Autores refletem mundo fragmentado, com referências se cruzando a todo momento (Foto: Daxtoor)

OS NOVOS-IORQUINOS
Pelo grande número de escritores que surgem e pela capacidade do mercado de distribuir esses nomes – e os tornarem relevantes – Nova York, mais uma vez, mostra sua vocação para ser o centro de tudo

Por Paulo Floro
Editor da Revista O Grito!

Um mito transformador percorre a cidade de Nova York. Outras capitais compelem o mesmo sentimento, mas NY é maior, tem um efeito por vezes até exagerado sobre pessoas do mundo todo, vendendo um mito de “capital do planeta”. Com escritores não poderia ser diferente. Na literatura, grande parte do que é feito e consumido hoje no mundo passa por ali. Seja como polo distribuidor das novas tendências, seja como capital que abaliza o que é produzido ou mesmo local de uma nova cena a nascer no universo literário. Hoje, diferentemente de outros momentos que a cidade viveu, seus autores refletem o mundo fragmentado, com referências se cruzando a todo momento. Nomes como John Barth, John Hawakes e Sandra Cisneiros e novos nomes como Jonathan Safran Foer e Téa Obreht percorrem uma linha ampla de gêneros e estilos.

Antes deles, era fácil perceber algo em comum no bojo de escritores que fizeram da cidade uma capital literária, importante e influente no resto do mundo. Começa, talvez com os beatnicks, que nos anos loucos, fizeram a cabeça de adolescentes, outsiders, intelectuais, escrevendo sobre uma boemia iluminada, escrevendo com desencanto sobre o crescimento da cidade, e o desejo de fugir. Após as noites de drogas desse período, Nova York ficou marcada pelas reportagens antológicas do New Journalism, com textos de Gay Talese na revista Esquire, New York Times, por sua vez influenciado pela prosa de J.D. Salinger e sua visão sobre o cotidiano.

Na segunda metade do século passado, alguns nomes entraram para o rol de escritores que influenciaram a prosa contemporânea. A maioria perdeu força, e seguem em lançamentos bissextos, mas seu repertório ainda repercute. É o caso de Toni Morrison, uma das vozes mais conhecidas na literatura multicultural que se transformou Nova York até os anos 1990. Seus livros motivaram estudos de gênero, raça e ajudaram a ilustrar a história dos EUA, através de pontos de vista pouco conhecidos, como os negros escravos e as mulheres do final do século 19. Um de seus romances mais conhecidos, Paraíso (1999), rendeu um Pulitzer, uma das mais honrosas distinções do mercado editorial norte-americano. Outro nova-iorquino que ajudou a fazer da cidade um polo, foi Don DeLillo. Seu retrato da sociedade norte-americana, em grande parte usando Manhattan como cenário, também ajudou a entender, a seu modo, um novo tipo de american way of life. Ou ao menos um novo olhar.

Diferentemente de Morrison, que aos quase oitenta anos, mostra sinais de que se retira do mercado, DeLillo segue firme em suas histórias. Seu mais recente livro, Point Omega, lhe conferiu páginas em jornais e suplementos literários e mostra que apesar de algumas críticas abusadas, ele ainda continua com o mesmo estilo mordaz. Seus livros até hoje são usados como panorama para entender as transformações sofridas nos EUA e na mentalidade das pessoas. Nova York, para o autor, representa a nova realidade do país, com seu contigente de novas culturas, e as dificuldades de compreensão desse novo contexto pelo povo estadunidense. Um de seus últimos livros lançados no Brasil, Homem em Queda (Companhia das Letras), de 2007, reflete sobre a cidade pós-11 de Setembro. A ferida aberta deixada no cidadão comum transfigurada em um novo cenário de medo e insegurança. O romance conta a história de Keith, um advogado que tenta entender o que mudou em sua vida após os ataques. A partir dele, o autor reflete sobre a paranóia e o preconceito contra tudo o que é islâmico.

