Marçal Aquino (Foto: Divulgação)

BALAS PARA AQUINO
Escritor Marçal Aquino estréia na tevê com a série Força-Tarefa
Por Luiza Lusvargui, colunista da Revista O Grito!, de São Paulo

Força-Tarefa, o novo seriado policial da Globo que estreou dia 16, é o primeiro trabalho do escritor, dramaturgo e roteirista Marçal Aquino para televisão. E a estréia será em dose tripla. Ainda este ano será exibida na TV Cultura a microssérie dirigida por seu parceiro mais constante, o cineasta Beto Brant, O amor segundo B.Schianberg, que parte de argumento e personagem criados por ele, enquanto que na HBO passa a segunda temporada da série Filhos do Carnaval, para a qual ele escreveu dois episódios. Ao lado de Beto, ele assinou os roteiros de Matadores, Ação entre Amigos, e do premiado O Invasor, com argumento baseado em sua obra, além de Nina, filme dirigido por Heitor Dhalia, uma adaptação pós-moderna da clássica obra de Dostoievsky, Crime e Castigo, e Crime Delicado, baseado em conto de Sergio Santana.

O parceiro de Marçal, nesta sua primeira empreitada oficial na televisão, é o também escritor, roteirista, dramaturgo e cineasta Fernando Bonassi, autor de “Um Céu de Estrelas”, que no teatro foi dirigida por Lígia Cortez, e ganhou aclamada versão cinematográfica da diretora Tata Amaral. Bonassi já havia assinado roteiros na TV Cultura nos programas infantis Mundo da Lua e Castelo Ra-tim-bum.

A coluna Trans, da Revista O Grito! conversou com Marçal Aquino.

A MINISSÉRIE FORÇA-TAREFA VEM SENDO COMPARADA PELA IMPRENSA COM A LEI E O CRIME, DA RECORD. O QUE VOCÊ ACHA DISSO? HOUVE ALGUM TIPO DE PRESSÃO NESTE SENTIDO?
MA – Eu e o Bonassi estamos trabalhando no seriado há um ano, absolutamente concentrados na criação, e nem sabíamos que a Record estava preparando uma série. A gente sabia da 9mm, da Fox. É difícil comparar com Força-Tarefa por conta das diferenças. Nosso seriado fala da “polícia da polícia” e dá as costas para o morro, a favela. Falamos de delitos de policiais no asfalto – em Copacabana, subúrbios e também fora do Rio.

VOCÊ COMEÇOU SUA CARREIRA COMO POETA, E SE FIRMOU COMO ESCRITOR ANTES DE SE LANÇAR COMO ROTEIRISTA. VOCÊ ACHA QUE ISSO FAZ DIFERENÇA, COMO ESCRITOR E COMO ROTEIRISTA?
Eu me vejo como escritor, a literatura é a minha casa. Faço outras coisas com muito prazer, e escrever roteiros é uma delas. Mas eu só faço sentido como escritor.

VOCÊ PREFERE TRABALHAR UM ROTEIRO DE UMA HISTÓRIA SUA?
A rigor, tanto faz trabalhar com histórias próprias ou de outros. O difícil, na verdade, é o tal do roteiro original, que não tem nenhuma matriz e sai da imaginação do roteirista. Esse, sim, é um baita desafio.

VOCÊ ASSISTIU AO SERIADO DA RECORD? SE ASSISTIU O QUE VOCÊ ACHOU?
Assisti somente ao primeiro episódio, bem dentro daquele meu espírito de quem não tem absolutamente disciplina para assistir a séries e seriados. Nunca fui grande fã do formato. Mas achei o primeiro episódio muito bem cuidado, embora não tenha condições de fazer qualquer consideração sobre a dramaturgia.

VOCÊ TEM ACOMPANHADO AS MINISSÉRIES PRODUZIDAS PELA HBO, FOX? EM CASO AFIRMATIVO, VOCÊ VÊ UM ESTILO LATINO POLICIAL EM MINISSÉRIES COMO EPÍTÁFIOS, 9 MM?
Como eu disse, não assisto às séries. Não tenho como fazer essa análise que você pede. Sorry.

AS MINISSÉRIES PARECEM SER UMA SAÍDA MAIS BARATA INCLUSIVE PARA A TELEDRAMATURGIA REGIONAL NACIONAL (PERNAMBUCO, RIO GRANDE DO SUL, BAHIA). NO ENTANTO DO PONTO DE VISTA DE MERCADO, HÁ CONTROVÉRSIAS. PARA VOCÊ, COMO AUTOR, O QUE É MAIS INTERESSANTE?

As séries estabeleceram um  mercado muito importante, por exemplo, para os roteiristas. Hoje, grandes roteiristas, aqui e lá fora, estão envolvidos com a criação de séries. Dado o nosso mercado, ninguém conseguiria sobreviver escrevendo apenas para o cinema. Então as séries têm essa importância.

