TODAS POR ELAS
Fãs cometem loucuras, travam rixas e se digladiam com admiradores da artista rival. Quem ganha com isso?

Por Marta Souza
Da Revista O Grito!

As divas têm uma grande importância no mundo da música pop, mas esse sucesso não aconteceria se não existisse um público que consumisse seus produtos: os fãs. Eles fazem de tudo para que as artistas que admiram estejam no topo das paradas e ganhem todos os prêmios, e cometem loucuras para chegar perto delas. E se alguma outra cantora ameaça ou concorre ao posto de nova diva, os fãs se tornam verdadeiros guerreiros, lutando para defender o lugar que, para eles, é de direito do seu ídolo. Essa disputa ficou tão acirrado que cenas (reais) das batalhas entre partidários das cantoras já tem cenas de batalhas devidamente registradas no YouTube.

O caso mais famoso de brigas entre fãs de duas divas da música pop aconteceu em 2004: Britney Spears X Christina Aguilera. As loiras – que se conhecem desde 1993, quando se apresentavam no programa Clube do Mickey Mouse, da Disney, e eram as mais cotadas para substituir Madonna como rainha do pop – foram vítimas da mídia sensacionalista, e principalmente do tabloide inglês The Sun, que criava histórias falsas sobre brigas entre elas, fazendo com que os fãs começassem a se odiar.
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Especial Divas em Xeque
De Carmen Miranda ao axé
Lady Gaga, uma construção

A estudante de moda Larissa Guimarães, 19 anos, viveu esse momento. Fã de Britney Spears, ela admite que não podia ver Christina Aguilera na televisão que mudava de canal. “Por ser fã de Britney, eu não suportava Christina. Agora percebo que isso não tinha a ver com as cantoras e, sim, com a mídia. Mas, mesmo assim, ainda olho meio torto para a Christina”, disse ela.

Ainda é prática corrente da mídia sensacionalista plantar falsas intrigas entre as artistas. Atualmente, isso gera uma repercussão muito maior que há alguns anos, já que redes sociais como Orkut, Facebook e principalmente o Twitter caíram no gosto popular, e os admiradores das divas trocam insultos e marcam brigas pela internet.

A disputa da vez é entre os seguidores de Lady Gaga e os de Christina Aguilera. Depois da estreia do clipe “Not Myself Tonight”, de Christina, primeira música de trabalho do álbum Bionic, lançado em 2010, os fãs de Gaga começaram a usar as mídias socias para espalhar que a ex-rival de Britney estaria copiando o estilo da nova revelação da música pop.

Aproveitando a situação, a Out, revista gay de maior circulação nos Estados Unidos, publicou na edição de junho de 2010 uma entrevista com Christina, na qual ela teria dito sobre Lady Gaga: “Oh, a novata? Eu acho que ela é divertida de se olhar.” Ao saber que suas declarações tinham sido mal interpretadas, Aguilera publicou uma nota em seu site oficial, afirmando que o jornalista e editor da Out, Joshua David Stein, havia colocado frases fora de contexto. “Eu não tenho absolutamente nada contra Lady Gaga ou qualquer outra artista. Acho que ela é ótima, e aprecio mulheres sem medo, que desafiam as normas. Há espaço para todos nós nos iPods de todo mundo. Essa não é a primeira vez que me colocam injustamente como rival de outra cantora”, alegou.

De acordo com o repórter do Caderno C do Jornal do Commercio e editor do jornal literário Pernambuco, Schneider Carpeggiani, essa disputa entre a imprensa e os artistas pode não ser apenas fruto da relação que o repórter mantém com o entrevistado, mas também da interpretação que cada um faz desse encontro. “Sempre acontece de o entrevistado falar que o que foi publicado não foi bem o que ele quis dizer, mesmo quando o jornalista tem a gravação da entrevista como prova. Quando se reproduz a fala de alguém, ela é sempre colocada num outro contexto, a partir do texto que estamos fazendo. Escrever é reinterpretar. E essa reinterpretação pode nem sempre soar positiva para o entrevistado”, defende ele.

As baianas
No Brasil, as rixas entre fãs se tornaram mais acentuadas quando Ivete Sangalo e Cláudia Leitte começaram a despontar como as novas candidatas à diva no país. Logo vieram as comparações entre as duas, e quem acabou sofrendo mais críticas foi Cláudia Leitte, já que quando ela apareceu o mercado já estava praticamente conquistado por Ivete.

A professora e dona do blog Mix Total, Roberta Laranja, confessa que na primeira vez em que escutou Leitte na rádio pensou que fosse Sangalo. “O que eu não sabia era que isso não era uma simples coincidência. Cláudia Leitte é realmente uma cópia proposital de Ivete Sangalo. Ela não tem vergonha de ser o plágio de Ivete. Copia o jeito de cantar, gírias e trejeitos”, opina.

Fã da Cláudia, a estudante Caroline Souza discorda quando ouve dizer que a sua cantora favorita é uma cópia da outra. “Elas são completamente diferentes, não é porque cantam axé e são da Bahia que elas são a mesma coisa. Prefiro a CL porque ela é sincera e tem respeito com os fãs, não é como a Ivete, que chega em cima do palco e só fala palavras de baixo calão”, afirma Caroline.

Doutor em Sociologia e professor da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), Nadilson Silva, que no momento pesquisa mediações culturais entre a cultura globalizada e as culturas de periferia, acredita que competitividade no mundo pop tem um valor muito forte no mercado: “São criadas falsas rivalidades para despertar a atenção dos fãs e, consequentemente, ter um aumento nos lucros da indústria cultural. Música envolve revistas, televisão e cinema. Então toda a indústria lucra com esse tipo de exposição”.

Ioiô de ídolos
Não se pode esquecer também das loucuras que os fãs fazem pelo ídolo. São horas na fila do show e esperas em aeroporto, sem dormir e sem comer, só para conseguir ver de perto, tocar ou obter o prêmio mais desejado por todo esse martírio: tirar uma foto ao lado da artista. O jornalista Eduardo Sena, 21 anos, é fã de Ivete Sangalo e também é adepto do vale tudo para ver o ídola. “Já dancei Dalila vestido de Sansão com ela em cima do palco no Chevrolet Hall. Mas a pior de todas foi ver um show dela em Aracajú, numa sexta à noite, seguir para Arapiraca, no sábado, para ver o mesmo show, e, de madrugada, ir para a rodoviária na garupa de um motoboy, para depois pegar um ônibus e vê-la em Maceió, no dia seguinte”.

O psicólogo especializado em comportamento humano, Hugo Silva, diz que o fato de “dividir” a idolatria por um astro constrói uma identidade de grupo. “O artista oferece o suporte no qual o fã pode projetar sua apreensão da realidade, contribuindo para a impressão de que o artista compreende melhor a alma humana ou escreve aquilo que os fãs gostariam de dizer. Tais artistas conseguem ‘encarnar’ o papel de porta-vozes de grandes grupos, passando a ter o poder de influir no comportamento de milhares de pessoas, o que gera comportamentos de adoração”, explica.

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