A banda pernambucana conta detalhes e bastidores da turnê do novo EP e antecipa detalhes do disco inédito

Por Vitor Pequeno e Bruno Negromonte
Especial para O Grito!

Foram várias as capitais e cidades por onde a Dirimbó passou com a turnê Deixar Tu Loks, inspirada no último EP lançado no meio do ano passado. De lá pra cá, alguns exemplos de locais por onde os meninos do Recife e Belém passaram foram os shows em Maceió (AL), Aracaju (SE), Recife (PE), São Luís (MA), Belém (PA), Olinda (PE – No Carnaval deste ano), Natal (RN) e, recentemente, na primeira quinzena de abril, uma rodada pelo estado de São Paulo. Ao todo, foram cinco apresentações, quatro delas em SESCs do interior paulista, além de um show na capital.

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A pegada recifense da Dirimbó

A turnê durou de 4 a 16 deste mês e, além do shows, os integrantes da Dirimbó puderam vivenciar um intercâmbio cultural com outras bandas de São Paulo, além de ver de perto como funciona o mercado local. O grupo hoje é formado pelos músicos Bruno Negromonte (bateria e voz), Mário Zappa (baixo), Rafa Lira (guitarra e voz) e Vítor Pequeno (guitarra) e pelo jornalista Marcus Iglesias (produção).

Bauru, Presidente Prudente, São José do Rio Preto, São José dos Campos e São Paulo foram as cidades por onde a turnê passou, sempre com boa receptividade do público que parece estar cada vez mais interessado na música paraense e pernambucano (os nortes da Dirimbó).

Além de entrevistas em rádios e programas locais, os integrantes também gravaram uma live session na sede da Odajó Produções, que será divulgada em breve nas redes sociais da banda.

A avaliação do grupo é bastante positiva, o que pode ser conferido no diário de turnê, guiada por sete perguntas sobre como foi o trabalho da banda na construção dessa turnê, bem como os próximos passos do grupo. As respostas foram dadas pelos músicos Bruno Negromonte e Vítor Pequeno.

Bruno Negromonte: Fazer uma turnê em São Paulo sempre foi um sonho. Desde moleque via bandas que admirava se aventurando a ir pra lá e isso acabou virando uma espécie de meta a ser cumprida na minha carreira, um estágio importante de um jogo que me disponho a jogar todos os dias. Quando essa possibilidade se materializou através de quatro shows no circuito do SESC a felicidade e euforia iniciais deram lugar a uma sensação de que a responsabilidade, que já era grande, agora seria ainda maior. Muitas bandas e artistas do país inteiro almejam essa oportunidade que tivemos e a gente precisava dar nosso melhor ali. E assim foi, subimos no palco felizes da vida, ciente de toda responsa, mas seguros do nosso trabalho. Os shows foram incríveis e me fizeram perceber o quanto o som da Dirimbó é abrangente, já que colocamos crianças, idosos, funcionários, técnicos, amigos e desconhecidos na mesma roda, na mesma celebração. Etapa vencida, estágio passado, sonho realizado.

Vitor Pequeno: Essa experiência foi tão incrível quanto todas as outras que vivenciamos com a Dirimbó. Passamos por Belém no início desse ano e foi um aprendizado único, porque fomos numa terra de mestres da guitarrada e fomos recebidos muito bem. Dar continuidade à turnê Deixar Tu Loks, visitando outras regiões do país, pra nós é a realização de um sonho. Quatro shows em SESCs e mais um na capital com casa cheia, pra uma banda do Recife, com apenas três anos de história, que nunca tinha estado em SP. A gente sabe que não é algo fácil de conquistar e ficamos felizes em ver a projeção que nosso trabalho vem tomando.

Rimos muito, convivemos alguns dias juntos como banda. Sempre viajo com alguns grupos e estar na estrada, pra mim, é prazeroso demais, mais ainda com a Dirimbó que é onde expressamos nossa verdade! No fim das contas, rodamos 2mil km pelo estado de São Paulo de carro, que foi a mesma distância que fizemos de Recife até Belém (também de carro)!

