Minimalista e com um poder brilhante de síntese, o quadrinista escocês traz ainda metáforas para o mundo atual

HQ , de , recria conto bíblico para falar do absurdo da guerra
NOTA9

A versão do quadrinista Tom Gauld para a história bíblica de Golias ganha tons melancólicos em uma história que é um libelo anti-violência, uma denúncia dos absurdos da guerra, mas também uma parábola para questões do mundo moderno. O livro ganhou edição no Brasil pela Todavia e tem a trama conduzida pela brilhante narrativa minimalista que fez a fama do autor.

Demonstrando a vitória da inteligência contra a força bruta, Golias de Gate é um soldado gigante que prefere as tarefas administrativas ao campo de batalha. Ele, no entanto, se vê parte de uma estratégia de um colega, que sugere ao rei dos filisteus enviá-lo para uma luta contra os israelitas. Montado com armadura, lança e escudo ele segue com seu escudeiro para enfrentar os inimigos.

O plano é usar seu tamanho para intimidar os inimigos. Ao chegar no campo de batalha, Golias brada: “Desafio-vos: escolhei um homem que venha até mim e lutemos. Se ele for capaz de me ferir, então seremos vossos servos. Mas seu eu o ferir, então vós deveis ser nossos servos”. Burocrata e pacífico, Golias torce para que o combate nunca venha às vias de fato, porém em nenhum momento ele se insurge contra as ordens que lhe são dadas. A bravata não funciona, mas ele continua repetidamente a repetir a mesma mensagem.

Com um traço bem simples e cores básicas, Tom Gauld traz um tom melancólico, mas também bem-humorado, para essa sua releitura do conto bíblico. A partir desse minimalismo no modo de narrar, o autor escocês convoca uma reflexão bastante profunda ao leitor. As interpretações são variadas, mas o que fica mais evidente é o quanto a guerra é absurda, estúpida. Ela se contrapõe à própria ideia de sociedade, de civilidade.Há também a reflexão sobre a violência do Estado, representado pela ordem do rei dos filisteus. Ainda que Golias inicialmente recuse a ideia de embate e se mostre desconfortável em usar armadura e armas, sua obediência irrestrita o faz ir à luta mesmo contra sua vontade. A ida do gigante solitário ao campo de batalha é também uma metáfora para nossos embates cotidianos, uma luta invisível contra nossa vontade, que desgasta o espírito.

Tom Gauld foi ousado ao recontar o conto bíblico de Davi e Golias a partir do “vilão” tradicional da história. Sua narrativa, apesar de simples, se vale de soluções visuais bastante criativas, que explora elementos intrínsecos à linguagem dos quadrinhos. O modo como consegue um síntese de sentimentos e reflexões com uma economia de texto e imagem é brilhante.

GOLIAS
Tom Gauld
[Todavia, 96 páginas, R$ 54,90 / 2019]
Tradução de Hermano Freitas

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