contornar as idiossincrasias de cada um para que isso não atrapalhasse a trilha de sucesso que tinha traçado. Mas, sua maior batalha era bem mais íntima: judeu e gay, ele precisou driblar esses percalços para fazer da banda um hit perene. A HQ se debruça sobre esses conflitos do empresário, traçando um paralelo de sua vida sexual com o sucesso de seus agenciados (além dos Beatles, Epstein ainda tornou famosos a cantora Cilla Black e o cantor Billy J. Kramer).

Vivek J. Tiwary, conhecido pelas peças de sucesso na Broadway A Família Adams e American Idiot (baseado no disco do Green Day), criou uma narrativa que trouxe profundidade à história de vida de Epstein além da memorabilia voltada a beatlemaníacos. Na realidade, o livro faz mais pela luta por direitos gays nos dias atuais do que propriamente uma ode ao legado dos Beatles. Mas, claro, a costura que dá sustentação à trama é sim o impacto que a música do quarteto teve para as gerações futuras.

Mais especificamente no que os Beatles representaram no entendimento de mundo a partir do amor, por mais utópico, ingênuo – e ao mesmo desafiador – que isso pudesse parecer. Tiwary consegue transpor no roteiro o poder que os versos de “All You Need Is Love” possuíam naquela movimentada década e como grande parte do repertório do grupo serviu de inspiração para diversas gerações. Inclusive, Epstein conseguiu levar os integrantes a um tal ponto do estrelato que todos acabaram refletindo sobre o futuro como grupo, o que mais tarde acabaria levando ao fim.

HQ traz um tom melancólico em contraste com a ebulição da época. (Divulgação).

HQ traz um tom melancólico em contraste com a ebulição da época. (Divulgação).

Os artistas Andrew C. Robinson e Kyle Baker trouxeram à HQ a delicadeza e poeticidade necessária para traduzir o personagem complexo que foi Brian Epstein. Vivendo em uma das épocas mais conturbadas e perigosas para gays, ele viveu transtornado por uma solidão que funcionava como uma punição. Usando medicamentos prescritos naqueles tempos, ele enxergava a homossexualidade como uma “condição”.

A viagem aos EUA afetou o empresário tanto quanto aos Beatles. No caso dele, o impacto pessoal foi ainda maior por causa do contato com um estilo de vida que, se não totalmente aberto, representava menos riscos que a puritana e autoritária Inglaterra. Por lá, a descriminalização só aconteceria em julho de 1967, um mês antes da morte de Epstein, causada por uma ingestão acidental de medicamentos.

Robinson, indicado ao Eisner Awards deste ano pelo trabalho, usa diversos recursos narrativos para contar esses embates internos de Epstein. É algo que parece funcionar apenas nos quadrinhos,um tipo de impacto visual que nos aproxima do íntimo do personagem como talvez poucas mídias são capazes. A arte funciona para ambientar os diversos momentos de frustração, crises causadas pelo desejo, mas principalmente para relatar a dor sofrida pelo fato simples fato de ser gay. O Quinto Beatle, é um relato doloroso sobre ambição e sonhos e também um modo inovador de recontar a mitologia dos Beatles.

Livro recebeu indicações ao Eisner Awards. (Divulgação).

Livro recebeu indicações ao Eisner Awards. (Divulgação).

A edição brasileira está à altura da versão lançada nos EUA pela M Books e que chegou a ficar no topo da lista do New York Times. Há esboços, notas, diversos textos dos autores e até uma carta da associação Freedom To Marry, que pede o casamento igualitário em todos os estados norte-americanos, da qual a HQ é militante. O formato e qualidade do papel faz jus ao poder tanto do tema quanto do que o trio fez para a arte dos quadrinhos. Um plus: os exigentes colecionadores beatlemaníacos não terão do que reclamar.

O-Quinto-Beatle-capaO QUINTO BEATLE – A HISTÓRIA DE BRIAN EPSTEIN
De Vivek J. Tiwary (texto), Andrew C. Robinson e Kyle Baker (arte)
[Editora Aleph, 168 págs, R$ 59,90 / 2014]
Tradução: Delfin
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Nota: 9,0

Momento em que Brian Epstein conhece os Beatles. (Divulgação).

Momento em que Brian Epstein conhece os Beatles. (Divulgação).

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