COMMON PEOPLE
Fábio Lyra faz das referências pop e do retrato cotidiano a principal força de sua obra
Por Paulo Floro

MENINA INFINITO
Fábio Lyra
[Desiderata/Agir, 120 págs, R$ 39,9]

Fazer literatura pop nunca foi algo comum no Brasil. Personas cosmopolitas ficaram são pouco retratadas nas artes, seja no cinema, livros ou quadrinhos. Fábio Lyra trilhou um caminho incomum e se interessou pelo cotidiano simples de pessoas normais, sem super-poderes, grandes dilemas ou tramas importantes.

Dessa maneira nasceu a Menina Infinito, ou melhor Mônica, uma garota nos seus vinte e poucos anos, fã de música alternativa, um pouco acima do peso e um tanto neurótica. A personagem nasceu no extinto fanzine de bolso Mosh – Só Quadrinhos Roquenróu, que circulou entre 2003 e 2006. Com ele, Lyra ganhou prêmio HQ Mix de artista revelação. Agora, a Desiderata lança um álbum de histórias inéditas de Mônica e suas aventuras emocionais.

O autor preenche seu texto com diversas referências e citações cujo intuito, mais do que servir de suporte às histórias provoca forte forte identificação com o leitor. Lyra radiografa uma geração que faz coletâneas em CD-R como forma de conquistar alguém, frequenta shows de bandas independentes e mostras de cinema. Este recorte do cotidiano de tantos jovens é muito bem trabalhado, de maneira sutil, verossímel. Esta é a principal força da obra, que não carrega em nenhuma trama elaborada ou mesmo numa narrativa ousada.

Como toda boa literatura pop, o importante é repercutir, e nisto, Menina Infinito, por pouco não exagera. Praticamente todas as páginas existe uma referência ao universo indie, seja numa capa de disco, numa camiseta ou mesmo num pôster na parede. O ápice é o sonho que Mônica tem com Morrissey.

O desenho de Lyra cumpre a função de deixar que os personagens transitem com mais fluidez neste universo quase singelo de tão comum. Extremamente limpo, linhas bem acertadas, a arte peca apenas por algumas falhas de proporcionalidade, mas nada que prejudique o belo resultado visual final.

Como uma sitcon viciante, Menina Infinito pede novas histórias, o que deve acontecer em breve, também pela Desiderata. Afinal, não há como não se apegar a uma garota que vesta a camisa do The Shins, tem Turn On The Bright Lights do Interpol como disco preferido e vive em empregos temporários. Uma vida ordinária que cativa.

NOTA: 8,5

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