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CABEÇAS ROLANDO… NO FIO DA ESPADA
Michonne, de Walking Dead, é ótimo exemplo de personagem feminina nos quadrinhos

Por Dandara Palankof
Colunista da Revista O Grito!

A essa altura do campeonato, você provavelmente já leu The Walking Dead – ou Os Mortos-Vivos, como a HQM Editora traduziu o título no Brasil. E deve ter se deparado com um elenco bastante interessante de personagens femininas. Gostaria de destacar algumas delas neste espaço. Pra começar, um pouco sobre a maior badass que os quadrinhos contemporâneos viram surgir nos últimos tempos: Michonne.

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Se você leu pelo menos até o quarto volume do que a editora brasileña vem publicando até aqui, ou se acompanha a série através das edições gringas, com certeza deve ter virado fã de Michonne. Com crescente destaque ao longo da série, a espadachim se tornou uma das personagens de maior longevidade do gibi, o que é algo raro no universo de um apocalipse zumbi.

Acredito que Michonne tenha ganhado tanto destaque por dois elementos que, bem trabalhados, são bastante efetivos em capturar a atenção do leitor: exotismo e mistério. O primeiro fica por conta da arma que a personagem carrega para defender-se dos mortos-vivos e de sua habilidade em manejá-la: uma katana (a espada japonesa é uma espécie de “fetiche nerd” entre os apreciadores de cultura pop, inundada de referências da cultura nipônica principalmente a partir dos anos 1980). Em um universo de zumbis, em que as cabeças das criaturas geralmente são esmagadas ou explodidas a tiros, causa um efeito plástico interessante vê-las sendo decepadas ou perfuradas com a elegância de quem sabe manejá-la.

Já o segundo é o mistério. Michonne aparece na porta da prisão em que os personagens estão instalados completamente sozinha, acompanhada de dois mortos-vivos presos a correntes, com braços e mandíbulas decepadas – tornando-os inofensivos e afastando outros zumbis, que não atacam seus semelhantes. Ao salvar Otis, vizinho da fazenda de Hershel, do ataque de um grupo de errantes, a espadachim não apenas causa grande impressão como, logo de cara, ganha um lugar na comunidade.

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Durante certo tempo, grande parte do passado de Michonne permanece envolto em mistério, sem que os outros personagens saibam muitos detalhes a seu respeito ou como conseguiu sobreviver tanto tempo sozinha em meio ao apocalipse. Isso causa a seus novos companheiros uma mistura de admiração e desconfiança. As impressões passam a divergir ainda mais quando o terceiro fator de destaque de sua constituição se mostra com mais clareza: a difícil personalidade de Michonne.

Na TV, Michonne é a Loba Solitária: poucas vezes fala e, quando o faz, articula comentários pontuais. Seriado também esqueceu a expressão de sua sexualidade, presente na HQ

Sua chegada na prisão, além dos fatores já citados, causa também confusão. Michonne parece ter o estranho hábito de falar sozinha – mas negar veementemente quando confrontada com o mesmo. A dúvida sobre sua sanidade mental acaba por aumentar ainda mais a aura de mistério em torno dela – não apenas para os outros personagens, mas principalmente para o leitor. Michonne prova ao longo do tempo ser fundamental em um combate, seja contra zumbis ou humanos. Mas as suspeitas de sua instabilidade mental, condição já presente em outros personagens e que provou em outras ocasiões ser bastante perigosa, fazem com que as suspeitas sobre ela perdurem durante um bom tempo. Sua atitude muitas vezes intempestiva, em rompantes de sinceridade muitas vezes inoportuna, também muitas vezes contou pontos contra ela mesma – bem como o triângulo amoroso no qual ela “forçou” sua entrada, envolvendo Tyreese e Carol.

Ainda assim, com suas constantes provas de lealdade ao grupo, bem como sua disposição infindável e talento nato para o combate, foram a passos largos tornando Michonne uma valorosa integrante do grupo e uma personagem bastante querida dos leitores. Logo, sua presença no seriado não apenas era previsível como bastante esperada pelos fãs da HQ. Infelizmente, sua versão televisiva tem a personalidade levemente distinta com relação à original: a expressão de sua sexualidade é totalmente obliterada no seriado – bem como seu pequeno indício de que as coisas podem não ir muito bem em sua mortal cabecinha.

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Na TV, Michonne é a Loba Solitária: poucas vezes fala e, quando o faz, articula comentários pontuais, por vezes até irônicos, principalmente em situações de tensão. Sua expressão facial é quase sempre dura. É fiel aos seus instintos e também ao grupo no qual está lutando ao lado, por representarem valores aos quais ela acredita serem verdadeiros. Tal inspiração pode vir não somente da referência direta representada pela arma que carrega – os samurais, mais especificamente os sem mestre, chamados “ronin”, mas também dos filmes de faroeste norte-americanos, que frequentemente apresentavam protagonistas com essas características.

Acredito que ela saia um pouco enfraquecida no contexto geral; apesar disso, os produtores deram um jeito de compensar tudo isso – inclusive a suavizada em sua “relação” com o Governador – fazendo com que ela seja o pivô do clímax que se avizinha para esta terceira temporada.

Michonne entra, portanto, para os anais das histórias em quadrinhos enquanto exemplo de personagem feminina. Se em certos níveis ela funciona enquanto fetiche, isso se dá por suas habilidades e não pelo ideário feminino objetificado que tantas vezes vemos nos quadrinhos norte-americanos. Sua construção é totalmente humanizada: a força e a independência se mesclam às suas necessidades não só enquanto mulher, mas também enquanto ser humano. Suas posturas podem ser corretas ou equivocadas – como qualquer uma de nós. E ajuda a fazer de The Walking Dead uma HQ no qual as meninas podem se espelhar.

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* Dandara Palankof é a iden­ti­dade secreta da Garota Sequencial. Diz que sua rela­ção com qua­dri­nhos é des­tino, já que apren­deu a ler com um gibi do Cebolinha. Nerd orgu­lhosa, mar­vete e edi­tora do gibi Estranhos no Paraíso, publi­cado no Brasil pela HQM Editora.

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