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Foto: Wilker Martins/Divulgação

Rodrigo Menezes é poeta nascido em Brasília, radicado em Natal desde os dois anos de idade, que tão logo começou a profissionalizar sua escrita, em 2013, foi vencedor do “Concurso Novos Poetas – Prêmio Sarau Brasil 2013”, promovido pela Editora Vivara; ficou em segundo lugar no do Concurso Literário Novos Talentos: Escritos/Escritores 2015, promovido pela Academia Literária do Vale do Taquari e em terceiro no XVII Prêmio Cidadão de Poesia, promovido pelo Sindicato dos Empregados no Comércio de Limeira e Região – SINECOL.

Prestes a fazer 27 anos, Rodrigo Menezes já conta com seis e-books autopublicados e duas antologias em formato físico no currículo, além de participação em diversas coletâneas, três delas com lançamento este ano: a edição de estreia da Revista Philos e as antologias da Academia Literária do Vale do Taquari (março de 2016) e da Editora da Universidade Federal do Espírito Santo (junho de 2016). Angústia e perda são temas recorrentes na poesia de Rodrigo, que tem a condição humana como matéria-prima para o seu trabalho.

“Praticamente todos os meus poemas têm uma boa dose de autobiografia, então muito do que se passa comigo ou à minha volta acaba indo parar nos versos. Mas creio que há muita universalidade nas minhas idiossincrasias, pois o que escrevo tem muito a ver com as relações humanas, a contemporaneidade e questões atemporais do homem, incluindo a perda e a angústia da existência, que sempre fomentaram a poesia e todo tipo de arte. A melancolia está sim sempre presente na minha poesia, mas junto a uma gama de outros sentimentos mais leves”, pondera ele. Com poemas muitas vezes sombrios e escritos de maneira crua, Rodrigo reconhece a semelhança com o parnasiano Augusto dos Anjos em seus escritos (o poema Necrópsia dos Sentidos é um bom exemplo), embora só tenha lido a obra do paraibano recentemente e avisa: “a poesia de Augusto é certamente mais densa do que a minha em vários aspectos”.

Buscando fincar seu lugar ao sol, Rodrigo sabe que fazer poesia no Brasil é uma tarefa árdua, com poucas chances de reconhecimento, principalmente se você é um autor independente. Mas como sucesso não é o seu objetivo, o poeta não desanima: “[Ser um autor independente] é um workshop que te ensina a acreditar em si mesmo e no seu próprio trabalho, independente das circunstâncias em que ele se dá, e a receber críticas, construtivas e depreciativas. E nãos. Muitos nãos. Ou às vezes nem isso. Esperar e-mails com respostas que nunca chegarão é bastante comum, mas quando chegam, ou se consegue um feedback, ou algum tipo de visibilidade e reconhecimento, é bacana. Resumindo, é um ótimo exercício de autoestima. Quase uma terapia.”

Abaixo, leia a entrevista com o poeta sobre seu trabalho e três poemas cedidos exclusivamente para esta matéria. Os poemas de Rodrigo Menezes podem ser encontrados também em seu blog Catarse Terapêutica, bem como sua obra em livro digital, disponível para download gratuito e mídia impressa, disponível para compra.

Livros físicos

Livros físicos

Rodrigo, fala um pouco de como você começou na poesia. Você escreve desde a adolescência, mas quando foi que você passou a levar a sério o que escrevia, resolvendo publicar e se inscrever em concursos?
Bem, embora eu tenha começado a escrever casualmente com 13 anos, foi só depois de adulto que comecei a sentir realmente necessidade de me expressar pela palavra. Porém, a “escrita pela escrita”, e o efeito terapêutico do ato, sempre foi o que me motivou mais. A publicização sempre foi um fator bônus, nunca uma motivação em si. Sempre sofri da “síndrome da gaveta”, mas com o tempo e sob o incentivo de alguns amigos, mais envolvidos com arte e literatura do que eu mesmo, e com uma leitura mais objetiva, comecei a submeter alguns dos meus textos a seleções e concursos literários. A partir daí, consegui começar a publicar colaborativamente em outros veículos além do meu próprio blog, como revistas e antologias, e ganhei algumas colocações em prêmios nacionais e regionais. Quanto a “se levar a sério”, considero esse um termo pesado. Na verdade, acho que foram as outras pessoas que começaram a me levar a sério antes de mim mesmo. É um processo. Mas diria que passei a me relacionar com minha escrita com menos embaraço.

