ROMEU E JULIETA DA FAVELA
Diretor de 2 Filhos de Francisco retoma tema da realidade social nos morros cariocas, mas no fundo só quer entreter seu público
Por Raphaella Spencer

ERA UMA VEZ…
Breno Silveira
[Era Uma Vez…, Brasil, 2008]

O diretor Breno Silveira, que com Dois Filhos de Francisco obteve uma das cinco maiores bilheterias desde a retomada do cinema brasileiro, volta às telas com seu segundo filme Era uma Vez. O filme adaptou a história de Romeu e Julieta para a desigual realidade da capital carioca. De um lado temos Dé (Thiago Martins) morador do Morro do Cantagalo. Ele vende cachorro quente num quiosque de frente para o apartamento de Nina (Vitória Frate), na beira mar de Ipanema.

O que pode parecer uma história aparentemente clichê ganha nuances mais interessantes quando se sabe um pouco dos bastidores das reviravoltas que levaram até a concretização do filme. Segundo o próprio diretor, a idéia de fazer um filme que explorasse o universo das favelas cariocas é antiga. Tudo começou em 1987, quando ele era diretor de fotografia de Santa Marta – Duas Semanas no Morro, filme de Eduardo Coutinho. Nessa época, Breno Silveira teve acesso à obra Cidade de Deus, de Paulo Lins, e, interessado em comprar os direitos, esbarrou num pequeno impecilho. O livro já tinha sido barganhado por Fernando Meirelles, que de fato o filmou em 2003.

Talvez esse passado que levou o diretor a adiar o projeto de falar sobre a realidade da favela e abraçar primeiro a biografia da dupla sertaneja, explique um pouco a conjuntura em que o filme está sendo lançado. Hoje, qualquer espectador fiel ao cinema nacional tem em sua memória recente filmes que abordam a mesma realidade e versam quase sobre os mesmos dilemas, ainda mais depois de toda a polêmica que girou em torno de Tropa de Elite, filme de Zé Padilha.

Toda essa nova bagagem cinematográfica do espectador médio nacional vai acabar influenciando um pouco a forma de ver o novo filme de Breno Silveira, Era uma Vez, traz os mesmos temas, a mesma qualidade técnica garantida com um orçamento generoso para a media das produções nacionais, um elenco forte, consistente sem muitas caricaturas do que é o rico ou o pobre, o mauricinho ou o traficante, todos muito bem colocados em seus papéis. Tem também uma trilha sonora maravilhosa com participações como a de Marisa Monte e Luis Melodia, tudo impecável, mas infelizmente chegou depois. E veio para um público que vem recebendo, em doses homeopáticas, referências fortes de conscientização sobre a realidade desigual em que vive o país. E essa conjuntura na qual a obra está sendo lançada vai enfraquecer um pouco a repercussão do filme.


Sucesso: Ator Thiago Martins guarda várias coincidências com seu personagem

No mais, vale a pena assistir a um verdadeiro filme de amor nacional; não um filme culto, para intelectuais, mas sim uma obra pop, com um ritmo bem parecido com filmões americanos, cheio de reviravoltas, com muitos momentos de tensão provocados pelas previsíveis adversidades que a união entre dois mundos tão diferentes podem provocar. No final o filme há um epílogo com cara de solução, quando o ator Thiago Martins, protagonista do filme e que guarda algumas coincidências com seu personagem, pois cresceu na favela do Vidigal e graças ao trabalho do grupo de teatro Nós do Morro descobriu a vocação para atuar, dá um depoimento otimista e explica as motivações que o levaram a continuar fazendo testes para ganhar o personagem, mesmo depois do quinto “não”. No filme esse depoimento se opõe ao fatalismo com o qual as coisas são tratadas durante toda a história.

A idéia de colocar o relato de vitória do protagonista surgiu depois de uma primeira versão do filme já finalizada ter sido recebida com desconfiança por uma pequena audiência numa exibição teste, que achou o filme com uma mensagem “muito negativa”. Triste ou não, a história de Era uma Vez é tudo, menos realista, pois foi idealizada com a intenção de emocionar seu público, e para isso lançou mão de um roteiro dramático, mas eficaz e com certeza envolvente para o público que for ao cinema.

NOTA: 7,0

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