O ANGRY INCH ESTÁ DE VOLTA
Misturando trilha sonora impecável e interpretações para lá de impressionantes peça que inspirou o filme Hedwig – Rock, Amor e Traição é remontada na comemoração dos 10 anos de estréia no circuito off-Broadway
Por Eduardo Dias, blogueiro de O Grito!

HEDWIG – ROCK, AMOR E TRAIÇÃO
John Cameron Mitchell
[Hedwig And The Angry Inch, EUA, 2001]

Lançado em fevereiro de 1998, o musical Hedwig and The Angry Inch voltou aos palcos no último dia 21 de agosto em Nova Iorque para comemorar os 10 anos de sua estréia no circuito off-Broadway. Seu grande sucesso nos palcos deu origem a remontagens por todo o mundo e também a um filme lançado em 2001, através do qual o público do Brasil teve chance de conhecer a história de amor e traição contada através do rock da banda The Angry Inch. Não é à toa que o título brasileiro do filme é Hedwig – Rock, Amor e Traição e rodou nas salas alternativas de cinema do país.

O espetáculo recebeu prêmios do circuito off-Broadway de melhor musical: Village Voice Obie Awards e Outer Critics Award. O filme recebeu ainda os prêmios de Melhor Filme no Festival de Berlim (2001), Melhor Direção e Escolha da Audiência no Festival Sundance (2001) e indicação de Melhor Ator para o Globo de Ouro (2002), entre outros.

O filme conta a história de Hansel, filho de militar americano com uma alemã e nascido no mesmo dia em que o Muro de Berlim foi erguido, tem a trajetória de sua vida muito ligada à existência do muro e à existência de um Outro contra quem ele deva lutar. Alguns anos antes da Queda do Muro, Hansel conhece um militar americano chamado carinhosamente de SugarDaddy que é a sua esperança de um futuro diferente, longe da Berlim Oriental e do Comunismo. É nesse momento que ele se transforma em Hedwig e acontece o episódio que marcará a sua vida: uma operação de troca de sexo mal-sucedida deixa uma lembrança, a Polegada Raivosa (Angry Inch).

O pequeno Hansel era fascinado pela cultura americana, àquela altura mais divertida que o rígido sistema comunista de Berlim Oriental. Ele cresceu simultaneamente ao que hoje chamamos de clássicos do rock: dos anos 60 aos 80, o rock esteve presente na sua vida. E nos anos 90 ele se torna um rockstar. Não desses rockstars que conhecemos, mas uma estrela que faça jus às suas origens e à sua personalidade.

A história de Hedwig não é apenas pontuada pelo rock, mas é através dele que ela tem os melhores e piores momentos da sua vida. Depois de muito procurar, acaba encontrando seu melhor parceiro: Tommy Gnosis. É com ele que ela sofrerá a maior das decepções, a traição musical. Tommy rouba suas músicas e vira uma estrela sem dar nenhum crédito a Hedwig. Não é apenas para ter o trabalho reconhecido que Hedwig luta, mas para ter de volta a sua melhor criação e a melhor fase da sua vida.

Hedwig canta a sua vida e as suas músicas em todo o filme e tem uma sensibilidade rock de dar inveja a muito artista “de verdade”. O filme, dirigido por John Cameron Mitchell que interpreta a personagem principal, presta reverência a todos os ícones que formaram Hedwig como artista. Ela é anunciada em uma de suas músicas como a pessoa que mistura Ocidente e Oriente, homem e mulher em um só corpo. No palco, ela é capaz de misturar Farrah Fawcett e David Bowie, Nina Hagen e Iggy Pop em suas performances e figurino. O filme como um todo é uma profusão de referências, especialmente ao glam rock dos anos 70.

Outro ponto alto do filme é a caracterização das épocas. Os anos 60 e 70 em Berlim Oriental são azulados e cinzentos como aqueles anos de regime comunista. Os anos 80 possuem poucas cores e anunciam as mudanças na vida de Hedwig e no mundo. É interessante ver que o filme mantém algumas características da peça como sempre filmar em locais fechados, planos fechados e pouquíssimas cenas em ambientes externos para manter o público próximo das emoções dos personagens. O filme é quase um convite a compartilhar o sofrimento e as alegrias de Hedwig e sua banda. A história de amor e traição é um artifício usado para fazer um belíssimo espetáculo sobre a condição humana e a transitoriedade que é inerente a nossa vida.

A grande qualidade de Hedwig and The Angry Inch é transformar uma história piegas em um espetáculo divertido e cativante. Outro destaque é seu roteiro. A história não é inteiramente contada, não há “resolução” tradicional do conflito. O final em aberto é um ótimo recurso para intensificar a ligação entre público e filme.

A trilha sonora é um capítulo a parte. Impressiona, conquista e apaixona. 14 faixas que são verdadeiras explosão da energia e emoção que move o rock e a juventude que tratam do amor, sofrimento, tristeza, renascimento e preconceito. Dentre as que se destacam estão “Tear Me Down” (número de apresentação de Hedwig e demarcação de território para a fortaleza que é a personagem), “Wig In A Box” (o “nascimento” da Hedwig como a conhecemos), “Midnight Radio” (belíssima canção final) e “The Origin of Love”.

“The Origin Of Love” é uma das performances mais impactantes do filme. Sensível, delicada e carregada de sentimentos. A história do surgimento do amor na humanidade é contada por uma animação como se fosse a “teoria da evolução” do amor e envolve deuses gregos, egípcios e indianos. “The Origin of Love” é uma pequena pérola que constrói um dos momentos mais tocantes do filme

The Origin Of Love
[youtube]http://br.youtube.com/watch?v=kZuT_jf552A[/youtube]

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