Foto: Divulgação.

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, O NOME DO RUOCK
Músico pernambucano lança Aquele Disco Massa onde junta filosofia, experimentalismo, metrópole, noise e diversão

Se tem um músico que reflete em seu som o caos que é hoje, essa pessoa é Graxa. O projeto musical de Angelo Souza deglute todo o inconformismo, instiga, revolta, mas também novas experiências, coletivismos, ativismo, sexo, diversão e devolve tudo em forma de um som que é impossível de se enquadrar. Noise rock, neo-psicodelia, progressivo, tudo cabe e não cabe em Graxa. Por isso, o próprio se auto-intitula “ruock”. O neologismo ajuda a entender esse músico que é um dos mais importantes na geração atual da cena independente pernambucana.

O novo disco Aquele Disco Massa chega depois da boa repercussão que teve com Molho, que saiu de forma independente há dois anos. Esse novo trabalho – que também terá edição física – está disponível em plataformas de streaming, como o Deezer. Se no anterior, a perspectiva era mais pessoal, neste o músico decidiu fazer algo “de dentro para fora”. “N’Aquele Disco Massa o foco é mais externo. Não é um disco conceitual, é temático, e o tema é consumo musical e tudo que envolve isso”, diz Graxa.

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Na pequena entrevista abaixo, Graxa fala como ele vê o atual momento da cena indie pernambucana, o processo de gravação deste novo álbum e, ao final, comenta as faixas do seu novo trabalho.

Seu nome é bastante citado entre os novos artistas da cena independente atual do Recife. Como avalia esse momento da música feita na cidade?
Uma coisa massa que aconteceu na cidade de Recife, nesse começo de ano, foi o surgimento de novos espaços para a existência do músico, além do espaço virtual, saca? Acho fundamental a existências desses pequenos núcleos para apresentações culturais, como um show de rock, uma performance, uma instalação, exposições e tudo o mais. Pra mim tem que aparecer mais desses pequenos núcleos e tem que rolar políticas culturais de apoio a isso. Um espaço que fornece espaço a um músico tem que ter algum tipo de apoio da prefeitura ou do estado. E essas empresas de bebida também tem que apoiar.

Em mega festas da cidade essas empresas investem pesado, então tem que fazer o mesmo com as casas que dão espaço a alguém que quer se apresentar. Se elas fazem isso, me digam, pois eu preciso saber. Isso tem que acontecer. Isso deveria ser obrigado a acontecer, esses apoios. O mantenimento desses espaços é muito difícil. Dependendo, envolve muita gente trabalhando; e envolve muitas taxas, saca? Isso tem que ser organizado. Então, é isso. Eu acho muito massa o surgimento de novos espaços na cidade; mas manter é difícil, sendo que a turma é guerrilha total, da mesma forma que somos com a música. Aí a galera se junta e faz a coisa rolar. Esses eventos tem que rolar assiduamente para reeducar a população a pagar pelo que está consumindo. Tem que rolar show todo dia! Tem que ter circulação. Isso é que move tudo.

Foto: Divulgação.

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Como foi seu início? Qual a primeira lembrança que você tem de querer trabalhar como músico?
A galera se reunia nos fins de semana, às vezes no meio da semana também, pra beber e tocar o ruock. E aí a gente ensaiava e ficava atrás de pico pra tocar. E isso foi durante anos e anos, tipo, mais de dez anos, nessa onda de rock. Essa questão de trabalhar com música veio com amadurecimento e tal, e também porque, querendo ou não, quando eu falo desse começo meu, parecendo meio que desleixado, havia um esforço, um trabalho, e ainda o é. Sendo que a visão hoje é diferente da que eu tinha antes, entende?

Como foi o processo de gravação de Aquele Disco Massa? O que mudou no seu jeito de compor e gravar desde Molho?
No Molho as bateras foram feitas com programações de bateria em um programa chamado Addctive Drums. Eu gravei na casa do meu amigo Domingos. Gravamos tudo lá. Nesse segundo eu não quis fazer programações de bateria, queria o lance mais orgânico, percebe? E aí a gente foi no estúdio Engenho do Som, lá em Jaboatão. Gravamos a bateria, vibe ao vivo, e depois fiz os overs na casa do baixista, alguns na minha casa também, e teve o pessoal que gravou cada um em sua respectiva cidade.
E aí foi assim. O ponto de vista do Molho é mais voltado pra mim, de dentro da fora. N’Aquele Disco Massa o foco é mais externo. Não é um disco conceitual, é temático, e o tema é consumo musical e tudo que envolve isso, saca?

Suas músicas fazem uma mistura nada óbvia de gêneros como brega, rock psicodélico, MPB, etc. Consegue definir seu estilo?
Não. Não tenho como definir exatamente o que seria. É um monte de estilos misturados. É multicultural. Eu gosto de dizer ruock. talvez seja o ruock. Mas eu acredito também que seja como a cidade do Recife: Multicultural.