Livros de DeLillo refletem feridas abertas dos novaiorquinos pós-11 de setembro (Foto: Divulgação)

Point Omega, lançado em fevereiro de 2010, e ainda inédito no Brasil, ganhou críticas negativas de conceituados veículos, como a revista New York e The National. Ainda assim, aos 73 anos, Lillo continua atualizando seu olhar sobre o mundo contemporâneo. Sua escrita serve como prova de como Nova York ainda se mantem como centro catalisador das mudanças no globo. Neste novo volume, o plot é a máquina de guerra norte-americana. O autor é um dos vencedores do National Book Award. Entre seus outros livros publicados por aqui ainda estão Cosmópolis (2003), sobre especulações da bolsa de valores e o universo das finanças, e A Artista do Corpo, um dos poucos com proposta intimista, falando sobre suicídio, todos pela Companhia das Letras. Mas é o camalhaço Submundo, considerado seu best-seller, a mais conhecida obra do autor. Contando mais de 50 anos de história norte-americana, este livro é difícil de encontrar atualmente em livrarias.

Outro que preenche esse grupo de escritores importantes do século passado foi John Barth. Assim como DeLillo, que encontrou na sua visão acurada da sociedade americana o norte para sua obra, este autor nascido em Maryland e atualmente residente nos EUA, tem o mesmo interesse. A diferença está na abordagem. Barth segue uma linha mais metafísica, com referências a Jorge Luís Borges (alguns diriam “pós-moderno”). Anda bem sumido das livrarias e cadernos literários dos jornais. Seu livro mais conhecido teve uma tradução no país pela editora Brasiliense, A Ópera Flutuante. O mais recente lançamento The Development foi bastante elogiado nos EUA, mas ainda não tem previsão de lançamento por aqui.

Os Novos-Iorquinos
Após a passagem desses autores que atravessaram o século passado com vigor na produção, uma nova geração de autores começam a se destacar. Todos tem menos de 40 anos, o que na literatura se configura como jovens escritores. Grande parte vivendo nos subúrbios de Manhattan, eles mostram tramas com bastante influência das transformações dos autores acima citados. Alguns, trocaram seus países e estados de origem pela Grande Maçã e a grande maioria baseia suas histórias no cotidiano das pessoas comuns.

Jonathan Safran Foer é um dos mais proeminentes dessa nova safra. Nascido em 1977, ele já teve até um de seus livros adaptados para os cinemas. Tudo Está Iluminado (Everything Is Iluminated), ganhou as telas na pele de Elijah Wood (o Frodo de O Senhor dos Anéis), no papel principal e mostra um homem obcecado em colecionar. É uma viagem bem-humorada pelos que os norte-americanos mais apreciam, mas serve também para falar sobre novos transtornos da vida moderna. Um dos autores tidos como influências por Foer é Franz Kafka.

O segundo romance do autor, Extremamente alto e incrivelmente perto, é mais contudente. Trata da relação do protagonista em entender o mundo pós-11 de Setembro, mostrando em como a cidade influencia as tramas dos atuais autores. O carisma do autor e de seus personagens o transformaram em um astro pop dentro do atual mercado norte-americano. Este segundo livro já teve os direitos comprados por estúdios de Hollywood.

O Russo Gary Shteyngart veio a Nova York para estudar e logo ganhou a simpatia do meio literário norte-americano. Com apenas três livros lançados e nenhum publicado no Brasil, ele já recebeu prêmios e menções honrosas em publicações como The Guardian e Time Magazine. The Russian Debutante’s Handbook, é uma ficção bem-humorada que lida com os costumes de quem trocou sua terra natal e as dificuldades de se adaptar. O segundo Absurdistan, fala de um romance de um homem russo no Bronx.

Entre outros nomes que começam a ganhar destaque está Téa Obreht, nascida na Iugoslávia e a americana Nicole Krauss. Téa tem um livro que será lançado em 2011, The Tiger’s Wife. Ela foi bastante elogiada pela revista New Yorker, que a tem como promessa. Já Krauss, já goza do prestígio de ser uma escritora de sucesso. Seu livro Man Walks Into a Room a fez receber diversos convites para eventos e entrevistas. Ela explora bastante o passado, de maneira subjetiva, para tentar entender o mundo atual e suas peculiaridades. Tem um livro publicado no Brasil, A História do Amor, bastante elogiado pela crítica e que a trouxe para a Festa Literária Internacional de Paraty, em 2006.

Pelo grande número de escritores que surgem e pela capacidade do mercado de distribuir esses nomes – e os tornarem relevantes – Nova York, mais uma vez, mostra sua vocação para ser o centro de tudo.

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