O GENIAL FICOU DESCUIDADO
Novo do Wilco flui bem como conjunto de belas canções, mas esbarra em exageros

Por Túlio Brasil

Um amor inteiro. O clichê apaixonado que encarna o título do novo álbum do Wilco pode passar desapercebido. Comum falar do agente paixão e suas travessuras, mas falar de um amor inteiro também é queimar um jardim de rosas para plantar outras flores no lugar. Nada demais para um disco do Wilco.

O tato não é leve e sublime como foi em Sky Blue Sky, ou imerso em psicoativos sentimentais de Yankee Hotel Foxtrot. The Whole Love não tem uma caricatura definida e fragmenta a discografia da banda nas suas referências internas. Começa com ruídos da ótima “Art of Almost”, de longe a mais barulhenta e intensa do álbum. Obra de sete minutos que se sustenta por um arranjo cordas altas com um riff bem elétrico de guitarra ao fundo. No que a música chega ao fim, o riff explode na maior catarse guitarrística do álbum – assim como A Ghost Is Born fez com “At Least That’s What You Said”. A travesura inicial dá esparança que o álbum tenha arritmias felizes como essa, mas isso não acaba acontecendo.

A alegre “I Might” vem depois e põe a confusão mental de lado para tentar organizar as coisas. Escolhida como o primeiro single — saiu em compacto antes do lançamento oficial de Whole Love — é a mais sing-along do conjunto de canções, com ‘tchururururu’ e tudo. Xilofones alegram e despistam a nuvem deixada pela primeira música. A leveza continua na sequência até “Born Alone”, num intervalo que inclui um momento monótono do disco com “Sunloathe”, “Dawned on Me” e “Black Moon”. Período em que alguma coisa fica perdida entre as canções, um gosto de tocar diferente. Se não dá pra definir um estilo, a banda devia ao menos arriscar suas idéias em climas menos pálidos. Nessa Jeff Tweedy perdeu a mão.

“Born Alone” é menos tímida e tenta engatar o ritmo. Tanto na questão de batidas por minuto, quanto no entusiasmo lírico. “Sadness is my luxury” entra no caderninho de frases geniais do Jeff Tweedy (vocalista e frontman da banda). Na música ele também diz “I was born to die alone”, e o faz sem aludir a um estado de depressão. Queima e planta de novo no lugar.

Na metade final, “Capitol City”, “Rising Red Lung” e “Whole Love” apresentam melodias amáveis e violões lentos, com acordes jogados ao léu para despistar o tempo. Como aconteceu no ínicio, parecem músicas jogadas. Chamariam atenção como lado B de um single, mas são coadjuvantes no disco.

O capricho ao terminar é a maior lição de The Whole Love. “One Sunday Morning (Song for Jane Smiley’s Boyfriend)” é uma viagem de ônibus para um subúrbio arborizado num dia bonito. É a melhor canção já feita para pegar condução no final de semana, encostar a cabeça na janela e começar a sonhar. O acorde repetido diversas vezes no violão parece uma citação a “Anunciação” (Alceu Valença), mas sem a parte febril. As notas são sinos de uma tranquilidade, guiam os efeitos ao fundo da música e acompanham o piano sem pressa.

Terminar assim dá a sensação que The Whole Love é melhor do que realmente é. O oitavo trabalho de estúdio do Wilco flui bem com um conjunto de belíssimas canções, mas esbarra em exageros. O genial ficou descuidado e perdeu a vez.

WILCO
The Whole Love
[dBpm, 2011]

NOTA: 6,5

 

 

* Túlio Brasil é um dos autores do blog La Cumbuca. Leia sua crítica para o novo disco do Bonifrate.

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