O que aprendi

Bruno Negromonte: Se aprende muito sobre muitas coisas na estrada, lições que a gente carrega pra vida toda. Como músico a gente aprende a andar preparado pra qualquer eventualidade, andar sempre pronto pra um equipamento que não é o ideal ou parte do seu equipamento que quebra ou danifica na hora H. Aprendemos também a exercitar a criatividade pra fazer um case de caixa de bateria virar bumbo na falta de um, por exemplo. Adequar sua execução e seu som ao ambiente também é uma lição importante na estrada, lugares maiores ou menores, lugares que o público está mais perto ou mais longe, isso tudo influencia na sua forma de tocar seu instrumento. Além das questões técnicas o músico aprende que na estrada não se faz muita ideia de como seu trabalho vai tocar as pessoas, é sempre uma surpresa e é maravilhoso ser surpreendido, lhe dá visões diferentes e isso é enriquecedor, sempre!

Vitor Pequeno: Muita coisa você aprende quando está na estrada rodando com algum trabalho. Como músico independente, posso destacar dois tópicos que hoje acredito que fazem a diferença em qualquer situação. O primeiro é ser proativo. Em uma banda independente muitas vezes você produz a própria festa, tem que dar conta de um monte de tarefas, organizar as burocracias da banda… Nessa turnê a gente tinha o pessoal da Odajó Produções, cuidando da produção executiva o que nos liberava de muita coisa, mas como somos acostumados a fazer tudo sempre, a gente percebeu o quanto podemos ajudar nossos técnicos, nossos produtores dividindo tarefas e otimizando as demandas de coisas pra fazer. Quando você é independente sempre tem alguma coisa que você pode fazer pra cuidar da banda. A segunda coisa é saber chegar e saber sair. Não serve apenas para músico, mas todo profissional do mercado da música está ligado por uma linha em que é necessário o bom desempenho do outro profissional que está trabalhando com você, pra que assim você possa desempenhar o seu papel bem. Então respeito é um princípio básico pra quem está nessa. É massa poder reencontrar pessoas na estrada.

Bruno Negromonte: O maior aprendizado é que tudo está sempre em movimento. Quando você grava um disco (ou EP no nosso caso) e monta um show pra esse disco seu trabalho vai pra rua, vai pros palcos, vai viajar, vai encontrar ouvintes diferentes, danças diferentes, trocar ideias com outras músicos, outras bandas, escutar histórias, conta e vive outras histórias e depois disso tudo, você olha pra trás e percebe que o seu trabalho volta pra casa diferente do que saiu. Você, como músico e como pessoa, retorna diferente do que saiu. Isso é demais, sério mesmo.

Em São Paulo…

Bruno Negromonte: A impressão é que São Paulo te coloca em contato com o país inteiro. Andando pelas ruas você observa uma infinidade de diferenças não só estéticas, mas de sotaques, ideias, crenças. Em outros lugares do Brasil você não consegue visualizar um público tão diverso. Geralmente nas outras capitais o eventos reúnem um público-alvo X e no estado paulista os eventos conseguem reunir um público muito misturado. Nessa processo o artista consegue numa única apresentação perceber reações e expressões variadas, e isso te dá um feedback muito rico.

Vitor Pequeno: Sampa é onde o nosso mercado é aquecido, é onde o dinheiro circula e onde as coisas acontecem. No Recife a gente ainda vê muita gente que se acomoda nas festas sazonais e nos editais da prefeitura e do governo do estado. São Paulo tem mais incentivos, inclusive de iniciativas privadas. Uma circulação como essa que fizemos com o SESC pelo interior do estado dificilmente uma banda conseguiria realizar em Pernambuco. Acho que toda banda deveria passar uma temporada em SP para adquirir experiências.

