EXACERBAÇÃO DA ENERGIA PUNK
Uma forma crua, autónoma e punk de entender a criação musical que provoca reacções diversas, mas renova o espírito do rock n´roll português

Por Pedro Salgado
Colaboração para a Revista O Grito!, em Lisboa

Eles são quatro rapazes de Lisboa que estudam e vivem juntos: Francisco Xavier (vocalista e guitarrista), Zé Preguiça (guitarrista), Pedro Lucas (baterista) e Sebastião (baixista). Após alguns anos a tocar juntos, o lançamento do EP Meio Disco, em 2009, deu-os a conhecer ao público lisboeta.

“Estar aqui agora” é uma das formas de definir o espírito da banda. Uma alma que se manifesta com força, intensidade, e sem cedências, nos shows do grupo. As performances de Os Velhos revelam formas acentuadas e diferenciadas de sentir a sua música, tal como aconteceu no passado dia 17 de Maio, na Music Box, de Lisboa.

A edição recente do álbum homônimo do grupo, demonstrou ser possível transportar uma energia punk e luminosa para um disco de músicas originais. O espírito da banda e o significado das canções de Os Velhos proporcionaram uma conversa do baterista Pedro Lucas com a Revista O Grito! , em Lisboa.
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Crítica: a locomotiva de Os Velhos

Os Velhos é um nome original. Como surgiu essa ideia ?
Esse nome apareceu numa fase em que procurávamos uma designação para a banda e já tinhamos algumas canções feitas. A forma como trabalhamos a música é muito ligada à ideia de garagem, de quatro rapazes que fazem as coisas por si num espírito autônomo e punk. Tivemos o imaginário de ir tocar em casa ao fim-de-semana com tudo no máximo. Existia em nós uma ideia global de rudeza que nós gostariamos que tivesse relação com o nome Os Velhos. É óbvio que as quatro pessoas que estão envolvidas no projeto rapidamente perceberam que aquilo fazia sentido. Com a passagem do tempo, sem ter que explicar muita coisa, o público vai entendendo que o nome tem algo a ver com este grupo de pessoas e com a música que fazemos.

Na apresentação do álbum houve um clima de autêntica celebração. Esperava uma reação tão entusiástica do público da Music Box ?
O público da Music Box já nos conhece há algum tempo, porque somos de Lisboa e os nossos amigos estão todos cá e vão passando mensagens entre eles. A forma como as pessoas reagem às nossas músicas é de grande amor ou de ódio, não há um meio termo. Por um lado, há pessoas que vivem as nossas canções de uma forma muito intensa, isso sente-se no show, e aquilo tem um significado muito grande para eles e também para nós. Por outro lado, há mensagens de pessoas no youtube ou enviadas diretamente para a banda que exprimem o desagrado pela nossa estética, principalmente neste disco, em contraste com os cânones do mercado. Como essas pessoas não entendem a nossa música, fazem questão de manifestar a sua repulsa pela maneira como as canções são gritadas ou como tudo é apresentado de uma forma não moderada. Essa forma excessiva de ver o grupo é uma realização grande. Isso faz com que fiquemos mais galvanizados no palco e vivamos a performance de uma forma mais vibrante. Tentamos sempre não criar muitas expectativas, já tocámos para salas vazias e aparece um fã que abana a cabeça e mais ninguém está a sentir a música. Em Lisboa acontecem situações com mais graça, no Porto também começa a acontecer e esperamos que pouco a pouco vá acontecendo nos sítios onde tocarmos.

“Conservação dos Pregos” agrada-me particularmente. Sinto que a força das palavras molda a música e não tanto o inverso. Qual é a sua opinião ?
É uma ótima observação. Nunca tinha pensado assim. De fato as palavras são muito importantes nas nossas canções. Há bandas em que as letras são mais standard ou mais inócuas, no nosso caso as palavras querem dizer coisas que são importantes para nós e por uma ordem qualquer. Por alguma razão esta música é a primeira do disco e é um manifesto muito forte. O tipo de temáticas abordadas lança sempre uma interrogação muito grande sobre as coisas que nos rodeiam e como o mundo está hoje em dia. Percebo o que queres dizer com moldar a música, porque sente-se que a métrica da estrofe é muito carregada com a métrica da bateria e das guitarras. A primeira ideia que está associada à canção é uma pequena introdução inicial, seguimos para um rife com as duas guitarras a marcar o tempo, a bateria depois e as vozes fazem o grito de “con, con, con”. Depois, o cerne da canção passa pela conservação de determinadas coisas: o amor e os pregos. A estrofe é desenhada mais no fim, insistindo no mote do “con”, de conservação dos pregos e do amor eterno.

O tema “Deixa-me Dançar”, de certa forma, é uma analogia da música de vocês: rock de cátedra, mas propiciando a dança. Concorda ?
Gosto da expressão rock de cátedra (risos). Concordo ! Esta canção se calhar poderia ser vista como fora deste disco por ser mais pop ou chiclete, porque cola mesmo. Sempre gostamos muito da música e principalmente da forma como a interpretamos, muito rápida e com força. Quando tocamos o tema nos shows, e sentimos que as pessoas estão todas a dançar, numa comunhão e alegria muito grande, aquilo faz todo o sentido no meio daquela energia de embate e agressividade. Uma canção que diz: “Deixa-me dançar, tu não sabes o que queres, deixa-me dançar”, traduz uma expressão total de autonomia e liberdade das pessoas. No fim da canção adotamos um ritmo dançável que é um sinônimo da luz e da esperança da cidade de Lisboa. Tudo isso passa para a nossa sonoridade numa perspectiva otimista.

As letras têm uma carga emocional muito forte, mas também são um pouco codificadas. Qual é o significado da mensagem de Os Velhos ?
Já pensámos nessa questão. Nós costumamos dizer que os poemas das canções são uma maneira de dizer as coisas que têm uma forma e determinadas palavras. A razão pela qual colocamos essas estrofes, tem a ver com o resultado final do poema. Ou seja, se pudéssemos dizer aquilo que queremos dizer nas músicas, de outra forma, não fariamos canções e diziamos as coisas de outra forma. Quando me dizes, e eu concordo, que as nosssas letras são muito sentidas por um lado e muito codificadas por outro, relaciona-se com o fato da nossa vontade de que nem tudo deve ser entendido. A ideia não é “ouvi a canção, apanhei-a e fechei-a”. O que ali está é mais do que uma letra, tem instrumentos, o espaço onde a criamos, a maneira como a música é cantada e com a sua força. O objetivo é que a pessoa receba aquilo e construa a sua própria canção. De resto, a forma com duas pessoas entendem a mesma palavra é diferente.

Considera que o futuro do novo rock português passa pela sua banda ?
Esperamos que sim. Na verdade, estamos muito envolvidos na cena musical para ter esse descernimento. Esse papel cabe mais aos críticos. Não sabemos o que vai acontecer, mas podemos dizer que fazemos as coisas exatamente como achamos que devem ser feitas.Procuramos evitar cedências de qualquer gênero. Também sentimos que temos algo de novo e gostávamos que o público ouvisse. Ao escutarem as nossas canções com atenção, as pessoas vão descobrir coisas boas sobre o mundo e da forma como tudo devia acontecer. Era bom que Os Velhos vingassem, mas não trabalhamos a pensar nisso. Se uma banda tentar apenas ter sucesso há mais probabilidades de falhar. Quando editamos um disco só temos em mente que as pessoas escutem a nossa mensagem. É esse o nosso grande objetivo enquanto músicos.

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