Você é de Natal, e o que é produzido por aí chega muito pouco no chamado ‘eixo’. Você participa da cena literária de Natal? Como é que os poetas e artistas se organizam aí?
Infelizmente ainda não participo, e nesse aspecto confesso que vivo totalmente “na bolha”, principalmente por não frequentar muito os círculos sociais, eventos e locais onde a produção cultural, artística e literária da cidade circula e acontece. Apesar da internet, estar fisicamente presente nesses espaços ainda é relevante porque, principalmente em se tratando de literatura independente, o networking com outros autores e o velho boca a boca são essenciais. Mas o que posso dizer é que existe sim uma cena literária viva em Natal, tanto na poesia quanto na prosa. Na poesia, existem não apenas autores escrevendo isoladamente, como eu, como também coletivos que reúnem novos escritores em saraus e outros eventos, como o Iapois, Poesia!, e outros grupos como a Sociedade dos Poetas Vivos e Afins do RN, que é composta por autores mais “veteranos”. Enfim, existe um movimento local bem interessante, inclusive com o surgimento de selos a partir da organização de escritores independentes, como foi o caso da editora Jovens Escribas. Além, claro, do fato de hoje a produção cultural em geral ter se horizontalizado em vários sentidos com os blogs e redes sociais.

Quem são os poetas da sua geração que você admira? E quais são suas inspirações?
Admiro vários novos poetas. Acredito que em todo lugar, a qualquer momento, sempre existe gente inspirada escrevendo coisas interessantes, mesmo longe dos grandes circuitos. Na cena contemporânea local, por exemplo, impossível não admirar a Regina Azevedo e o Victor H, que são dois prodígios de uma pureza e sensibilidade incríveis. Fora do contexto potiguar, pra citar um nome que conheci recentemente, tem o Ygor Moretti, que tem um livro chamado Um Objeto Quando Esquece que gosto bastante, dentro diversos outros autores que estão por aí afora escrevendo suas obras e que procuro conhecer sempre que possível. Quanto às minhas inspirações, também são igualmente infinitas. Dos cânones, Cecília Meireles e Drummond são dois nomes que admiro muito, mas procuro me manter minimamente aberto a quase tudo, não só na poesia, mas em qualquer tipo de arte. Sou meio “antropofágico” nesse sentido. Muito do que leio, vejo e ouço, se me toca de alguma forma, acaba influenciando o que escrevo e às vezes entrando em forma de referência explícita ou implícita, e não tenho problema em admitir isso. O poema Carnaval, por exemplo, eu escrevi inspirado por uma canção do Vítor Ramil, Livro Aberto.

Você se diz ser um admirador de Cecília Meireles e Drummond, mas suas poesias parecem trazer uma forte influência de Augusto dos Anjos. Você reconhece isso? E se reconhece, quais são os pontos em que você acredita que liguem sua poesia à de Augusto?
Reconheço sim. Augusto dos Anjos também é uma grande influência, embora só tenha lido o trabalho dele bem tardiamente. Acredito que a semelhança resida, além da melancolia, no tom sombrio e na crueza de alguns dos meus poemas, mas a poesia de Augusto é certamente mais densa do que a minha em vários aspectos.