Planos de shows ou turnê desse novo disco?
Fiz uma sequência legal de shows assim que lancei o disco. Vou voltar a fazer show dia 9, aqui em Recife, e dia 18, lá em Natal. Vou ver se consigo arranjar mais datas, pelo fato de estar por lá, e vou ver se consigo mais lugares do Nordeste, saca? pegar um carro, colocar os instrumentos dentro, e sair com a banda pra onde a gente conseguir arranjar shows. Meu sonho total é tocar no FIG. Desde o Molho eu mando material pra lá, mas não rolou. Esse ano, com a repercussão do disco massa, creio que exita uma possibilidade legal de que eu toque. Eu quero muito tocar no FIG e quero tocar em tudo que é canto. Se fosse possível, todo final de semana.

Ouça Aquele Disco Massa.

E aqui, o Faixa a Faixa, por Graxa.

01. I.N.T.R.O
Essa é instrumental. um riff da pesada. funkeado e agito. O fuzz comendo solto, o fuzz que é o melhor pedal de todos.

02. Marcho com as vadias.
Marcho com as vadias foi inspirada em Beauvoir, no livro: O Segundo Sexo. É um alerta pra geral que às vezes pensa que está defendendo o oprimido, mas sem perceber, está defendendo o discurso do opressor, saca? É um alô pra que a geral não segregue uns aos outros.

03. Pesquisa institucional de mercado.
Essa música fala sobre a relação entre comunicação e música. Sobre o fato de que como essas dua profissões estão interligadas em suas ações. Se num tem espaço pra tocar, fazer as coisas acontecerem, se juntem, e façam. Se a maioria dos grandes veículos é só a crocodilagem, ora, se juntem e façam um canal de informação.

04. Não alimente os animais
Essa música é simbólica. Eu fiz ela influenciado no livro O Homem e seus Símbolos, de Jung. Rochedo demais esse livro. Indico total. Se você sacar a letra vai ver que ela é toda trabalhada em sinais, desde a locação até as características dos personagens. É um canção de amor, saca? Gosto muito dela.

05. Gengibre
“Gengibre” é uma das que eu mais gosto também… na verdade eu gosto do disco todo. O disco todo é massa. :) Então, gengibre fala de cenas musicais, de esforços como músico e de um monte de coisas envolvidas na música. O Gengibre toma o papel da solução dos problemas. A solução de tudo está na medicina natural, saca? O amuleto do sucesso.

06. Eu acredito há muito tempo.
Essa música é antiga. Recentemente eu achei um CD meu com sons que eu gravei num celular, um Sony Ericsson W200. Um dos celulares mais legais do mundo. A Intro também é antiga. Rama me diz que essa música tem uma vibe bem Tim Maia. Acho que ele tá certo. É nesse estilo música black, agito e dançante, que é um dos focos do disco.

07. Aquele disco massa
Faixa título. Remete a todos os grandes álbuns que eu gosto e que me ajudam nas ideias de composição – junto com a literatura e as coisas da rua, do dia a dia, de onde eu vivo.

08. Eu não Kiss
Essa é um ruock, estilo T-Rex. É um rock que crítica a turma que só fica preso a um tipo de som, como o ruock, ou qualquer outro. recentemente a gente tocou no Ed Texas e aí chegou um cara com uma cuíca e fez um solo destruidor e da pesada na música gengibre. O cara tinha acabado de sair de um show de samba, entrou no meio do show e solou fera por demais. É disso que a gente precisa, misturar isso tudo e não ficar só amarrado a um tipo de som.

09. Soul Socialista.
Essa daí a letra fala por si só do que se trata. É uma canção que fala da forma de política aplicado na nossa cidade. Tudo que tá na letra foi apresentando nos jornais e basta você andar pra cidade que você vê que tudo que está na letra está na cidade.

10. Usando o nome do senhor
Essa daí é sobre esses fuleiragens desses pastores alma de gato. Não são todos, mas tem uma tulha desses fuleiros que usam o nome de deus pra arrancar grana da galera, saca? Duma galera que “apronta” a vida toda e no fim vira religioso e fica tudo bem.

11. Só me restam os gemidos
Essa fala sobre coletividade de se fazer as coisas e o quanto que isso gera desconforto naqueles que não estão ou se sentem incluídos nesse meio. Fala sobre panelas e coisas do tipo. Cada um tem que fazer a sua panela, né? num foi isso que alguém disse? então, mas isso faz com que os que estão fora delas fiquem chateados, ou fazem com que outras pessoas que poderiam colaborar se afastem pra não dá “moral” a quem está organizando as coisas. É esse o motivo que as portas não se abrem um para os outros. A turma crê mesmo que o alheio está as mil maravilhas, mas todo mundo sabe que não tá.

12. Flower pop na cabeça da pomba
Essa é um noise rock da pesada que eu tive a honra de que Grilo gravasse umas guitarras comigo. Só detonação. Essa música fala do lance da galera dizer que eu faço som psicodélico, mas não é. A alucinação que possa ter algumas músicas minha só pode ser fruto de delirium tremens, por isso que o LSD dissolve na cachaça!

Graxa no lançamento do disco no Texas Café. (Divulgação).

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