INTRIGA INTERNACIONAL
Saudada como uma retomada das boas tramas de investigação, livro se apóia mesmo na personagem Tara Chace
Por Paulo Floro

JOGOS DE PODER
Greg Rucka (texto) e Steve Rolston (arte)
[Devir, R$ 19,50]

O roteiro da série Jogos de Poder, que chegou semana passada às livrarias brasileiras, se insere num novo contexto das histórias de espionagem. Escrita por Greg Rucka, famoso por aqui mais por suas histórias com Super Heróis DC, do que sua veia de romancista, a HQ apresenta um mundo multifacetado onde intrigas e disputas de poder é um campo muito mais perigoso que a frente de batalha. Aqui, abandona-se o maniqueísmo da narrativa clássica das séries de investigação para apresentar um mundo onde é difícil definir quem são os inimigos.

Rucka escreveu a série em 2001 para a editora Oni Press, e acabou ganhando o Eisner Awards de melhor nova série. A premissa básica deste primeiro volume, Operação Terreno Partido relacionava o conflito na Bósnia e a ação da máfia russa no tráfico de armas e drogas. Também discute a influência dos organismos internacionais como a CIA e a SIS, o serviço secreto de inteligência inglês nos bastidores políticos. Mas, o maior trunfo dos autores é mesmo a sua principal personagem, Tara Chace. Ela tem carisma para prender a atenção do leitor ao desenrolar da trama, ainda que seja o cúmulo da antipatia e represente a indefectível fleuma britânica que não pode faltar em histórias de espionagem.

É Tara que dá o gatilho para a trama deste volume. Depois de assassinar um chefão da máfia russa em pleno conflito na Bósnia e escapar com vida, mesmo que desarmada, ela tem sua cabeça à prêmio e tem que lidar com altos escalões da inteligência inglesa que a querem como isca para prender russos infliltrados em solo brirânico. Pra completar, um foguete é lançado na sede do Divisão Especial do Ministério da Inteligência britânico, em Londres, como retaliação, matando três pessoas. Chace é uma dos Guardiões, espécie de agente especial comandada pelo truculento Paul Croker e se torna o fio condutor numa narrativa intricada, cheia de detalhes.

Jogos de Poder ganhou o apreço de ninguém menos que Warren Ellis, que num empolgado prefácio relacionou a série ao bom momento que os quadrinhos ingleses vivem. Ellis também fez um contraponto ao roteiro investigativo e a atual produção da TV inglesa. Mas esse saudosismo das boas histórias de espionagem da produção televisiva britânica é pouco para resumir o livro, ainda que o elogio seja pertinente. Assim como outra bem sucedida obra de Rucka, Whiteout – também lançada pela Devir – Jogos de Poder terá em breve adaptação para o cinema.

Este apelo se deve em parte ao desenhista Steve Rolston, aqui em seu primeiro trabalho profissional. Além da narrativa de Rucka ser bem trabalhada, com várias nuances e boa construção dos personagens, é Rolston que, abrindo mão de ousar na linguagem dos quadrinhos, fez as páginas como um storyboard. Discutível se essa técnica é interessante, mas o que importa é que funcionou bem.

O livro traz artes de abertura de Tim Sale, além de uma história curta de Stan Sakai, autor de Usagi Yojimbo. Torcer para a série fazer sucesso sem precisar se apoiar num futuro lançamento nos cinemas.

NOTA: 7,5

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