Com um desleixo virtuosamente calculado, longa de parece mais uma carta de intenções do que um projeto realizado

(2014), de Michael Sturminger, é um exercício de metalinguagem e virtuosismo: é uma embarcação delirante que traz, à proa, . É um filme que opera por excesso, pelo transbordamento de todas as suas escolhas. Independentemente de qualquer juízo, é preciso reconhecer que essa é uma operação corajosa.

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O filme se acumula em camadas. Ele é baseado numa peça homônima escrita pelo próprio Sturminger. A peça, por sua vez, tem por base tanto o livro Histórias de Minha Vida, de Giacomo Casanova (o libertino arquetípico), como a ópera Don Giovanni de Mozart, que teria sido inspirada na vida de Casanova. Inclusive, peças dessa ópera, bem como peças das óperas As Bodas de Fígaro e Cosi Fan Tutti (ambas também de Mozart), costuram o filme. Da mesma forma, as camadas se acumulam no interior da narrativa: acompanhamos Malkovitch interpretando a si mesmo, ou a uma versão de si mesmo que se apresenta como um ator frustrado por não conseguir exercer corretamente seu ofício, isto é, repetir todos os dias o mesmo texto diante de uma plateia.

E é aí que as variações se iniciam: a versão de Malkovitch aqui é uma espécie de extensão de Casanova, um conquistador dos bastidores, das coxias e dos camarins. Dos bastidores vamos aos palcos do Teatro São Carlos em Lisboa, em que ocorrem encenações da vida do protagonista tornada em ópera. Das encenações vamos a uma reconstituição de época, em que vemos Casanova à beira da morte, recebendo a visita da escritora Elisa (Veronica Ferres) que, aparentemente, deseja escrever a biografia do libertino.

(Há mesmo uma camada intertextual pela inevitável lembrança do filme Quero Ser John Malkovitch, de 1999, dirigido por Spike Jonze). Assim, vamos transitando por entre as camadas, sem lógica aparente.

É verdade, no entanto, que o empreendimento do diretor é por demais grandioso e ameaça, a cada instante, transformar-se num elefante branco. Não bastasse todas as camadas relativas à vida de Casanova, isto é, às variações que constam no título, o roteiro ainda se arrisca a fazer comentários sobre a recepção de formas “antiquadas” de arte na era digital, trazendo câmeras de celular em boa parte dos trechos que se passam nos bastidores, ou nas encenações, durante as quais vemos, por vezes, espectadores filmando a performance dos atores.

Na verdade, essa forma de filmar meio ao acaso, um tanto flutuante, que perde o foco do objeto principal a todo instante, é trazida para a linguagem do filme em si, é um desleixo virtuosamente calculado, querendo ficar entre o amadorístico e o documental, sem perder em rigor formal. Talvez uma forma de o diretor atualizar o “antiquado”, assim como os espectadores de seu filme fazem com a ópera que assistem. E assim o filme segue cambaleante em seus excessos, assemelhando-se antes a uma enorme carta de intenções, do que a realização plena de cada uma delas. Ainda assim, Variações… rende momentos interessantes, como todo embate entre Casanova e Elisa, e alguns inegavelmente hilariantes, como a maior parte das conversas de bastidor.

Se o filme acerta em algo, aliás, é em seu tom farsesco. O deboche e a auto-ironia não apenas confirmam e refletem a personalidade libertina e anárquica de Giacomo Casanova, mas libertam o filme de muitas de suas pretensões irrealizadas, bem como evita que ele seja um completo elefante branco, isto é, que sua carcaça se sobreponha de tal maneira a seu conteúdo, que ele não seja mais do que um imenso constructo oco.

Esse é, sem dúvida, o projeto do filme: transformar a demanda de Casanova por novas amantes, por novos tempos, por novidades em geral, na base do filme. É o ator que não sabe se repetir, o libertino que não sabe se repetir o filme que não pode se repetir, pois seu objeto rejeita essa ideia de qualquer forma. É realmente tentador estender a necessidade por novidade para um comentário sobre a contemporaneidade e sua insaciedade, e sua vontade constante pelo novo, mas, como o filme não se decide por quais caminhos transitar, é dado muito pouco tempo a estes comentários, de modo que eles se tornam quase gratuitos, não fosse aquela auto-ironia que aponta como objeto ultrapassado, exatamente aquilo que o filme busca salvar e preservar: a ópera.

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Há aqui qualquer coisa de melancólico, o filme possui uma agitação, um êxtase, que se consuma pelo delírio, alegria típica das noites orgiásticas. Neste sentido o filme é bastante eficiente, faz-nos vivenciar, mais pela sua forma do que por seu conteúdo, o que é ser um libertino, o que é buscar rasgos de prazer sem nunca alcançá-los efetivamente.

Talvez por mimese em demasia, o filme também se torna um perseguidor, correndo em círculos atrás de seus objetos, sem nunca se ater efetivamente a um deles. Creio, porém, que isso resulta numa ideia muito mais elegante ao ser examinada do que ao ser vista, ainda assim, vale este breve exame. Variações… possui como trunfo a exposição de seus próprios fracassos, assim como Casanova se consagrou ao mostrar para o mundo sua sífilis, e cada uma de suas degradações mais profundas. Há mesmo uma cena em que os personagens brindam às doenças venéreas e às imprecauções de uma vida desregrada.

É nesse sentido que Variações de Casanova é um empreendimento corajoso, ele leva a cabo, ainda que tropeçando no caminho, seu projeto de fragmentação do protagonista, mesmo que isso signifique nunca penetrá-lo. Como a vida de seu retratado, o filme vale mais por seu trajeto, pelas reflexões que o permeiam, dramática e conceitualmente, do que pelo seu ponto de chegada.

VARIAÇÕES DE CASANOVA
De Michael Sturminger
[Casanova Variations, POR/FRA/AUS/ALE, 2014 / Imovision]
Com John Malkovich, Veronica Ferres, Victória Guerra

https://www.youtube.com/watch?v=UP5gr6FnIBU

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