DESCOBRINDO QUADRINHOS
Brasil conhece o trabalho de Túlio Caetano, que volta de uma estadia de 10 anos na França onde publicou em selos importantes e até criou uma editora. Mas ele também tem muito o que descobrir das HQs nacionais
Por Paulo Floro

Expatriado após dez anos na França, o quadrinhista brasileiro retorna ao Brasil com o lançamento de seu primeiro álbum nacional, Dr. Bubbles & Tilt 1 – Sideral, que, coincidência ou não, também é o primeiro livro nacional da editora de quadrinhos, Zarabatana. Túlio participou de projetos importantes durante sua estadia no exterior, como a obra coletiva Comix 2000, da editora L’Association, onde seus desenhos preenchem 8 das 2.000 páginas do livro, e HQs no excelente portal francês de imagens e quadrinhos Coconino World.

Antes, em Goiania, sua cidade natal, Túlio escreveu uma monografia sobre as inúmeras possibilidades dos quadrinhos. Era 1998, mesmo ano em que se mudou para a França, para estudar Artes Plásticas na Escola Superior Européia da Imagem, em Angoulême. Hoje, ele redescobre um outro momento da HQ nacional, onde o mercado cresce e se diversifica e novos autores ganham as livrarias brasileiras. “Espero poder me esbaldar dentro em pouco, tirar o atraso”, torce Caetano.

Seu livro Dr. Bubbles & Tilt começou a ser vendido em livrarias de São Paulo e na internet. O Grito! bateu um papo com o autor sobre suas descobertas e o que pretende fazer do futuro.

Agora que seu novo álbum foi publicado no Brasil, é muito recorrente dizer que sua obra tem “cara de quadrinhos europeu”. O que acha disso?
Meu trabalho não tem muita cara de comic norte-americano e muito menos de mangá, então, fazer o que, né? É europeu por eliminação. Acho “quadrinho europeu” largo demais. O quadrinho francês já é extremamente variado, há como se encontrar de tudo ali sem nem lançar mão das publicações underground… então acho que por “quadrinho europeu” querem dizer “quadrinho bizarro” e acho ótimo.

Você tem planos de publicar outros trabalhos seus no Brasil?
Claro! Tenho uma tonelada de projetos. Vou dar um jeito de realizá-los assim que esgotar esse primeiro álbum. Se não esgotar, vou achar que estão de má vontade.

A história do Dr. Bubbles teve alguma inspiração numa experiência pessoal? De onde tirou a idéia do álbum?
Eu ia dizer que não, mas pensando bem, vou ter que confessar que quando criança eu sonhava em ser engenheiro genético e, adolescente, as espinhas se acotovelavam no meu rosto, então… não há realmente nada de novo sob o sol. A idéia eu não saberia dizer de onde veio… Minhas histórias ou começam com um roteiro que aparece quase pronto na minha cabeça e pro qual eu crio um personagem ou, pelo contrário, um personagem que surge e que vai vivendo, gerando outros, estruturando uma história. O Bubbles foi desse último jeito. Quando ele apareceu na ponta do meu lápis já foi me sugerindo histórias. Aí eu trouxe o Tilt, que era um personagem degenerado pra quem eu sempre tinha prometido uma HQ, pra contracenar com ele. O Tilt é bem mais antigo, mas ele só tinha aparecido em ilustrações, e mudou muito pra chegar ao que é no album.

Acho que por “quadrinho europeu” querem dizer “quadrinho bizarro” e acho ótimo

Como surgiu o convite para lançar Dr. Bubbles…? Seu livro é o primeiro material nacional que a Zarabatana lança
Eu conheci o Cláudio, o Sr. Zarabatana, na última FIQ em Belo Horizonte. Eu tinha ido apresentar a biblioteca “Quadrinhos Itinerantes Francofônicos” que tinha chegado há pouco da França (só tinha passado pelo Rio e por Niterói, antes). Conversamos muito sobre quadrinho francês e a minha experiência lá. Acabei mostrando esse projeto pra ele, sem pretensão nenhuma, porque sabia que ele publicava títulos estrangeiros (de alguns dos meus autores favoritos, diga-se de passagem). Não há de ver que ele logo se animou a publicá-la aqui. Surpresa boa assim é raro acontecer.

Antes de ir para a França, o que você produziu aqui de quadrinhos? O que fazia antes de partir para a Europa?
Essa é fácil de responder. Nada. Nunca publiquei quadrinho nenhum, aqui, nem em fanzine, nem em fotocópia distribuída na porta da escola. Minhas HQs eram em exemplar único, desenhadas em cadernos pautados e folhas A4. Eu não fazia pra distribuir porque tinha a nítida impressão que, de qualquer modo, via todo mundo da minha cidade que se interessava por quadrinhos na hora do recreio. Vez ou outra eu ainda encontro alguma coisa da minha infância profunda mas as coisas mais recentes sumiram todas. Lembro até hoje de um calhamaço de umas duzentas páginas de ficção científica completamente insana, pura escrita automática, na qual a idéia era inserir um personagem novo todas as três páginas. Eu emprestei pra um amigo e a mãe jogou no lixo. Vantagens da reprodutibilidade técnica sobre a obra de arte em original único. Antes de ir pra Europa eu trabalhava em ilustração para jornal, e antes disso trabalhei com desenho animado em computador, nos princípios do CD-Rom, e antes disso, ainda, em publicidade, como todo mundo.

