Vitor Araújo sai da adolescência, mas conserva ousadia em novo disco
A/B é “melancólico” e “raivoso”, nas palavras do músico

Por Fernando de Albuquerque e Paulo Floro
Da Revista O Grito!

Vitor Araújo chamou atenção da imprensa e de fãs de música clássica quando surgiu no Teatro de Santa Isabel, pisando com seu All-Star sobre o piano. Mais ainda: naquele dia, ele tocou uma versão de “Paranoid Android”, do OK Computer, disco clássico do Radiohead.

O artista conseguiu o feito de chacoalhar a cena em que estava inserido de maneira provocativa. Cumpriu o papel que todo artista contemporâneo cumprir: interação – mas, também confronto – com o passado. Neste seu novo trabalho, o primeiro em estúdio, Vitor está mais exposto. A/B é um álbum que fala de sentimentos, de maneira muito explícita.

O disco será lançado no Recife durante o festival No Ar Coquetel Molotov, que começa esta sexta (21), no Teatro da UFPE. Em entrevista para a Revista O Grito!, Vitor falou sobre mudanças, seu primeiro trabalho em estúdio e como a fama de garoto rebelde ajudou em sua carreira.

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Você apareceu no cenário pop como um menino que usava All-Star e tocou Radiohead numa apresentação de música clássica no Salão Nobre do Santa Isabel. Essa imagem “rebelde” fez bem a você?
É complicado tentar fazer um juízo de valor para mensurar se a imagem de rebelde me fez bem ou mal. Ela pode ter me ajudado a chegar em alguns lugares, e ter fechado as portas de outros. Mas, como eu senti pouquíssimas portas fechadas pra mim desde que eu lancei o TOC, acredito que essa imagem não me foi nociva. Consegui transitar por um meio artístico respeitabilíssimo, e estar em contato com grandes mestres da música brasileira, como Caetano, Naná, João Donato.

E, a princípio, essa seria a grande dificuldade pra um artista com o rótulo, ou o carimbo de “adolescente rebelde”: chegar a um meio artístico de caráter mais adulto, mais maduro. Então, não vejo problema nessa redução do meu trabalho à expressão “rebeldia”. Talvez porque, seja realmente um resumo não fora da realidade do primeiro disco: ele, de fato, é um disco de um recém-saído da adolescência, com sede de iconoclastia a qualquer custo, com vontade de pisar no piano, com mais desejo de ser um Kurt Cobain do que um Nelson Freire.

Essa imagem me fez penetrar em circuitos onde um pianista erudito geralmente não passeia: o mundo pop. E, ao mesmo tempo, não me atrapalhou no intuito de desbravar vertentes mais complexas do mundo artístico, e evoluir muito com esse processo de desvendá-las. Portanto, não posso dizer que “me fez bem”, pois toda redução de um trabalho a uma embalagem superficial é sempre indesejada. Mas, também não posso dizer que é uma imagem errada (pois ela certamente condiz com meu momento em 2008 com 18 anos de idade), e não vejo onde ela possa ter me atrapalhado.

Quais são as principais mudanças neste seu novo trabalho?
Primeiro, ser um disco de estúdio, e não um ao vivo como o primeiro. Segundo, o disco ser quase todo de minha autoria. No TOC, eram 11 faixas, das quais apenas 2 eram composições próprias. No A/B, são 8 faixas, das quais 6 são minhas. Terceiro, nos três anos que se passaram, entre 2008, quando lancei, e 2011, quando gravei o A/B, eu toquei e troquei ideias com uma diversidade muito grande de músicos e artistas que chacoalharam bastante minhas idéias. Li vários autores que nunca tinha lido, assisti filmes de vários diretores que nunca tinha visto, ouvi vários discos que nunca tinha ouvido. E é impossível passar incólume a um trabalho junto de José Celso Martinez no Teatro Oficina, a dividir um palco com o Macaco Bong, a assistir um David Lynch, a ler um Kafka, a ouvir um Tom Waits. As coisas simplesmente mudam dentro da cabeça.

Essa imagem [de rebelde] me fez penetrar em circuitos onde um pianista erudito geralmente não passeia: o mundo pop

Como surgiu a inspiração para o disco? Pode nos falar como foi o processo de composição?
Surgiram as músi­cas “Solidão n.1”, 2, 3 e 4, e o “Baião”. O tema solidão, por algum motivo, bateu muito forte dentro de mim. Por uma mania minha de gostar de criar personagens na minha cabeça, comecei a desenhar um cara hiper solitário. Só que, ao contrário de todos os personagens que eu vivo criando na mente, esse cara específico me deu muita vontade de dar vida. Tive então a ideia de dar vida a ele nos meus concertos ao vivo. Chamei os cine­as­tas Lírio Ferreira e Hilton Lacerda para, res­pec­ti­va­mente, diri­gir e escre­ver um con­certo de piano comigo, e fazer das minhas apresentações ao vivo uma expe­ri­ên­cia além da musi­cal.

