O CONTÍNUO CONTRA TODOS
Nova edição do selo reforça talento do selo para aliar boas ideias com qualidade editorial no mundo independente
Por Paulo Floro

O CONTÍNUO 7 – MARINA CONTRA TODOS
Carlos T:Lemøs, Dalton Correa Soares e Pedro Felício (texto) e Alcimar Frazão, Olavo Costa, Juarez Ricci e Julia Bax (arte)
[Independente, 44 págs, R$ 5,00 na Livraria Cultura, Livraria HQ Mix ou no blog]

A tarefa de se aventurar pelo mundo independente dos quadrinhos é uma tarefa árdua. E apostar num mínimo de experimentação é mais difícil ainda. O coletivo O Contínuo conseguiu, e ainda adicionou bons roteiros em seus lançamentos. É o caso deste sétimo volume, Marina Contra Todos, lançado no final do ano passado. O destaque aqui, além da história e desenhos é o manejo da narrativa, bricolada, contando como todos os personagens lidam com a existência da Marina do título.

Marina Contra Todos é multifacetada, tanto esteticamente, quanto conceitualmente. São quatro pontos de vista diferentes contando a mesma história. Isso pode dar um contorno um tanto confuso à HQ, ainda mais se pensarmos que se trata de uma obra relativamente curta, de 44 páginas. Começa como uma crônica do cotidiano, muito bem feita diga-se, com os personagens conversando de maneira muito verossímel e desenhos coerentes com o roteiro. Em seguida, o quadrinho já passa para um tom fantástico, com a moça voando, destruindo carros e causando um caos na cidade. Não chega a se assemelhar aos comics americanos, pelo tom absurdo implícito no argumento, mas não deixa de fazer intersecções.

Feito a seis mãos, foi escrito pelos roteiristas do selo Carlos T:Lemøs, Dalton Correa Soares e Pedro Felício e os desenhistas Alcimar Frazão e Olavo Costa. Mas são os dois convidados que fazem a diferença na história. Juarez Ricci empresta seu traço caricaturesco para a história dos burgueses conversando à mesa. Preconceituosos, misóginos e fanfarrões, contrastou com o resto da história, sempre focado na jovem Marina, que fugida de casa, é perseguida por um levante de pessoas liderado por um pretenso leitor de autoajuda. A outra convidada é Júlia Bax, quadrinhista do Pará com promissora carreira no exterior.

Ousadia e mercado
O reconhecimento do trabalho do coletivo O Contínuo aos poucos ultrapassa o simples alento de críticos especializados e entusiastas do quadrinho nacional. Desde o ano passado, uma parceria com a Livraria Cultura, uma das maiores redes de livrarias do país, está vendendo edições do selo. As HQ’s podem ser encontradas em lojas físicas e também pelo site. Para esta sétima edição, foi feito lançamento com coquetel na unidade do Shopping Villa Lobos, em São Paulo e também no Recife.

Esta sétima edição já mostra solidez no trabalho do grupo, que mais do que colecionar prestígio no cenário indie, agora pode almejar adentrar num mercado editorial, que, embora ainda nebuloso quanto ao futuro, aponta um avanço. Com roteiros e desenhos entre o regular e o surpreendente, não seria mal uma coletânea de O Contínuo chegar às livrarias em breve.

Marina Contra Todos é o melhor das sete edições já lançadas. Só não chega perto da edição especial, Câncer, publicada em maio, um exercício quase inédito em HQ’s no Brasil no que diz respeito à experimentação. Mas coleciona bons momentos, mesmo que por vezes a narrativa sofra solavancos bruscos. A cena da “merda humana” e a relação do mendigo Tião com os demais personagens rendem boas sacadas.

NOTA: 8,0

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