O terceiro álbum do quadrinista Diego Sanchez é mais uma prova de que a linguagem dos quadrinhos permite uma experimentação narrativa até para os mais banal dos temas. Aqui o autor usou a evolução natural de um relacionamento amoroso para tratar de amor, ego, amadurecimento e também transcendência em um livro que coloca bastante importância no clima criado pelo traço. Tudo parece despretensioso e banal nessa história do casal Hermínia e Arcádio, mas é apenas um convite quase sorrateiro para se perder nessa HQ narrada em tom magenta.

O trabalho de Sanchez sempre foi marcado pela narrativa caótica, experimental, um meio termo entre o fluxo de consciência e uma diagramação mais formal. É dele Perpetuum Mobile, lançado de forma independente no ano passado e relançado pela Mino este ano. Hermínia traz uma proposta mais convencional no que diz respeito aos enquadramentos e fluxo da história. Tudo parece seguir uma lógica clara, ainda que o autor use o fantástico como pano de fundo para explorar seus temas.

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Na cidade de El Camino uma misteriosa névoa tem o poder de fundir e alterar realidades. “Como se o murmurar de infinitas consciências, infinitos egos, em processo de dissolução, tudo se perde na nuvem, vira uma coisa só”, elucubra o personagem Arcádio, em determinado momento da HQ. É bem evidente a inspiração nos contos de Borges, sobretudo no propósito de dar ao fantástico um caráter de busca de significado.

Há ainda muito referências ao ocultismo, tarô e às produções clássicas sobre relações amorosos de pessoas comuns, como os filmes de Michel Gondry. E apesar de tratar da história dos amantes, Hermínia, que batiza o livro, não é o centro da história. Sanchez colocou o personagem Arcádio como seu protagonista talvez para encontrar um lugar seguro para seu enredo semi-autobiográfico. Como enxergamos tudo pelos olhos dele, ficamos igualmente surpreendidos e estasiados com aquele mundo esquisito, confuso, mas também belo.

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Hermínia aparece como um mistério ambulante. Ela é uma personagem até mais complexa que Arcádio, mas está ali para levá-lo a um mundo transcendental, desconhecido. Ela também é insegura e frágil a seu modo e possui profundidade para que o leitor se relacione com ela de alguma forma. Isso livrou a obra do clichê “personagem feminina extrovertida x protagonista masculino tímido”, mas faz falta um interesse maior no ponto de vista de Hermínia. Esse tipo de artifício narrativo é comum em filmes, sobretudo nos trabalhos de Michel Gondry e Spike Jonze, referências criativas de Sanchez.

Com sua estrutura simples, Sanchez fez de Hermínia um experimento narrativo no que diz respeito ao aspecto imersivo da linguagem dos quadrinhos. O riscado fino do traço dá uma impressão de movimento aos quadros e torna tudo tênue e imperfeito. Isso ajuda a criar um clima intimista e pouco disperso, que ajuda a capturar o leitor para aquela atmosfera. É um tipo de HQ menos contemplativa e óbvia e mais sugestiva. Algumas cenas, como a primeira noite de sexo entre eles e as páginas de desfecho com seus paineis inteiros, são umas das coisas mais bonitas que vi numa HQ brasileira em tempos recentes. Com poucos diálogos e um enredo enxuto – amantes se deslocam pela cidade enquanto uma névoa encobre a todos – Hermínia tira sua força da proposta subjetiva de seu texto.

A edição da Mino é impecável, com capa dura, efeito luminoso em verniz localizado e papel off-set de alta gramatura. Um tratamento à altura para um dos autores mais interessantes do quadrinho autoral brasileiro hoje.

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