Missão Babilônia  - Dir.: Mathieu Kassovitz (Foto: Divulgação)

HUMANIDADE EM XEQUE
Exibicionismo disfarcado de discurso ‘e o mote de produ’cao franco-americana
Por Lidianne Andrade

MISSÃO BABILÔNIA
Mathieu Kassovitz
[Babylon A.D., EUA/ FRA, 2008 ]

Homens andando armados livremente nas ruas, mercado negro dominando o ambiente e um mundo arrasado por guerras e doenças, a humanidade lutando para sobreviver. E mais uma vez os Estados Unidos é o único país sobrevivente de todas as desgraças do mundo. Parece enredo de filme antigo? Não, é do recém lançado nas telas Missão Babilônia, longa de ação com assinatura na direção de Mathieu Kassovitz.

Baseado no livro Babylon A.D., de Maurice G. Dante, o longa traz Vin diesel (Velozes e Furiosos) como ator principal, interpretando Toorop, um matador profissional mercenário que de tão bonzinho teve seu DNA marcado e taxado como “persona non grata” nos Estados Unidos. Vivendo na Mongólia, é pago para levar a irmã de um convento (Michelle Yeoh) e sua pupila Aurora (Mélanie Thierry) aos Estados Unidos em segurança. Durante a fantástica viagem com direito a Estreito de Bering congelado novamente, descobre que Aurora seria uma suposta salvação para a humanidade ou a causa de destruição da mesma.

Pecados aqui são muitos. Para ser um filme de ação, não custava nada maneirar um pouco na câmera nervosa, estilo United 93, talvez um mal de Parkinson do cara que manipulava o equipamento. Brincadeiras à parte, em quase nada rendem as cenas de ação. São seqüências que, intercaladas com a dramática dos personagens (chegando nisto mais tarde…), tornam-se bobas, beirando o exibicionismo de tanto bate-bate gratuito. Até a freira entra na briga com socos e tiros em perseguição. A trilha sonora não é das piores, mas de tão comum em outros filmes nem tem graça. Aliás, o filme todo parece uma mixagem de longas antigos do gênero, fato justificado pelo diretor, que alegou terem muitas mãos na montagem por conta do estúdio, deixando o filme perder um pouco de sua identidade.

Se a sinopse não deixou claro que não vale a pena pegar um ingresso para Missão Babilônia, o roteiro completo deixa um arrependimento em quem viu. A começar pela presença de Aurora, indo de uma pequena vidente indefesa (no inicio prevê a explosão de uma bomba na estação de trem e foge) para tornar-se a salvação da humanidade. A jovem é o resultado de uma experiência para criação de seres perfeitos dos pais cientistas e já falava 19 idiomas aos dois anos, sabe de fatos que não presenciou e até engravida sem relação sexual. Segundo o discurso de sua mãe, uma líder religiosa de uma das duas seitas existente no mundo (estamos na Terra em 2000 e lá vai o trem), ela seria a chave salvadora da fé e união dos homens. A nova versão da virgem Maria? Se era pra ser, ficou muito ruim. Se não era, pareceu muito, tanto que deu vergonha em versões como Je Vou Salue Marie, de Godard. Enfim, um grande equívoco.

Missão Babilônia  - Dir.: Mathieu Kassovitz (Foto: Divulgação)

Os atores bem que tentaram, mas não dava para fazer muita coisa. Mélanie Thierry tem uma carinha convincente para virgem e traços angelicais e Diesel, com sua voz maçante de menino do Brooklin, faz muito bem seu papel de terrorista de subúrbio, com abdômen esculpido mostrado em belo lance de toalha, corpo tatuado e com cicatrizes de guerra. Fala pouco e atira muito, como todo matador que se preze. E como em todo bom filme de maldade, o vilão torna-se bonzinho e Toorop abre mão do dinheiro para tentar salvar a moça.

Porém, pior que fazer um roteiro ruim é tentar deixá-lo tão bom que não se sabe onde vai parar. O filme começa com Toorop filosofando sobre sua morte. Complica-se com o fato da moça não ser tão angelical quanto sua aparência. A Terra em ruínas, conflitos de interesses, luta por sobrevivência em um planeta devastado pela corrupção (seria uma premonição do mundo real?), onde o mercado negro de armas domina as ruas (cenas iniciais). Muita coisa acontecendo, sem contar no fator religioso e ético tão constante e mal explicado que acaba deixando o filme sem conclusão. Em sua primeira cena, Toorop ora antes de iniciar uma refeição e, já no final, ora pela salvação da alma de sua amada, deixando uma rima visual bela e confusão: afinal, ele acredita que ela seria a salvação mundo, mas ela salva ou não o mundo? Para que servem seus filhos? Como pode o pai de Aurora ressuscitar de uma morte espetacular de explosão e morrer com apenas um tiro? Enfim, não deve-se esperar uma continuação, para felicidade dos fãs da sétima arte. Com Perigo em Banckok ainda em cartaz, Hollywood não precisava de mais uma lição de moral mal dada nas telas.

NOTA: 1,0.

Mathieu Kassovitz (Foto: Divulgação)

Diretor insatisfeito com resultado

Mathieu Kassovitz, a mão responsável pela direção de Missão Babilônica, deixou claro sua opinião sobre o longa: não gostou. “Estou muito desapontado com o filme. Nunca tive a oportunidade de rodar uma cena da forma que foi escrita e da maneira que eu gostaria que fosse. Em nenhum momento o roteiro foi respeitado. Produtores ruins, parceiros ruins, foi uma experiência terrível”, declarou em entrevista em SciFi Scanner.

A definição do diretor francês para a sua própria obra foi clara: “violência e estupidez pura”. Para ele, o filme deveria passar uma mensagem, fazendo com que todas as cenas de ação possuíssem um objetivo. Mas isso não aconteceu. Passando a bola da responsabilidade do péssimo responsável, cita até seus problemas com o ator Vin Diesel, o que fez com que a produção ficasse suspensa por 15 dias e estourasse o orçamento. Alguns tablóides afirmam que o ator chegava constantemente atrasado aos sets e que seu empresário teve que viajar até a República Tcheca, onde uma parte das filmagens aconteceram, três ou quatro vezes, para acalmar o astro. Também teve problemas durante as filmagens, quando o set precisou ser transferido pra a Suécia por conta de uma nevasca não prevista.

De acordo com o site IGN, o temperamento do diretor também não era dos melhores, fazendo com que as filmagens parassem três semanas por conta de crises nervosas de Kassovitz. A data de estréia inicial do filme era de 29 de fevereiro de 2008.

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