Mesa de trabalho de Crumb para feitura de Gênesis em foto divulgada pela New Yorker

Gênesis é ponto de virada na obra de Crumb
Do editor da Revista O Grito!

GÊNESIS ILUSTRADO POR ROBERT CRUMB
Robert Crumb (texto e arte)
[Conrad, 216 págs, R$ 49,90]

Muito se discutiu sobre a repercussão do Gênesis ilustrado por Robert Crumb junto à grupos religiosos. Também foi comentado sua exposição na grande imprensa. Relegado a um debate menos importante, o valor que o livro tem para os quadrinhos e como os fãs do autor reagiram ao seu lançamento merece atenção. Com lançamento da Conrad Editora, não deve nada a outras obras publicadas no Brasil pela mesma editora, como Minha Vida, Mr. Natural e Mr. Natural. Edição primorosa, bons extras, fidelidade à versão original. O que se discute mesmo é onde cabe o livro dentro da bibliografia do autor, ícone das HQ’s underground.

Pode se dizer que este não é o melhor trabalho de Crumb, mas, apesar de discordar com argumento tão taxativo, esta é sem dúvida sua obra mais importante. Aos 66 anos, depois de uma longa carreira dedicada a levar os quadrinhos a um patamar mais corajoso e sem amarras de mercado, Crumb descobriu que ainda pode se manter na vanguarda do pensamento no que diz respeito às convenções. Com o Gênesis, ele subverteu mais uma vez o sistema do qual não faz mais parte. Ilustrando fielmente um texto sagrado para judeus e cristãos, ele mostrou uma faceta primitiva e assustadora da Criação e de Deus. Por mais que ele tenha o entendimento que aquelas passagens não passam de fábulas e de um retrato do pensamento humano milênios atrás, seu livro causou polêmica entre os religioso, que seguem o texto fielmente.

Como não seria mais possível retomar o estilo que o consagrou em pleno século 21, Crumb agora se dedica a estudar a aventura humana, com um olhar sociólogico. Gênesis é um trabalho monumental, fiel e belo de um dos livros mais importantes da cultura ocidental. Mas o falatório em seu entorno é ainda mais curioso. Para quem acompanha o trabalho recente do autor, pode se perceber um Crumb cínico com as inovações comportamentais e tecnológicas. Suas HQ’s, feitas em parceria com a mulher Aline Kominsky sobre sua vida na França são exemplos de um humor ácido, vindos de um autor que levou às últimas consequências as experiências com drogas nos quadrinhos, durante os anos 1960. No Brasil, essas histórias são publicadas pela revista piauí, que as compra da New Yorker.

Para os fãs do autor, dois motivos para não ler Gênesis. Um é o estilo mais sóbrio adotado por Crumb, em comparação a seus outros trabalhos. Outro é o texto carregado e literal, exatamente como está no original. Fruto de extensa pesquisa iconográfica, o livro tem muitos detalhes e referências, talvez por isso o desenho careça de viagens experimentais com em obras anteriores. No entanto, as mulheres são retratadas sempre corpulentas, característica marcante em Crumb, sem falar nas expressões faciais. Destaque para as conversas entre Deus e Nóe, quando este descobre que toda a vida na Terra será destruída.

O Deus de Crumb foi retratado por ele após um sonho, em que ele aparecia com a barba crespa e longa, mas no final acabou se assemelhando ao seu pai. É um personagem marcante, e ao final das páginas, a empatia com ele é grande, sobretudo porque se percebe as intenções patriarcais de seu intuito, como uma aventura. Gênesis é uma das obras mais importantes dos quadrinhos deste século que começa e é o exemplar de um autor que começa esses novos tempos em busca de novas diretrizes para sua arte. [Paulo Floro]

NOTA: 9,0

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