Fizemos uma tem­po­rada de 2 meses desse con­certo, que cha­ma­mos de Angústia, em São Paulo. No pro­cesso de criá-lo, eu fiquei algum tempo só lendo e vendo fil­mes com per­so­na­gens extre­ma­mente sós a ponto de enlou­que­cer: desde o Raskolnikov, do Crime e Castigo de Dostoiévski, ao Roquintin, do A Náusea de Sartre, até fil­mes como Morangos Silvestres, de Bergman, ou Melancolia, de Lars Von Trier. Desse labo­ra­tó­rio, e do desen­vol­vi­mento do “Angústia”, sur­giu a minha von­tade de fazer um CD, explo­rando os dois lados do sen­ti­mento: um melan­có­lico, gélido (Lado A), e um rai­voso, iras­cí­vel (Lado B). Daí nasceu o A/B.

Você recebeu boas críticas em sua passagem pelo cinema. Pensa em se dedicar mais à atuação?
Sendo chamado pra trabalhos como o de Cláudio [Assis, diretor de Febre do Rato e Baixio das Bestas], sempre toparei. Algo que seja enriquecedor, que me dê substância, que entorte minha cabeça, sempre vai me dar vontade de fazer. Não necessariamente atuando. Não tenho a menor pretensão de me “dedicar” à atuação. Mas sempre que um artista foda me chamar pra fazer uma coisa foda, eu vou topar.

Este é o primeiro disco de estúdio de Vitor Araújo (Foto: Tiago Calazans)

Como foi trabalhar com Claudio Assis, em Febre do Rato? Pareceu um trabalho de muita entrega, mas ao mesmo tempo, muito tranquilo.
O Febre é muitíssimo mais leve do que os outros filmes de Cláudio. Não tem aquele peso da ruindade dos personagens. O meu núcleo mesmo, é maravilhoso: 4 amigos que vivem juntos, fumando maconha e transando, despreocupados com tudo. O auge da anarquia. Foi muito, muito prazeroso fazer esse filme. Cláudio consegue injetar um amor muito forte pelo filme, pelo cinema, em todo mundo que trabalha com ele. É impressionante. Foi muito importante pra mim a experiência de trabalhar com ele.

Você fez sua grande estreia em um teatro tradicional da cidade e agora lança novo disco no Festival No Ar Coquetel Molotov. Recife ainda é um local bom para catapultar novidades?
Não sei se Recife é um bom local pra catapultar novidades. Pra mim, é uma dúvida supérflua, não ocupa meu pensamento. Sei que Recife continua sendo um dos maiores centros musicais do mundo, e agradeço muito ao acaso por ter nascido aqui. Amo Recife, amo a música pernambucana, e sempre que puder, quero lançar meus trabalhos em casa. Pra mim, vai ser uma alegria lançar no Coquetel Molotov, pois é um festival que acompanho a muito tempo como público, acho que tem a cara do A/B, e sempre me deixa muito feliz conseguir inserir um concerto de piano em locais onde, naturalmente, um concerto de piano não estaria presente.

O disco tem nomes da nova cena, como Macaco Bong e medalhões locais como Naná Vasconcelos. Como foi o processo de escolha?
Que­ria o Lado B o mais desconectado com a realidade que eu conseguisse. Mas não podia ser simplesmente gratuito. Pensei em quatro músicas que se conectassem de alguma forma uma com a outra, mas que rolasse a par­ti­ci­pa­ção de um artista diferente a cada música, o que faria com que sur­gisse sem­pre uma nova infor­ma­ção a cada faixa e que o B fosse gra­da­ti­va­mente se sujando. Começo com o ”Baião”, uma peça pra piano de minha auto­ria, que no final tem uma inter­fe­rên­cia de sam­plers pro­gra­ma­dos por Yuri Queiroga.

Na faixa seguinte, entra Naná Vasconcelos, inter­pre­tando comigo a peça “Jongo”, de Lorenzo Fernandez. Ter Naná no meu disco é, tal­vez, a maior honra que já tive em minha car­reira. Trabalhar ao seu lado, rein­ter­pre­tar uma música eru­dita com o cará­ter ances­tral que ele traz nas per­cus­sões, foi real­mente um grande pre­sente e um grande apren­di­zado. O B segue com a participação do Rivotrill inter­pre­tando comigo “Veloce”, de Claude Bolling. E, pra fechar, vem o peso do Macaco Bong tocando ao meu lado uma música minha: “Pulp”, inspirada num livro de Bukowski e no cinema de Robert Rodriguez.

Falando agora do seu início de carreira, qual a lembrança mais remota de querer trabalhar com música?
Meus pais mudaram de apartamento agora a pouco. No processo de mudança, acabei achando um daqueles livros que a mãe tem pra anotar tudo que rola com o bebê. Cheguei numa página denominada “brinquedos favoritos”. Com 1 ano, tinha escrito “bola”. Com 2 anos, tinha escrito: “piano e bola”. Com 3, tinha escrito: “piano e quadro-negro”. Com 4, piano de novo…

Se for descrever A/B de forma puramente passional, subjetiva, como seria?
Um disco pra animar sua festa, ensolarar suas tardes de domingo, e encher de esperança seu coração. Alegria!

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