Você é um fã de música. O quanto da música influencia o seu trabalho e, se influencia, de que maneira?
Existem muitos compositores que escrevem letras de música que se sustentam sozinhas enquanto poemas, e isso me inspira porque a música é uma ótima moldura pra poesia. Aliás, na tradição oral de várias culturas, elas sempre tiveram uma relação íntima. Basta lembrar dos trovadores. Pra mim, existem compositores que nada mais são do que poetas musicais, em vários gêneros, da MPB ao pop, e eu absorvo o que eventualmente me inspira, seja em questão de temática, estrutura, sonoridade, etc., muito embora eu não me considere um poeta muito sonoro. Faço poesia pro papel e pro silêncio mesmo. Até mesmo de declamação eu tenho certa fobia, por exemplo. Uma parte de mim começou a escrever poesia justamente porque não tinha muita habilidade pra nada que envolvesse som. De vez em quando me atrevo amadoramente no território da composição, até tentando musicar poemas, mas é uma linguagem em que eu, pelo menos sozinho, não tenho competência. Existe um projeto independente chamado Ecompor, no entanto, que está tentando aproximar escritores, poetas e músicos de todo o Brasil pra viabilizar colaborações e criação de canções a partir de poesia. É uma ideia interessante que gostaria de experimentar futuramente.

Por enquanto, você é poeta independente. Quais são suas pretensões na carreira? Existe alguma intenção de buscar contato com editoras especializadas, que poderiam publicar seu material?
Pelo menos por enquanto, e no futuro próximo, a poesia pra mim ainda é um empreitada paralela. Mais que um hobby, com certeza, mas ainda menos que uma carreira propriamente dita. Ainda preciso me integrar à cena literária local, como disse antes, mas de qualquer forma o status de independente não me incomoda. Projetar minha obra comercialmente nunca foi um objetivo, mas é claro que publicar meus livros por meios especializados é uma ideia que não me nego a entreter. Eu publiquei os livros Catarses & Levezas e Mortalha das Horas pelo Clube de Autores, que é uma plataforma online de impressão sob demanda, porém essa forma de publicação tem uma série de limitações. Associar-me a uma casa editorial independente local seria um próximo passo que gostaria de dar.

E como é a vida de autor independente?
É um workshop que te ensina a acreditar em si mesmo e no seu próprio trabalho, independente das circunstâncias em que ele se dá, e a receber críticas, construtivas e depreciativas. E nãos. Muitos nãos. Ou às vezes nem isso. Esperar e-mails com respostas que nunca chegarão é bastante comum, mas quando chegam, ou se consegue um feedback, ou algum tipo de visibilidade e reconhecimento, é bacana. Resumindo, é um ótimo exercício de autoestima. Quase uma terapia.

Vamos falar da sua poesia. Os títulos dos seus livros são todos um tanto melancólicos, afiados e até um pouco obscuros. Qual é a matéria-prima da sua poesia? A perda parece um tema muito presente, assim como a angústia existencial.
Com certeza perda e angústia são temas recorrentes no que eu escrevo, mas a matéria-prima da minha poesia é a condição humana em todo seu espectro. Praticamente todos os meus poemas têm uma boa dose de autobiografia, então muito do que se passa comigo ou à minha volta acaba indo parar nos versos. Mas creio que há muita universalidade nas minhas idiossincrasias, pois o que escrevo tem muito a ver com as relações humanas, a contemporaneidade e questões atemporais do homem, incluindo a perda e a angústia da existência, que sempre fomentaram a poesia e todo tipo de arte. A melancolia está sim sempre presente na minha poesia, mas junto a uma gama de outros sentimentos mais leves. Pode haver um desequilíbrio na proporção, mas aí já são outros quinhentos. Quanto à obscuridade, na maior parte das vezes ela é uma escolha consciente de estilo, uma expressão poética em si. Outras vezes pode ser questão de percepção ou interpretação do leitor. Depende.

O que você pode dizer sobre seu próximo livro?
Tenho 32 poemas prontos, mas estou sem pressa de editá-lo. Estou escrevendo até o ponto em que sentir que o material “fecha” minimamente enquanto um livro. De antemão, posso dizer que existe um pouco mais de variabilidade temática, com alguns poemas sobre questões mais sociais, e mais pitadas de sarcasmo aqui e acolá. Sinto que estou concretizando cada vez mais um estilo próprio, ao ponto de escrever algo e imediatamente reconhecer como “meu”, o que é bom, mas também gera o desafio de não acabar caindo na repetição de fórmulas. Tenho procurado me manter oxigenado e sair da minha zona de conforto, me abrindo a novas inspirações e experimentando novas formas de escrever.