Transformação pós-turnê

Bruno Negromonte: Não sei dizer com certeza o porquê dessa turnê ter rodado tanto. A gente trabalha bastante em prol disso, planeja, replaneja, mas só isso não é suficiente. Temos grandes parceiros em várias cidades que nos ajudam muito e temos um diálogo legal e bem direto com as pessoas que vão aos nossos show. Acho que essa relação mais próxima com as pessoas, contratantes, bandas e público ajudou muito no sucesso dessa empreitada. Quando lançamos o EP colocamos como meta chegar as capitais mais próximas, um plano ambicioso pra uma banda que até então só tinha um EP lançado. A partir dessa meta fomos ganhando força pra correr atrás de metas maiores e maiores. Sair da zona de conforto e ver resultado é um grande motivador. E foi assim, uma soma de ações, muito trabalhos, grandes amigos estão fazendo essa turnê chegar a lugares que nem imaginávamos quando lançamos o Deixar tu Loks. Tomamos muito gosto pela estrada e vai ser muito difícil fazer a gente parar agora.

Vítor Pequeno: Eu não sei o porquê tem rodado tanto! Hahahaha. Sou suspeito pra falar da música. Eu adoro o que tocamos com a Dirimbó. Acho outra coisa que nos ajudou a circular é que realmente levamos essa coisa toda a sério. Trabalhamos dia a dia na banda, divulgamos, planejamos, produzimos, e nos colocamos metas periodicamente a fim de modo que temos sempre um objetivo a ser alcançado no momento. Quando lançamos o Deixar Tu Loks em julho de 2017 a meta era tocar no maior número de capitais do Nordeste com esse trabalho. Conseguimos tocar em boa parte das capitais do NE, em Belém (que é o berço do trabalho que fazemos) Agora em São Paulo. Nossa estratégia maior é se divertir acima de qualquer coisa, claro que com toda a seriedade que o trabalho exige, mas não seguimos uma fórmula que está fazendo esse trampo dar certo. Quanto a metas, a próxima da Dirimbó é o primeiro disco.

Bruno Negromonte: Como falei anteriormente, temos grandes parceiros e fizemos grandes amigos por onde passamos. Rodamos bastante e deixamos portas abertas onde fomos, isso é muito importante. Ninguém chega nem na esquina sozinho e com a gente não foi diferente. Esse trabalho envolve algumas áreas distintas e a gente se divide pra poder dar conta. Um faz os contatos e a negociação, um desenvolve a logística, outro faz o trabalho nas redes sociais e assim as turnês vão ganhando corpo. Não adianta ir pra um lugar e não conseguir interagir com quem foi ou queria ir e não pôde. Existe um trabalho de pré, durante e pós que precisa ser bem feito pra gente a gente tenha condições de voltar. Outra coisa muito importante é aprender com os erros. Erramos bastante, todos os dias a gente erra, mas esses erros são importantíssimo pra gente acertar mais pra frente. E assim a gente vai se articulando, tendo ideias e as colocando em prática, conhecendo gente e tendo mais ideias. E por ai vai!

Vítor Pequeno: Conhecemos um monte de gente na estrada, fizemos muitas amizades, conhecemos nossos mestres e referências em Belém, fomos lá pedir a bênção a eles! Em Sampa, nos aproximamos de uma galera boa, jovem e que tem um jeito parecido com o nosso de trabalhar. No Recife temos vários artistas contemporâneos que são parceiros para o resto da nossa vida. A gente gosta de trabalhar em conjunto, fortalecer quem tá perto e de poder somar.

Os próximos passos

Bruno Negromonte: A Dirimbó vai gravar seu primeiro disco. Estamos em fase de pré-produção e queremos lançá-lo no ano que vem. Com disco lançado, a gente planeja uma outra turnê ainda maior, mais organizada, passando por mais lugares, com nossa equipe completa. Esse é nosso sonho. A gente não pode contar tudo por que o segredo também faz parte do trabalho, mas miramos alto, onde a gente vai acertar a gente não sabe, mas pode ter certeza que o trabalho vai ser ainda mais forte com nosso disco na mão!

Vitor Pequeno: Esse ano a gente lança um single na primeira coletânea do Clube da Guitarrada, organizado pelo produtor e guitarrista Félix Robatto, e começaremos a produzir o primeiro disco previsto pra ser lançado ano que vem. Estamos numa fase de transição, o fim do ciclo do Deixar Tu Loks e o começo do ciclo do próximo trabalho. O que queremos agora é nos dedicar ao máximo nesse processo criativo e nos concentrar em fazer um bom disco. Depois disso a gente traça novas metas, mas eu quero mesmo é continuar rodando com a banda!

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