O choque cultural foi grande? Como você percebeu o mercado de lá?
Claro, foi grande, sim. O mercado là é gargantuesco. Pra começar, o público é muito mais largo que aqui, todo mundo passou a infância lendo HQ e vários nunca pararam. É difícil encontrar uma casa onde não tenha pelo menos uma meia dúzia de albuns de HQ na estante. Mas por mais que esse público seja largo, ele não é suficiente. Há uma superproliferação de publicações, ninguém consegue acompanhar. Um mercado muito competitivo, muito alto nível, todas as possibilidades são exploradas. Há editoras especializadíssimas. Em HQ preto e branco, em HQ de autobiografia, em HQ de arte… a locomotiva do setor editorial é a HQ, mas claro que as mais vendidas não são necessariamente as mais interessantes… longe disso.

Pode nos contar um resumo de suas experiências assim que chegou à França? O que aconteceu com a La Maison Qui Pue? [Editora que Caetano criou com outros artistas na França]
Um resumo de dez anos? Agora você me apertou sem abraçar… na verdade não sou muito bom pra sintetizar, na verdade minha especialidade é expandir as coisas ad infinitum… mas tenho um projeto de contar todas as minhas co-locações em um album autobiográfico, acho que vai ser a melhor forma de fazer isso que você està pedindo… suspense! A Maison Qui Pue foi gerada em uma dessas co-locações, doeu na carne deixar ela lá e voltar para o Brasil… ela continua existindo, mas o futuro é incerto… Mas obrigações contratuais me impedem de entrar em detalhes.

Sei que desde criança voce se interessa por quadrinhos, mas o que mais te influenciou esteticamente, em todos esses anos?
Hmmm… dificil dizer… eu sei do que gosto, mas não tem necessariamente a ver com a minha maneira de desenhar. Nunca fui daqueles aprendizes laboriosos, sabe, que elegem um mestre e vão se desenvolvendo guiados por ele. Sempre fui autodidata e péssimo copista. Durante a minha juventude, minha principal influência foram os comics americanos e uma ou outra exceção, mas muita coisa aconteceu desde então. Vou fazer uma lista bem heterogênea de minhas influências prováveis, então, porque eu adoro os trabalhos deles, por ordem de chegada, mais ou menos: Barry Windsor-Smith, Frank Miller, John Byrne, Quino, Bill Waterson, Angeli, Laerte, Watson Portela, Moebius, Bilal, Mazzuchelli, Loredano, Trondheim, David B, Killofer, Blain, Geof Darrow, estou certamente esquecendo muita gente, vâo me jogar pedras, depois… mas minhas maiores influências mesmo são os companheiros da Maison Qui Pue, porque houve muita troca, muito diálogo, muito trabalho em grupo. Vale a pena dar uma pesquisada na internet pra ver do que eu estou falando: Yann Taillefer, Gilles Peltier, Mathieu Giraud (Jiro), Thim Kim Thu, Nelly Bal, Thomas Bonin, Clement Baloup, Laureline Matiussi, Remy Catelain, Laurent Bourlaud, Vallie Desnoel… e o site inteiro do Coconino-world, com certeza!

Nunca fui daqueles aprendizes laboriosos que elegem um mestre e vão se desenvolvendo guiados por ele. Sempre fui autodidata e péssimo copista

Você chegou a fazer uma trabalho acadêmico sobre quadrinhos, certo? Sobre o que falava?
Sobre as extraordinárias possibilidades do midia historia em quadrinhos. Era 1995, então você imagina bem como tudo isso parece bem óbvio, agora. Havia muito pouca publicação sobre o assunto, muito pouca publicação ponto.

Estamos num bom momento para os quadrinhos no Brasil. O que você tem acompanhado por aqui?
Infelizmente, muito pouco. Depois de dez anos longe estou tendo que começar muita coisa do zero e tudo ao mesmo tempo agora. Sem falar que o capital de giro anda meio baixo. Confesso que eu evito entrar em bancas e livrarias. Papel é pra mim um objeto de desejo (o que me rende braços fortes e dores na coluna), então fico felicíssimo de ver edições maravilhosas de criadores que eu conheço bem como o [Flávio] Colin, o Jô Oliveira e o Laerte, com outros que eu só muito recentemente começo a ouvir falar. Realmente, o mercado da HQ no Brasil está maravilhoso e eu espero poder me esbaldar dentro em pouco, tirar o atraso !

Além das continuações de Dr. Bubbles & Tilt em que mais você está trabalhando?
Na minha vida, que eu deixei meio que pegando poeira aqui durante tempo demais. Claro que não consigo deixar de pensar em fazer HQs, mas vou acumulando os projetos pra quando eu estiver mais estável. Quero fazer estripulias com a história política do Brasil para os adultos (misturando história real com viagens alucinadas) e, quem sabe, algo inteligente para público infantil. Nesse universo, devo participar de uma publicação francesa que sai ano que vem. São amigos de uma outra editora independente, a Cafe Creed, que publicam regularmente esse coletivo pra crianças, o Chococreed, com uma qualidade de dar inveja. Vai ser a minha primeira participação nele, e vou falar sobre o Brasil, claro.

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