Eu sei que você esteve envolvido com grupos que lutam pela visibilidade de pessoas transexuais. Você pode comentar um pouco esse seu envolvimento e quais questões sociais que serão abordadas em seu trabalho?
Sim. Na verdade, participei de alguns eventos e conheci alguns ativistas daqui e de outros estados enquanto realizava uma pesquisa pra coescrever um artigo acadêmico. Fui mais observador do que participante, mas a experiência me permitiu conhecer melhor a realidade das pessoas trans e as pautas do transativismo. Muito do que ouvi e pesquisei provocou pensamentos e emoções controversas que de alguma forma estão na minha escrita. Creio até que de forma muita explícita. Quanto às outras questões, temas como capitalismo, desigualdade social e dessensibilização humana causada pela urbanização e pelo trabalho também estão dispersamente presentes.

O que é poesia para você?
Enquanto gênero literário, pode ser a arte de utilizar palavras pra capturar e condensar emoções, sentimentos, pensamentos ou histórias. Pode ser a arte de utilizá-las pra construir imagens (pintar “quadros verbais”) ou provocar sensações em quem lê. Pode ser a arte de fazê-las relacionarem-se de forma não convencional ou colocá-las em contato com outras com as quais normalmente não entra em contato. Pode ser a arte de selecioná-las, arranjá-las, combiná-las ou fazer uso de sua sonoridade. Enfim, poesia pode ser definida de mil formas, mas ela é algo que está em todo lugar, dentro e fora das pessoas, e pode assumir várias linguagens, não só a escrita. Pode haver poesia em uma fotografia, uma conversa de bar, uma combinação de acordes, uma cena de filme, um comentário no Facebook, ou simplesmente em um poema impresso numa página.

Mais recentes e-books lançados

Mais recentes e-books lançados

Leia três poemas de Rodrigo Menezes:

Hino de Autoproclamação

Se em cárceres alheios hei de empenhar meu Espírito,

Que sejam eles despojados de qualquer Santidade.

Se a peles outras hei de confiar minha própria,

Que sejam elas não altivas e de igual qualidade.

 

Pois falta-me a nobreza e a arte retórica.

Faltam-me os requintes e as lapidações.

Pois falta-me o polimento em minhas arestas.

Faltam-me os moldes e as incondições.

 

Minha história não conta, define ou altera.

Meu berço não diz, condiz ou desfaz.

Minh’alma é uma chaga, ferida aberta

Que não ousa sangrar e não fecha jamais.

 

Jamais.

***

Limoeiro-Prenúncio

Guardo em cores – recordações,

Retratos que não me pertencem

Mais.

 

No fundo da mente – empoeirados,

Ainda os cheiros exalam

Sua cor.

 

Mofadas, borradas – lúgubres,

Imagens reacendem

Lampejos difusos.

 

Recluso, arredio – encerrado,

Registrava tranquilo

Memorandos futuros:

 

Parapeitos, janelas e céus.

Limoeiro-prenúncio de tão próximo

Fim.

 

Galos cantando à alta madrugada.

Letargias dissonantes – agoniantes,

Que ainda ecoavam dentro de mim…

***

A Farsa

Tanto que um dia eu fui

Tanto que quase cheguei a ser

Lugar nenhum a que cheguei

Tudo que nunca cheguei a ter

 

Tanto que eu seria e não fui

Tanto que fui sem ao menos ser

Tudo aquilo que eles me diziam

Nada que eu não pudesse crer

 

E então o tempo foi passando

E por mais que eu não quisesse ver

Por trás da cortina se escondia uma farsa

Nua e pronta p’ra aparecer

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