UMA QUESTÃO SEM RESPOSTA
Literatura, poesia de frango, questões complexas. Uma circulada por ambientes cultos

Por Biu da Silva
Especial para a Revista O Grito!

Empurrado pelas recentes incursões por locais vaporosos, resolvi me redimir de tanta atenção aos baixos (ou doces?) instintos do corpo e voltei a circular em ambientes cultos. Buscava respostas a questões um tanto quanto complexas, apesar de reconhecer a vitalidade estranha de beijos intensos trocados no jardim de nossa própria casa ou do neon vermelho visto através da janela de um motel. Une question sans réponse? Talvez, mas nunca é tarde para encontrar algum indício de explicação e motivo para instantes de alegria.

Em pleno dilema acima descrito eis que surgiu uma oportunidade rara em se falando de literatura. Ouvir alguém disposto a recitar Ginsberg, Roberto Piva e Drummond e em seguida questionar com altivez o rótulo da literatura homoerótica. João Silvério Trevisan, a convite do festival A Letra e a Voz, veio ao Recife proferir uma conferência sobre o tema. Autor de Em Nome do Desejo – drama de amor entre dois seminaristas – e Ana em Veneza ou Rei do Cheiro, em que manifestações homossexuais, de forma alguma, são o mote das histórias neles narradas, Trevisan sintetizou com brilhante retórica os riscos e equívocos da delimitação da criação artística por recortes políticos, geográficos e de gênero, entre outra s gavetas teóricas.

Crônicas anteriores
» Terça-negra no Recife
» O Baixio das Bimbas no Cinemix
» Favoritos comem oiti na Boa Vista
» O Mercado das Carnes

Ele, com propriedade conquistada pela vasta experiência, foi capaz de traduzir suas observações e articular um discurso convincente contra a cristalização de formas literárias a partir de escolhas que não espelham a habilidade e multiplicidade estilística dos escritores. Na poesia e na prosa. Trevisan tenta não reconhecer definições de viés estruturalistas e advoga um espaço para a poética do texto em si e o que ele contém de expressivo, ou seja, a manifestação livre de indivíduos desejantes.

Ouvindo os versos do poema sobre a bunda, escrito por Carlos Drummond de Andrade; e a trepada estonteante, descrita com palavras ordenadas em ritmo de coito em Por Favor, Meu Amo – concebidas pelo poeta beat norte-americano Allen Ginsberg – e lidos pelo palestrante numa tensão prazerosa, no entanto, comecei a sentir uma curiosa intersecção entre os locais citados na minha última crônica para a Revista O Grito! e aquele momento tão refinado e comportado de minha existência. Logo comecei a punir-me por elucubrações tão indecentes. E justo no instante da percepção interdisciplinar em gestação no meu íntimo, um ilustre acadêmico, que estava na platéia e é do babado, não se conteve em me sussurrar com um risinho maroto que tudo aquilo era coisa de frango mesmo.

Tomei um susto, mas ele rastreou muito bem o paradoxo. Também estava sentindo inquietação idêntica. A ambigüidade proposta por Trevisan é realmente sedutora e lógica. Ninguém diz que tal romance é heterossexual, então por que insistir na designação romance gay? A indústria cultural, para atingir um público específico, não hesita em estabelecer nichos de classificação. Eis, contudo, um terreno pantanoso. Alguém teria coragem de contestar que existe uma atração inevitável do homossexual por relatos que lhe toquem tanto o coração quanto o cú? Lembrei que dias antes de ir dar um abraço afetuoso naquele que nos anos 1970 esteve à frente do Lampião da Esquina, jornal voltado para os gays em plena transformação de seu processo de visibilidade social, assisti Pink Narcissus (1971), de James Bidgood e Paris is Burning (1990), de Jennie Livingston, atraído exatamente por esta curiosidade anímica.

Podemos, por exemplo, até dizer que os dois filmes acima são nitidamente identificados a uma perspectiva queer, um termo muito mais abrangente (artifício teórico que Trevisan, na sua palestra “Existe literatura homoerótica?”, assinalou a amplitude conceitual sem recriminá-la). Mas, não posso negar que, a motivação para ver tais filmes foi uma pulsão sexual latente que permeia meu senso estético. Embora, por outro lado, seja obrigado a reconhecer que esta não é a única e só razão para me debruçar sobre uma obra artística. Naquele momento voltei a compactuar com o que Trevisan estaria propondo: nos desfazermos de uma vez por todas da “síndrome de gueto”. Ou seja, sermos capazes, enquanto criadores, ou meros consumidores, de navegarmos em todas as margens do rio e até estarmos à margem, se assim nos convir.

Nem é preciso dizer que sai da conferência, ligeiramente abalado. Não sabia se era a voz embargada de Trevisan, ao recitar e lembrar Roberto Piva, ou a constatação da presença de um belo jovem ator na platéia a fonte da minha perturbação. O fato é que, por uma razão ou outra, fui instigado a não ser neutro (lembrei da Senhora Carrar, de Brecht, e seu dilema). Pensei em coisas tão loucas naquele instante, senti como estivesse atravessando uma verdadeira “terapia de bibas passadas”.

Nem sei se devo dizer estas coisas aqui, pois os leitores podem pensar que estou meio louco, mas não resisto. E o mais grave foi a enxurrada de lembranças que me invadiram a mente. Fui transportado para outro tempo, acreditem. Vi diante dos meus olhos a Stock e a Vogue, duas boates gays que existiam no Recife nos anos 70 numa galeria comercial, localizada por trás do prédio do Cinema São Luiz. Elas ficavam no mesmo corredor e eram apertadíssimas. Nas noites de sexta era uma ferveção com todo mundo indo para lá e para cá perguntando se em Dorinha estava melhor do que em Homero e vice-versa (observação: Dorinha era a proprietária da Vogue e Homero, da Stock ,ou vice-versa, sei lá!). E lá estava eu, na dimensão temporal paralela, sendo levado por um homem casado (com uma mulher) ao desconhecido, vendo pela primeira vez dois homens se beijarem na boca enquanto “Zodiac”, com Roberta Kelly, nas alturas anunciava que o Nirvana era ali. Anyway.

Voltei ao presente. As escadas da Livraria Cultura me pareceram inspiradas em algum melodrama mexicano dirigido por Buñuel. Atravessei o saguão e alcancei a rua. Tomei um táxi acompanhado por um rapaz chegado a divagações metafísicas. Desandei a falar coisas descabeladas como se tivesse numa crise sintagmática. No século passado interpretei uma personagem numa fotonovela, intitulada A Paranóia de Lacan, e era como se ele estivesse de volta. Rumamos para a Boa Vista e só me acalmei quando ouvi “Keep on Boys”, do Radio Dept.

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