OUTRO OLHAR
Obra de André Diniz baseado na vida do fotógrafo Maurício Hora mostra a favela além dos clichês

Do editor da Revista O Grito!

Um outro olhar sobre as favelas do Rio de Janeiro sempre foram explorados por diversos produtos culturais, mas o que vemos nesse Morro da Favela é uma proposta mais sofisticada, que consegue se equilibrar bem na tentação de resvalar para um texto meloso e condescendente e algo mais radical de pura crítica social. André Diniz, um dos quadrinhistas brasileiros mais prolíficos da atualidade nos entrega uma obra de inegável apelo pop com uma história bem contada sobre Maurício Hora, filho de um ex-traficante que modifica a própria vida e das pessoas ao redor ao trabalhar com fotografia.

Não se trata de uma biografia, mas sim de uma narrativa em primeira pessoa onde diversos temas são abordados através do olhar de Hora, como tráfico de drogas, corrupção da polícia, política, preconceito racial e discriminação social dos habitantes dos morros. O tom do texto chega a ser infantil e didático algumas vezes, mas nunca ingênuo. Existe uma veracidade nas páginas que ganha contornos dramáticos quando reconhecemos que todos os problemas relatados ainda são muito presentes.
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Leia um preview do livro
Entrevista com André Diniz

Através do livro é possível acompanhar a gênese do Morro da Previdência, hoje um lugar pacificado através da instalação de uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP). O lugar foi a primeira favela do país, criada em 1987, quando soldados que lutaram na Guerra dos Canudos passaram a ocupar o morro. O pai de Hora foi um dos primeiros “malandros à moda antiga” e iniciou venda de drogas na região. O retrato que o resto da sociedade foi construindo da periferia começa a ficar bem claro à medida em que os conflitos entre traficantes e polícia ficam mais acirrados.

Alguns momentos da vida de Hora são particularmente doloridos, mas isso não cai em uma vitimização exagerada e clichê. É por conta desse roteiro tão bem estruturado que Morro da Favela ganha em profundidade em um tema tão delicado por ser tão contemporâneo. A arte de Diniz trabalha numa estrutura de luz e sombra que remete à xilogravura. Lembra muito o trabalho de Flávio Colin (Fawcett). O traço tem toda a dramaticidade que a HQ precisa, sem precisar que o roteiro apelasse para isso.

A leitura chega a trazer alento, mas conhecer mais o trabalho de Hora, que chegou a expor em Nova York e hoje é um dos nomes mais importantes do país na fotografia mostra que Morro da Favela é mais crítico do que emocionante, na verdade. Um dos trabalhos mais interessantes e criativos no formato e no conteúdo lançados este ano. [Paulo Floro]

MORRO DA FAVELA
André Diniz (texto e arte)
[Barba Negra / Leya, 128 páginas, R$ 39,90]
[Recomendado]

NOTA: 9,0

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