NA FICÇÃO SERIADA, O AUTOR TEM DE PENSAR EM GANCHOS, EM DESENVOLVER UMA NARRATIVA EM BLOCOS. UM AUTOR SE QUEIXOU PARA MIM, RECENTEMENTE, DE QUE OS LANÇAMENTOS EM DVD DESSE TIPO DE OBRA PERDEM MUITO PORQUE FICAM SEM SENTIDO, ACABAM SENDO ASSISTIDOS COMO SE FOSSEM UMA OBRA ÚNICA. VOCÊ CONCORDA?
Faz sentido, embora eu nunca tenha assistido a uma temporada completa de qualquer série. Se foi criadas para ser exibida de forma seriada, perde um tanto da graça assisti-la de modo contínuo.

AS GRANDES FRANQUIAS DO CINEMA HOJE TRABALHAM COM FICÇÃO SERIADA, A GRANDE MAIORIA ANCORADA NA LITERATURA. COMO ESCRITOR E AUTOR DE ROTEIROS, VOCÊ ACHA QUE ISSO CONTRIBUI PARA UMA EXPANSÃO DA OBRA? OU SIMPLESMENTE REBAIXA A QUALIDADE?
As séries, até mais que o cinema, podem expandir o público de um livro. Acho que não tem a ver com rebaixar a qualidade, mas com estabelecer um diálogo com a  matriz literária, algo que proponha uma leitura. Isso acontece com o cinema, historicamente.

Força-Tarefa (Foto: Divulgação)

VOCÊ TOPARIA ESCREVER PARA TELENOVELAS?
Acho invejável o pique de quem se propõe a escrever uma telenovela. Eu não tenho fôlego para tanto.

DO PONTO DE VISTA DA AUTORIA, UMA QUESTÃO QUE É SEMPRE LEVANTADA, A RESPEITO DAS DIFERENÇAS ENTRE ROTEIRO DE CINEMA E TELEVISÃO, É QUE, NA TELEVISÃO, DE FATO, O ROTEIRISTA TEM UMA IMPORTÂNCIA ACIMA DO DIRETOR, CONSTITUINDO NÚCLEOS DE TRABALHO, INTERFERINDO NO CASTING. DO PONTO DE VISTA LEGAL, ESSA DIFERENÇA, EFETIVAMENTE, NÃO EXISTE. COMO VOCÊ VÊ ESSA QUESTÃO? ESSA DIFERENÇA TERIA A VER COM A PRODUÇÃO?
Especificamente no meu caso e do Bonassi, a gente não teve qualquer ingerência na escalação do cast do seriado. Isso ficou a cargo do Alvarenga. Nosso trabalho tem sido escrever, nada mais.

DESDE A SUA PARCERIA COM O BETO EM MATADORES E O INVASOR, SEU NOME É INSISTENTEMENTE ASSOCIADO À LITERATURA POLICIAL E, COM MAIS FREQUÊNCIA, AO NOIR. NÃO SEI SE VOCÊ CONCORDA, MAS QUAIS AS SUAS REFERÊNCIAS LITERÁRIAS E CINEMATOGRÁFICAS DENTRO DO GÊNERO?
Dizem muito que eu sou um escritor policial. Não me incomoda, mas acho meio redutor para definir uma literatura que visita muitos outros universos. Enfim. O que conta é que gosto de exercitar o gênero quando me ocorre uma boa história para contar. Eu li, e ainda leio e releio, muita gente. Raymond Chandler, Jim Thompson, Rubem Fonseca, Mafra Carbonieri e também autores que visitam eventualmente o universo policial, como Ricardo Piglia, Cormac McCarthy, Scott Smith.

Força-Tarefa (Foto: Divulgação)

Policiais invadem as séries brasileiras
Da colunista da Revista O Grito!

A lei e o Crime (Record), 9 mm (HBO), e agora Força-Tarefa (Globo). Definitivamente o gênero policial ganha uma identidade brasileira e começa a invadir as telas da televisão. Depois dos boatos sobre as negociações, frustradas, para transformar Tropa de Elite, o filme, em seriado, a Globo resolveu lançar uma série investigativa que irá retratar o cotidiano de um grupo de policiais que investiga a própria polícia. Força-Tarefa, escrita por Fernando Bonassi – de Carandiru (2003) e Cazuza: O Tempo Não Pára (2004) – e Marçal Aquino – de Nina (2004) –  vai mostrar sete policiais que formam uma corregedoria que destinada a investigar os desvios de conduta de outros membros da corporação. O diretor é José Alvarenga Jr. Na série, o grupo é chefiado pelo coronel Caetano, interpretado por Milton Gonçalves, mas a ação da história caberá ao tenente Wilson, interpretado por Murilo Benício. A pernambucana Hermila Guedes vai interpretar Selma, braço direito dele na trama. Além dos três, a equipe conta com Jorge (Rodrigo Einsfeld), Irineu (Juliano Cazarre), Oberdan (Henrique Neves) e Genival (Osvaldo Barauna). Selma, como a única mulher da corporação, vai passar uma imagem sexual ambígua.

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